"Você Nos Queima" | © Filmes do Caixote

Queer Lisboa ’22 | Você Nos Queima, em análise

“Você Nos Queima” marca a estreia de Caetano Gotardo no Queer Lisboa. O cineasta brasileiro já havia exibido algum do seu trabalho no IndieLisboa, maravilhando audiências portuguesas com “Seus Ossos e Seus Olhos.” A nova obra competiu na secção Queer Arte, onde não ganhou prémio algum, mas evidenciou uma faceta mais experimental, quiçá introspetiva, do realizador.

Entre o ensaio e o poema, o documentário e a ficção, “Você nos Queima” começa como o universo, no vazio escuro. Sobre o ecrã preto, uma voz quebra o silêncio para falar sobre fotografias duplicadas ao longo do tempo. São elas fragmentos de duas mulheres em comunhão de espaço, seus corpos denunciando relação íntima apesar de muitos espetadores só neles reconhecerem a pose sem sentimento. Fulcralmente, nunca vemos essas fotografias, sendo forçados a imaginá-las através do voz-off narrado por Caetano Gotardo. Na verdade, da escuridão só emergem passagens de natureza abstrata, rocha e água em jeito de visão primordial.

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Cerca de dez minutos dentro deste transe cinematográfico, muda-se o registo e o engenho do filme. A narração em voz-off continua, mas ganha novo interesse em modos de reflexão autobiográfica. Mais importante é a mudança de imagem, daquela abstração desconexa da palavra para a cara do contador de histórias. Em plano comprido e sequência ininterrupta, Gotardo chora perante a câmara, olha o espetador e desvia os olhos. Se calhar nem é o realizador. Talvez seja uma das personagens que ele interpretou nos seus outros filmes. As especificidades do fato não interessam, pois há verdade lírica na justaposição da lágrima com a confissão.

Esse Gotardo que pode não ser Gotardo fala do assombro do desejo, dessa ligação com outra pessoa nos epítetos da luxúria, da paixão, e na ansiedade do prazer que não é recíproco. Só que a conversa vai além da carne e entra nos paradigmas do espírito, nessa solidão capaz de deixar um homem sedento por qualquer ligação com outra pessoa. Cambaleia-se entre o sexo e o amor, combinam-se os dois e acaba-se sempre no mesmo ponto – uma ausência atroz que faz render a pessoa ao mais profundo desespero. O resto de “Você Nos Queima” explora essas ideias sem o auxílio da palavra, articulando com a imagem aquilo que o texto não consegue sintetizar.

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Nesse sentido, as credenciais experimentais da obra são mais que confirmadas, reduzindo a tela a uma colagem de momentos perdidos, assim ligados pela magia do corte. A principal característica destas visões é quanto se assumem como o inverso dos prólogos. Ao invés do corpo descrito sobre um mural da natureza, é tudo corpo num ambiente maquinizado. Ao invés da cara expressiva em pranto contido, temos a impessoalidade enigmática do humano segmentado por enquadramentos tais que excisam a cabeça. Mãos são privilegiadas, mas há muitas pernas também. São estas imagens irmãs distantes daquele estudo fotográfico de duas mulheres ao longo dos anos? Quiçá…

No metro e no comboio, a câmara faz aqueles jogos de observação que o indivíduo aborrecido tende a fazer para passar o tempo e afugentar a loucura. Consideram-se as dinâmicas da gente desconhecida e focam-se toques, essa dança do acasalamento às escondidas e em público ao mesmo tempo. Carga erótica subsume a montagem, mesmo antes de se fitarem os volumes nas calças de homens em calção largo ou ganga justa. O sexo chama, ardente e palpável, uma tumescência que se sente até nestes parâmetros de projeção digital. Convida-se o toque dos olhos quando a mão não pode cumprir a sua missão tátil. É cinema sensualista, uma inebriação audiovisual.

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Ou será um verso? Rimam-se as observações do metro com a perdição da discoteca, o clube noturno tornada em novo big bang de um universo de prazer. Mãos pintadas de rubro pelas luzes coloridas parecem justapor-se aos corpos fragmentados no comboio, a perversa lascívia retorcida em algo melancólico, cheio de ardor, do lamento de quem pede companhia para afugentar a mágoa. A voz de Gotardo acaba por voltar antes de os créditos rolarem, trazendo consigo o corpo despido do cineasta e um fogo de artifício rebobinado, como que ejaculação celeste no sentido inverso. Como todos os pequenos milagres de “Você Nos Queima,” trata-se de um truque simples, mas tocante. É belo além da capacidade descritiva, é como o fumo que não se consegue agarrar, um sonho que resiste à lembrança. No fim, esvazia-se o metro e retorna-se a essa ideia de ausência, a água transborda a tela numa espécie de nevão simulado e o espetador permanece aterrado no seu lugar, talvez comovido, possivelmente frustrado, de certeza extasiado.

Você Nos Queima, em análise
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Movie title: Você Nos Queima

Date published: 26 de September de 2022

Director(s): Caetano Gotardo

Genre: Experimental, 2021, 72 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

“Você Nos Queima” encontra Caetano Gotardo numa veia experimentalista, algures entre o documentário e a ficção, entre o lirismo de um verso cinematográfico e o ensaio filmado. Esta meditação sobre solidão e desejo é capaz de seduzir e quebrar corações também, encontrando epítetos de emoção sublimada apesar de claras limitações.

O MELHOR: Toda a melancolia que o filme emana, seus suspiros de solidão e sussurros de desejo, qual poema escrito com imagens e pontuado com montagem.

O PIOR: O som é atroz e a melhor qualidade de imagem em algumas passagens seria um benefício inegável. Além disso, quere-se mais variedade nos enquadramentos. A fragmentação de corpos delicia, mas também se torna repetitiva quando as estratégias visuais teimam em permanecer tão indistintas entre si.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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