"Los Agitadores" | © Matchbox Films

Queer Lisboa ’22 | Los Agitadores, em análise

Marco Berger é um daqueles cineastas cuja carreira tem sido seguida pelo Queer Lisboa desde o início. A maioria das obras do realizador argentino têm passado no festival português e sua mais recente longa-metragem não é exceção. “Los Agitadores” foi projetado em Sessão Especial, marcando o fim da primeira metade dos festejos nesta 26ª edição. Antes de chegar ao Cinema São Jorge, a obra que também dá pelo nome “Horseplay” já tinha feito carreira em Karlovy Vary e Londres.

Ao longo das suas várias décadas de carreira, Yasujiro Ozu muito revisitou os mesmos temas e histórias que lhe eram mais queridos. Tanto assim foi, que há quem brinque, dizendo que, além dos remakes oficiais, o mestre japonês passou a vida num jogo de repetições. É claro que, para fãs de Ozu, há valor neste regresso ciclo aos mesmos modelos narrativos, deixando trespassar a maturação do artista e o modo como a mínima variação pode reverberar por cada nova interpretação. “Primavera Tardia” e “O Gosto do Saké” contam virtualmente a mesma história, mas manifestam tonalidades distintas, valorizando o exercício e evitando a acusação de redundância.

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Chamamos atenção ao legado do cineasta nipónico, pois parece que Marco Berger lhe está a seguir o exemplo. Perante sua nova longa-metragem, é difícil não sentir o sabor da recorrência, quiçá até do filme duplicado. “Taekwondo,” outra obra que marcou presença no Queer Lisboa, parte da mesma ideia base de “Los Agitadores,” mas chega a conclusões tão díspares que são quase antonímicas. Em ambos os casos, um grupo de amigos na casa dos vinte reúne-se em casa de campo, uma residência luxuosa que deixa revelar o estatuto abastado da rapaziada. Ao longo dos dias quentes de Verão, tensões sexuais acentuam-se, realçando quanto o comportamento híper-masculino aceite pela sociedade heteronormativa tende a resvalar no homoerótico.

Tal como em “Taekwondo,” também “Los Agitadores” se apega à perspetiva de um indivíduo queer cuja sexualidade é mistério para o restante grupo. Até volta o mecanismo estrutural manifesto através da introdução temporária de presença feminina, destabilizando os paradigmas homossociais que tanto caracterizam a dinâmica coletiva. As soluções cénicas são semelhantes e o estilo formal também, sublinhando a forte continuidade estilística que é transversal à oeuvre de Berger. Uma análise superficial do projeto poderia caracterizar a ausência do corealizador Martín Farina como principal diferença entre os dois projetos. Contudo, há algo mais profundo, quase sinistro, na conversa que se estabelece entre filmes.

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Sempre muito interessado no sensualismo que se estabelece entre homens, despolete ou não em ato sexual, Berger tem vindo a ajustar o temperamento dos filmes nos últimos anos. O que antes eram verdadeiras fantasias encenadas com naturalismo ligeiro, agora tornam-se em retorcidas indagações sobre o lado negro do desejo, do poder masculino e o machismo. Como exemplo, consideremos as duas longas narrativas que antecedem “Los Agitadores” na filmografia do cineasta. “Un rubio” considera uma relação disfuncional e a dor que daí emerge, enquanto “El cazador” vê a sedução tornar-se na arma do predador. O sonho torna-se pesadelo neste arco evolutivo e o cinema de Berger vai sendo consumido pelas sombras tenebrosas.

Avaliar assim o filme prende-se muito à tradição da teoria de autor, abordagem que nos parece amplamente justificada quando se pondera a realidade de “Los Agitadores.” Com fotografia de Nahuel Berger, o drama é uma coleção de quadros sensuais, corpos entrelaçados em sono despido ou brincadeiras de mau gosto partilhadas nas redes sociais. Esses momentos são capturados num estilo entre observação fria e olhar mirone, como se a própria câmara estivesse presa num paradoxo desconfortável. Como podem homens tão prontos a desfrutar do corpo uns dos outros ficar tão enojados com a homossexualidade? Como podem estes comportamentos odiosos excitar a líbido de quem se identifica com a identidade assim denegrida?

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Todo o edifício fílmico se constrói com base nestas contradições comungadas. Veja-se a proximidade dos homens, tão bela quanto maligna, apoiando-se muito na atitude sexista e na homofobia casual, palavras de ódio que drenam a carnalidade à composição. Outras ocasiões são marcadas pelo modo como a partilha íntima pode, só por si, ser um gesto de exclusão ao inspirar hierarquias de à vontade entre os amigos de longa data. Berger é um mestre desta façanha cinematográfica, encenando momentos que parecem quase improvisados não estivesse a mise-en-scène cheia de detalhe insinuante. Nesse sentido, há algo de Renoir no cineasta que também já comparámos a Ozu.

Evidentemente, Berger leva “Los Agitadores” a epítetos de violência física e mental aos quais esses outros mestres artistas raramente dramatizavam. Uma celebração entre o Natal e o Ano Novo resulta na potencial violação de uma rapariga que estava de visita, mas não é esse crime que pesa sobre a mente daquele que trará a resolução sangrenta da fita. Ao invés, é a possibilidade de ter sentido prazer na companhia de um homem gay que mais apoquenta, horrenda prova de uma moralidade podre onde a preservação do status quo é mais importante que a justiça. Tudo se amonta, uma ansiedade asfixiante em contínuo aperto, levando o espetador ao delírio paranoico até que a conclusão se abate sobre esses machos latinos. As passagens finais do filme são o rebentar da tensão acumulada, tudo explodindo num ataque motivado pelo medo dos desejos próprios. É uma tragédia tão mais inquietante pela sua natureza corriqueira, a banalidade do mal em tronco nu com abdominais suados e peitorais esculpidos.

Los Agitadores, em análise
los agitadores critica queerlisboa

Movie title: Los Agitadores

Date published: 22 de September de 2022

Director(s): Marco Berger

Actor(s): Bruno Giganti, Agustín Machta, Franco de la Puente, Iván Masliah, Facunda Mas, Ivan Benitez, Carlos Carneglia, Denis Corat, Jordán Romero, Fernando De Simone, Melissa Falter, Gastón Frías, Antonella Yamila Fittipaldi, Victoria Machta, Malena Feijóo, Mariele Guinle, Julieta Tramanzoli, Mariel Neira

Genre: Drama, Comédia, 2022, 102 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

Entre os cineastas queer da atualidade, Marco Berger afirma-se enquanto uma das vozes mais fascinantes e essenciais. “Los Agitadores” é mais um ponto evolutivo no seu trabalho, retorcendo a fantasia até que inquietudes subjacentes vêm ao de cima, consumindo todo o ecrã numa orgia de ódio mascarado com sorrisos e parvoíce geral. Trata-se de um arrepiante estudo de masculinidade tóxica, sempre apresentada com um travo erótico.

O MELHOR: A mise-en-scène provocadora, o trabalho dos atores enquanto coletivo.

O PIOR: Por vezes, a centralidade da piada machista parece demasiado intensa, um mecanismo forçado do guião que não coere bem com o naturalismo patente no projeto e na oeuvre de Marco Berger.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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