"La Nave del Olvido" | © QueerLisboa

QueerLisboa ’21 | La Nave del Olvido, em análise

As audiências do QueerLisboa 2021 deram a “La Nave del Olvido” o prémio do público. Esta obra chilena realizada por Nicol Ruiz competiu na seleção principal de longas-metragens de ficção.

Lauturo é uma localidade no interior do Chile sulista. Toda a comunidade se cativa com as luzes que ocasionalmente pontuam o céu, quiçá um fenómeno meteorológico, quiçá a manifestação de exploradores de outros planetas. Assim é que a região vive num estado de perpétua obsessão com esses OVNIS, orientando a cultura local e o apelo turístico em volta de uma mitologia extraterrestre. Há aqui uma vertente muito estranha, pois Lauturo é também definida pela religiosidade, um conservadorismo teimoso que fomenta o preconceito e uma visão rígida do mundo banal.

Pensaríamos que a fantasia alienígena e a bafienta severidade conservadora não poderiam viver em harmonia. Pelo contrário, a força económica da suposição fantástica levou a que os líderes religiosos moldassem a fé a essas visões de um além espacial. Até os medos provinciais se transfiguram sob a influência dos OVNIS. Há quem tema uma invasão, mirando o céu com tanta desconfiança como aquela que reservam aqueles que fogem às regras e ditames dos bons costumes. Apesar da ameaça, talvez promessa, de mudanças celestiais, progressos e transformações, Lauturo vive numa muito dolorosa estagnação.

la nave del olvido critica queerlisboa
© QueerLisboa

A peculiar mistura de possibilidades mágicas e pensamento retrógrado faz um interessante cenário para “La Navel del Olvido”. Em certa medida, o filme usa este estranho paradigma de Lauturo para refletir as contradições das personagens, do desejo. Além disso, numa leitura que transcende o enredo, trata-se de um contraexemplo. Como a história de Claudina, a heroína da história, nos acaba por mostrar, a transformação é possível sem alienígenas e o caminho para o amor próprio não passa pela rejeição daquilo e daqueles que fogem às normas. Todos temos, dentro de nós, a capacidade para a mudança.

Ela é uma mulher na casa dos 70, uma senhora recentemente enviuvada que talvez não tenha amado muito o esposo falecido. Não obstante essa falta de afeto, ela foi boa companheira e ainda rege os seus dias com base em ritmos quotidianos feitos a dois. Na cama e nos bancos de jardim, sente-se sempre o espaço vazio de um corpo que já não cá está. Ela não é originalmente de Lautaro, mas o silêncio da casa vazia, da quinta despovoada, serve de catalisador para a viagem. Seguindo uma oferta generosa da filha e do neto, ela muda-se para essa localidade no Sul e tenta reconstruir-se. Ela tenta perceber quem é quando não é esposa.

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Longe de encarar a velhice como um ponto final, “La Nave del Olvido” vê essa fase da vida como o início de um novo parágrafo, ou mesmo um novo capítulo. Demora até que Claudina acredite nessa ideia, mas seu gradual processo de reconfiguração pessoal é belíssimo de se ver. Numa faixa etária onde raramente o erotismo é celebrado, a atriz Rosa Ramírez Ríos usa o desabrochar da sexualidade para telegrafar quanto Claudina se altera, quanto a sua relação com o corpo e o próprio desejo vai metamorfoseando e abrindo-se a possibilidades inéditas.

Cenas a sós no quarto, considerando o reflexo no espelho, são primorosos exemplos de uma performance em meditação sobre si mesma, de uma pessoa a aprender a ver-se a si mesma de outra forma. A masturbação podia sugerir um cinema lúrido e obsceno, mas não há perversidade no modo como a câmara retrata esse ato. Muito menos vemos alguma exploração lasciva na interpretação sensível de Ríos. Orientada por um gesto delicado e expressão transparente, a atriz deixa-nos ver todo o conflito interno da personagem sem nunca sublinhar em demasia, sem nunca tombar o milagre do prazer em algo feito para o contentamento do espetador.

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Essa dimensão faz de “La Nave del Olvido” um filme meio insular, onde Claudina reage a si mesma e pouco se encanta com o olhar da câmara. Em certa medida, é uma performance e um filme virados para dentro, para sua mesma intimidade, algo necessariamente intransponível. No entanto, a fita é também um romance, além de ser um estudo de personagem. Essa oportunidade romântica aparece quando Claudina se aproxima de uma vizinha, a misteriosa Elsa, e com ela descobre um novo mundo de contentamento, de paixão. Desde a visita a um bar gay até à exploração de novos erotismos na cama, a história de Claudina deixa de ser somente sobre autodescoberta.

Na mesma medida que uma mulher se deixa conquistar pela outra, também o filme permite que o espetador entre em comunhão com a narrativa amorosa, com o sentimentalismo gentil que vibra do ecrã. Tais matizes de emoção libertadora não existem sem confronto com pressões exteriores, é claro. Ao mesmo tempo que encontra uma comunidade nova, Claudina também encontra o julgamento da própria filha, sinédoque humana para um Chile Católico. No fim, contudo, o conflito parece inano, ofuscado pela luz daquilo por que se luta. Com uns singelos 71 minutos, “La Nave del Olvido” nunca tem tempo de aprofundar muito as suas ideias, mas as suas sugestões narrativas são suficientes para conquistar o espetador.

La Nave del Olvido, em análise
la nave del olvido critica queerlisboa

Movie title: La Nave del Olvido

Date published: 30 de September de 2021

Director(s): Nicol Ruiz

Actor(s): Rosa Ramírez Ríos, Romana Satt, Gabriela Arancibia, Cristóbal Ruiz, Claudia Devia, Raúl López Leyton

Genre: Drama, Romance, 2020, 71 min

  • Cláudio Alves - 78
78

CONCLUSÃO:

Um delicado romance serve para iluminar o caminho pelo qual uma mulher idosa aprende a ver-se com outros olhos. “La Nave del Olvido” desenvolve-se em torno de uma grande performance e vive nos silêncios confortáveis que existem na comunhão entre o indivíduo e seu reflexo, entre gente que se ama.

O MELHOR: O trabalho de Rosa Ramírez Ríos no papel principal.

O PIOR: A metáfora dos aliens nem sempre resulta, sugerindo uma potencialidade de ficção-científica que o naturalismo modesto da fita nunca tenta explorar.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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