"Seguindo Todos os Protocolos" | © Áspera Filmes

Queer Lisboa ’22 | Seguindo Todos os Protocolos, em análise

Seguindo Todos os Protocolos” é uma irreverente comédia brasileira onde angústias da pandemia e o desejo carnal se intersectam. Realizado por Fábio Leal, a obra é um exemplo de filme Pernambuco e teve sua estreia mundial na Mostra de Cinema de Tirandentes. Agora passa no Queer Lisboa 26, inserido na Competição de Longas-Metragens. Como sempre, o cinema latino-americano tem lugar de excelência na programação, estando Brasil especialmente bem representado.

Perante o desespero da pandemia, se calhar mais vale rir que chorar. Essa parece ser a filosofia subjacente a “Seguindo Todos os Protocolos,” nova longa de Fábio Leal cujo humor floresce do desconforto e da ansiedade que andam de mãos dadas em tempos de confinamento, especialmente quando o desejo entra na conversa. Retratando ele mesmo a personagem principal. Leal explora estes temas com bom humor, mas também boa dose de autocrítica, um rasgo sardónico e alguns resvalamentos para lados mais pesados, quiçá mais tristes do milieu. Também há sexo explícito nesta equação, erotismo sem vergonha e nudez masculina para dar e vender.

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Acontece que, mais do que romance, é o sexo que tudo complica nesta trama sobre conexões em crise do COVID. Essa parte essencial da vida tende a ser recriminada pela sociedade e as boas maneiras, sendo que o cinema mainstream muito gosta de varrer para debaixo do tapete. Leal, contudo, não tem medo de representar a realidade da situação sem eufemismo ou falso amor. A franqueza é rainha em “Seguindo Todos os Protocolos,” quer seja no desenvolver do texto ou no estilo modesto da fita. Alguns interlúdios mais estilizados podem sugerir uma transcendência do realismo franco, mas eles manifestam-se em tradução do desejo sublimado. Às vezes, há que ir além do real para expressar a verdade.

Enfim, deixemos considerações formalistas para outra altura – primeiro há que considerar a forma narrativa da coisa. “Seguindo Todos os Protocolos” desenrola-se em torno de Chico, um homem gay com necessidade de sexo e o temor hipocondríaco a dar-lhe a volta ao sistema. Quando o encontramos, há dez meses que ele está fechado em casa, mantendo uma relação à distância com Ronaldo, que ele conheceu no último Carnaval celebrado em pessoa. A primeira grande cena do filme testemunha a dissolução desse elo entre os dois homens, começando como uma videochamada pela qual Chico claramente pretende obter alguma gratificação entesada.

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Só que o tiro sai pela culatra numa conversa que começa mal e só piora à medida que os minutos passam. Leal enquadra a cena de modo a nos colocar na perspetiva de Chico, deixando-o sempre fora do plano, com a voz sua única presença. Assim experienciamos a estranheza da situação com Ronaldo fitando os nossos olhos e falando em jeito que parece diálogo direto com o espetador. Estes jogos cinemáticos servem para nos afiliar a Chico, mas, ao mesmo tempo, também espicaçam o humor do aparato cénico e funcionam como crítica oblíqua do protagonista. É certo que o filme tem empatia para com o hipocondríaco, mas também tem noção das suas manias e inseguranças.

Daí resulta um retrato multidimensional, veículo para a narrativa que é tão simples quanto pejada de reviravoltas tonais. É que, de forma geral, o guião orienta-se em volta de três interações e um final movimento tipo coda. Há essa conversa virtual, seguido de um encontro com outro homem vindo do passado pré-pandemia. Dessa vez, a interação é em pessoa, feita pelo meio de cortinas plásticas e muita paranoia. Esse é o ponto alto de “Seguindo Todos os Protocolos” em termos humorísticos, oscilando entre a farsa e um erotismo febril que consome o ecrã. Leal tem bom olho para converter a tela em janela que se abre para a intimidade de outrem, gerando aquele sentimento agridoce quando o espetador se pensa voyeur.

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É claro que, nestas conjeturas de sabotagem própria, nem esse amor plastificado vinga e o orgasmo sem mácula lá se adia para outra altura. Chegado o terceiro movimento ou ato, pensamos que é desta. Afinal, não haverá melhor parceiro sexual para Chico que um profissional da saúde, bem ciente dos riscos e dos protocolos recomendados. A esperança murcha na flor, contudo, brutidão irrompendo pela interação até que corpos se reduzem a objetos e faz-se um apelo à pena para justificar a violência. Não se torna esta anedota de pandemia numa tragicomédia, mas está lá quase. Leal e Lucas Drummond dominam a montanha-russa da sequência, levando-nos à euforia erótica antes de deitarem tudo abaixo.

Fica aqui a garantia que, não obstante esse episódio mais conturbado, “Seguindo Todos os Protocolos” é uma comédia com final afim de feliz. Quiçá seja por isso que existe uma rutura de paradigmas estilísticos ao último minuto, um sonho de sexo na mota e faróis que se vêm em orgasmo luminoso. Para quem já se aborrecia com o registo em forma de naturalismo digital sensabor, esta rutura é uma brisa de ar fresco num quarto abafado, o beijo depois da provocação, o prazer mútuo ao fim de dez meses fechado em casa sozinho. A encenação dos corpos desnudos sempre dá interesse visual à fita, mas é no fim que a comédia de Fábio Leal chega ao seu apogeu e cumpre a promessa sensualista da premissa. Não há nada como acabar bem.

Seguindo Todos os Protocolos, em análise

Movie title: Seguindo Todos os Protocolos

Date published: 22 de September de 2022

Director(s): Fábio Leal

Actor(s): Fábio Leal, Marcus Curvelo, Bruce de Araújo, Lucas Drummond, Paulo César Freire, Vitória Liz

Genre: Comédia, 2022, 74 min

  • Cláudio Alves - 65
65

CONCLUSÃO:

Divertido e triste, eufórico e ansioso, agridoce até ao orgasmo que deixa para os créditos, “Seguindo Todos os Protocolos” é uma interessante permutação queer do cinema feito em tempos de pandemia. Como cristalização de um dilema atual, sente-se a urgência do projeto, mas questionamos a sua longevidade. Quiçá a fita envelheça como um clássico obscuro destes tempos conturbados, ou talvez seja levada abaixo por algumas questões de displicência formal e redundâncias no foro textual.

O MELHOR: O modo como a câmara enquadra o corpo masculino desnudo, o fulgor do sexo e a revolução audiovisual em minutos finais.

O PIOR: Tirando no final, a fotografia é meio pobre e o som também. Entendem-se as limitações técnicas que vêm com a pandemia, mas não deixam de ser máculas que fragilizam a obra na sua totalidade.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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