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Queer Lisboa ’22 | BR Trans, em análise

Silvero Pereira, um dos protagonistas do aclamado filme de terror brasileiro “Bacarau”, é a âncora para a construção de um documentário performativo que tem um nobre e louvável propósito: atribuir rostos e vozes às anónimas faces da comunidade transexual brasileira, ouvindo as suas histórias e, quiçá, procurando o caminho para uma sociedade mais inclusiva e menos alicerçada no fundamentalismo religioso. 

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Raphael Alvarez (realizador e produtor) e Tatiana Issa (produtora promotora de conteúdos ligados aos direitos das mulheres e da comunidade LGBTIQA+) escrevem e realizam esta obra semi-documental de 77 minutos de duração, inserida na seção Panorama do 26º Queer Lisboa, a qual nos transporta para um misto de relato documental, performance e pura ficção. O objetivo? Apresentar a um Brasil perigosamente conservador e fundamentalista (sim, claro, os fundamentalismos também se fazem Cristãos), laico apenas em teoria, quais as lutas e reivindicações da sua marginalizada população trans.

A peça artística arranca desde logo com uma declaração de intenções clara: ao som de “Born to Die”,  de Lana del Rey, com Silvero Pereira no centro do palco escurecido a interpretar a sua personagem Gisele. O olhar é estimulado pela dança que se inicia e pela sucessão de imagens chocantes e violentas que nos são apresentadas em sequência acelerada e com cortes abruptos – vemos as mortes violentas da comunidade trans brasileira, mais especificamente das mulheres trans (as que mais crimes de ódio hediondos inspiram).

O Brasil é, há mais de uma década, o país com mais homicídios de pessoas transexuais em todo o mundo. O filme não se coíbe de nos mostrar, de forma muito gráfica, esta realidade, aliando a performance e a voz de Gisele, o seu discurso intervencionista e insubmisso, a imagens muito breves de crimes revoltantes. A ideia de Raphael Alvarez e Tatiana Issa não é propriamente chocar, mas antes começar “BR Trans” com um sentimento de urgência, de contar as histórias de quem sobrevive a esta cruel perseguição. O objetivo é alcançado.

É através da experiência do nosso protagonista Silvero Pereira, e da Gisele que cria para a peça que vemos filmada, que nos iremos situar nesta viagem pela transexualidade no Brasil. Quanto à peça, estreou em 2013, bem antes de se ver “casada” com o cinema, e é possível descobrir mais sobre a mesma no Youtube do artista.

Como pessoa queer não trans (mas como artista livre de binários de género e com uma paixão pelo transformismo), Silvero expressa de forma cintilante a própria evolução positiva da sua relação com a comunidade trans ao longo da vida. Tal engloba os próprios misticismos que, nas pequenas aldeias e cidades do Brasil, se edificam em torno das pessoas trans – como um “outro” que tanto fascina, é fonte de erotismo, como de ódio por força da incompreensão. Uma entrevistada diz a certa altura, “o mesmo cara que te assedia, é o cara que te mata”. As palavras ecoam.

Talvez a “tragédia” (salvo seja) de “BR Trans” seja mesmo que o filme, estreado no renomado Festival de Cinema do Rio, acabe a ter como audiência maioritariamente pessoas que, à partida, não carreguem consigo a intolerância que se procura combater. Como lição documental intercalada com um texto escrito, esta longa-metragem sucede grandemente na apresentação dos sonhos, sucessos, experiências e desejos de mulheres trans.

É uma obra transversal, apresentando-nos mulheres do norte ao sul do país e é também bastante equilibrada na medida em que nunca se entrega ao desalento, apresentando os casos gritantes de exclusão social, violência e, em último caso homicídio que integram o quotidiano desta comunidade, mas sem nunca reduzir a sua experiência a tal.

Cada uma das mulheres em destaque no documentário é vista e ouvida de forma plena. E, para lá da tristeza, da realidade condenável e das estatísticas (uma pessoa trans assassinada a cada 48 horas, em média, com idades a rondarem os 26 anos e mortes para lá de violentas), existe também muita vida e música. Cada uma das protagonistas escreve no braço o seu nome e revela a sua história, a qual fica cravada, como uma tatuagem que honra quem amamos, como defende Gisele na peça.

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Para além dos belos números musicais repletos de ira, mas também de compaixão e de groove protagonizados por Gisele, a musicalidade encontra-se também nas ruas e na canção das mulheres que são ouvidas ao longo de “BR Trans”. Mulheres com percursos muito distintos, mas muitos deles ligados à prostituição e à pobreza, como consequência direta e indissociável da exclusão social.

Todavia, ouvimos também a perspetiva de quem felizmente conseguiu escapar a esse ciclo devastador e cruel, como por exemplo uma esbelta ativista trans. Conhecemos inclusive o caso de uma mulher trans militar que conseguiu alcançar uma vitória histórica, ao recusar-se a aceitar a sua suspensão, e que agora se encontra a investigar os muitos casos de brutalidade contra a comunidade trans que se perpetuam no seu país. “BR Trans” despede-se com uma nota de esperança pejada de melancolia, não passasse o seu fechar da cortina, uma vez mais, pelas avassaladoras estatísticas e pela prisão social em que muitas pessoas se vêm presas.

Sem se restringir demasiado ao formato de entrevista num único local, embora contenha várias entrevistas tradicionais cara-a-cara num mesmo cenário, “BR Trans” vai oscilando entre o seu processo cénico de construção de sentido, protagonizado com empatia e gigante pujança por Silvero Pereira. Faz-se povoar também pelos cenários das ruas que filma, pelos clipes e imagens que vai inserindo, e pelos efeitos que acrescenta à tela de cinema. No final, alcançámos uma imagem plena, rica, diversa.

BR TRANS | O ESPETÁCULO ORIGINAL DE SILVERO PEREIRA

BR Trans, em análise
BR trans poster oficial

Movie title: BR Trans

Movie description: BR Trans dá voz à população mais marginalizada e assassinada no Brasil de hoje: transexuais. Através da justaposição de uma peça de teatro protagonizada por Silvero Pereira, histórias reais e ficção misturam-se em busca de sentimentos como o afeto e a empatia.

Date published: 22 de September de 2022

Country: Brasil

Duration: 77'

Author: Raphael Alvarez, Tatiana Issa

Director(s): Raphael Alvarez, Tatiana Issa

Actor(s): Silvero Pereira

Genre: Documentário, Performance

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  • Maggie Silva - 84
84

Conclusão

“BR Trans”, documentário híbrido que adapta uma peça de teatro ao grande ecrã, procura dar voz a uma comunidade muito desprotegida no Brasil. Este exercício presta homenagem a todas as pessoas trans brutalmente assassinadas ao incluí-las, em sequência rápida, na montagem. Ouve também mais de 20 entrevistadas, vozes da resistência. As suas histórias permanecem e, depois de nos depararmos com os números devastadores, esperemos que também elas consigam perseverar.

Pros

  • Um esforço social notável, como documento que poderá servir o intuito da consciencialização;
  • Uma narrativa documental diversificada e que não se limita a um formato de documentário tradicional e pouco inventivo;
  • A multiplicidade de membros da comunidade trans que aparecem no filme, de norte a sul do país;
  • A feroz prestação central de Silvero Pereira, neste seu ato de ativismo agora traduzido para o cinema por Raphael Alvarez e Tatiana Issa.

Cons

Na cena em que Silvero sai para a rua, na pele de Gisele, para que possa experienciar o que as mulheres trans vivem, sente-se alguma plasticidade e futilidade no exercício. Sem dúvida as intenções eram boas, mas como homem cis, mesmo sendo ativista e transformista, não conseguirá verdadeiramente ocupar esse espaço. Quanto não tenta colocar-se no mesmo patamar, mas antes ser um porta-voz através da sua arte, acaba por conseguir passar melhor a sua mensagem.

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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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