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Revista é Sempre Revista, revisitado

“Revista é Sempre Revista” é a mais recente produção de Filipe La Féria que faz uma viagem pela história do Teatro de Revista em Portugal.

Foi durante o século XVIII que a França criou um novo género teatral cujo objetivo era passar em revista os acontecimentos que mais marcaram o ano, fazendo uma crítica social aos vários aspetos político-sociais do país. O modelo tornou-se extremamente popular, acabando por chegar a Portugal anos mais tarde. Foi no extinto Teatro Gymnasio, no Chiado, que o Teatro de Revista à portuguesa se estreou, no século XIX, marcando para sempre a cultura do nosso país. Com uma mistura de dança e música, a sensualidade passou a misturar-se com a sátira e a crítica social, fazendo das salas de teatro um espaço onde os portugueses são convidados a rir dos acontecimentos políticos que marcam a atualidade. Claro está que foi com a subida de Salazar ao poder e a vinda da censura que o Teatro de Revista ganhou ainda mais destaque, sendo que os atores se viram obrigados a recorrer à metáfora para poderem criticar o país sem que o lápis azul lhes cortasse as falas.

Dois séculos volvidos desde a chegada do Teatro de Revista a Portugal, este tornou-se um dos principais géneros da arte do fingimento no nosso país e trouxe à nossa cultura centenas de atores que nos marcaram com frases icónicas e com canções que, para sempre, ficarão no nosso imaginário. Filipe La Féria, um mestre na encenação teatral decidiu trazer a cena “Revista é Sempre Revista”, uma peça icónica que leva o povo português a viajar pela história do Teatro de Revista nacional, homenageando todos aqueles que contribuíram para a popularidade deste género. Esta não é apenas mais uma Revista de La Férias, mas sim uma das suas melhores encenações dos últimos tempos!

Sobe a cortina do Politeama, que tanto Teatro de Revista já acolheu, e acende-se no palco um cenário que representa o Parque Mayer, a Meca deste género teatral há mais de cem anos. Em cena entra o anfitrião da noite, fazendo-se acompanhar pela ‘Lisboa Antiga’ e pela ‘Lisboa Moderna’. O trio acaba por introduzir o público aos primórdios da Revista e, de forma muito simples, mas deveras cativante, mencionam vários aspetos importantes num teatro deste género. Passos de dança, roupas adornadas com plumas, o famoso ‘passo da coxa’, a forma de falar… tudo isto é referido pelo anfitrião que consegue assim prender a atenção do espectador, mostrando-lhe que esta é uma peça que respeita a tradição do Teatro de Revista à Portuguesa.

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Finalizada a parte introdutória, o público é, então, convidado a embarcar numa viagem pelas memórias do Teatro de Revista e, numa singela homenagem sobem a palco importantes figuras que marcaram a cultura portuguesa. Através de uma caracterização e uma imitação brilhante por parte dos atores, o espectador encara de frente grandes nomes do teatro que já partiram, sendo rapidamente reconhecidos por aspetos físicos, como o cabelo com corte militar de Beatriz Costa, ou por maneiras de falar, como o tom acelerado da inesquecível Ivone Silva. Durante duas horas de espetáculo pisam o palco nomes como Vasco Santana, Laura Alves, Mirita Casimiro, António Silva, Max, Camilo de Oliveira e tantas outras pessoas que perduram nas nossas memórias. Cada vez que um deles surge em cena, o público ovaciona numa mistura de saudade, com um sentimento de profundo agradecimento por tudo aquilo que estes atores fizeram pela cultura portuguesa.

Mas o Teatro de Revista não é verdadeiro se não trouxer consigo a sátira, dois elementos que Filipe La Féria adicionou à peça “Revista é Sempre Revista” de forma brilhante. Em vez de cada crítica surgir num quadro solto, o encenador arranjou forma de serem as extintas personagens do nosso Portugal a darem voz à situação atual do país. Assim, cria-se um paralelismo entre o passado da nossa situação social e o presente da nossa democracia. Além de o público se identificar com estas críticas, é-lhe dada ainda a liberdade de refletir sobre o ponto desgastante em que o país chegou, sendo-lhe mostrada a reação de desgosto que os grandes nomes do Teatro teriam se estivessem ainda entre nós. Como tal, aspetos como a falta de apoio à cultura, o aumento do preço dos alimentos, a atribuição de míseros subsídios e a pobreza cada vez maior em que somos obrigados a viver pelo governo são alguns dos temas que “Revista é Sempre Revista” satiriza, arrancando largos aplausos de um público visivelmente desgastado com a situação de Portugal.

E toda a crítica no Teatro de Revista é feita em forma musical, sendo que foram em muitas peças do género que surgiram canções que se tornaram populares ao ponto de serem passadas de geração em geração. Muitas delas são reanimadas na peça “Revista é Sempre Revista”, obrigando o público a cantar com as personagens que lhes deram vida temas que perduram na sua memória. Lá Vai Lisboa, uma marcha popular imortalizada por Amália, A Mula da Cooperativa, interpretada pelo madeirense Max, e O Cochicho, popularmente cantada por Beatriz Costa, são algumas das canções que são levadas a cena nesta grande produção.

Mas “Revista é Sempre Revista” não homenageia apenas aqueles que se destacaram como primeira figura no Teatro, mas também todos aqueles que de alguma forma contribuem para o sucesso da Revista à Portuguesa. Costureiras que produzem os reluzentes vestidos cobertos de lantejoulas, o contra regra que se encarrega de manter nos trilhos o andamento da peça, as bailarinas que em palco se enchem de plumas para entreterem o público, e muitas outras profissões são então homenageadas na mais recente produção de La Féria. No fim, o público não se inibe de ovacionar de pé a extraordinária atuação de todos os atores que em duas horas nos trazem à memória lembranças de uma cultura que, mesmo sem apoio, é rica em talento. Como diz o velho ditado, ‘tirem tudo aos portugueses, mas não lhe tirem a Revista’. Um enorme bravo!

CARTAZ | REVISTA É SEMPRE REVISTA ESTÁ EM CENA NO POLITEAMA ATÉ JUNHO

Revista é Sempre Revista
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Já tiveste a oportunidade de assistir à peça “Revista é Sempre Revista”? De que ator/atriz tens mais saudades?



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