© Vincent Productions

Riefenstahl, a Crítica

Estreia na próxima quinta-feira 19 de março nas salas de cinema portuguesas o documentário “Riefenstahl” (2024, Andres Veiel), com distribuição da Midas Filmes. Chega até nós com um desfasamento de cerca de 1 ano e meio – teve a primeira exibição pública em agosto de 2024 no Festival de Cinema de Veneza – mas nem por isso deixa de ser menos relevante.

Trata-se de uma revisitação à obra da realizadora e atriz Leni Riefenstahl que fez vários filmes de propaganda do regime nazi de Adolf Hitler. É também um documentário integralmente construído a partir de materiais de arquivo, desde filmes da autora a fotografias pessoais ou entrevistas com a mesma. De referir que Leni Riefenstahl nasceu em 1902 e faleceu em 2003.

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Qual a narrativa de Riefenstahl?

“Riefenstahl” é um documentário que retrata a vida e obra de Leni Riefenstahl e a forma como o seu cinema marcou a História alemã. Se, por um lado, começou a carreira como atriz, por outro, foi como realizadora de filmes de propaganda encomendados pelo regime de Hitler que ficou mais reconhecida.

Ao longo deste documentário, assistimos a vários excertos de filmes realizados e/ou interpretados por ela à medida que ela também nos conta um pouco da sua história, quer a partir de entrevistas, quer a partir de documentos. A sua história começa antes de Hitler e termina, já em desgraça, no início do século XXI.

Um documentário sobre o ontem para pensar o hoje

Riefenstahl
© Midas Filmes

“Riefenstahl” chega até nós numa senda de importantes documentários sobre a questão do totalitarismo e dos regimes que funcionam a partir da propaganda. Primeiro tivemos “Orwell: 2+2=5” (2025, Raoul Peck), depois “Mr. Nobody Contra Putin” (2025, David Borenstein, Pavel Talankin) e agora este. Nesse aspeto é inevitável pensar em dois factos: sim, este tipo de regimes estão a crescer; não, não estamos perdidos, a partir do momento em que refletimos sobre isso. Se, com estes filmes este tipo de regimes desaparece, isso já é mais difícil de responder. O facto é que somos levados a pensar como e porque funcionam desta forma.

Em termos de comparação com os outros dois filmes citados, este fica um pouco aquém. No entanto, não deixa de ser na mesma extremamente relevante. Isto também porque usa palavras da própria Riefenstahl em confronto com aquilo que ela realmente foi ou pensou.

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Um filme sobre filmes

Riefenstahl
© Midas Filmes

Ao contrário dos outros dois exemplos, “Riefenstahl” é também um filme sobre cinema e não apenas sobre um regime autoritário. Nesse sentido, é sintomática a forma com que o realizador Andres Veiel abre este filme: com vários excertos a serem mostrados em película. Isto porque, na essência, o cinema é isto: várias fotografias em movimento que são por si só uma construção.

Este também não é um documentário 100% linear na sua cronologia. Isto porque o realizador opta por nos introduzir logo aos filmes que Riefenstahl fez por encomenda do regime de Hitler. Só mais tarde nos é apresentada a sua (curta) carreira de atriz. No entanto, há um pequeno excerto de “A Luz Azul” (1932, Leni Riefenstahl e Béla Balázs), o seu segundo filme como atriz e também corealizadora, que nos é mostrado. Isto porque (descobriremos mais tarde) foi com esta cena onde Leni escala uma montanha que Hitler terá confiado nela para realizar um filme pró-regime. No entanto, logo depois chega até nós uma das obras-magnas: “O Triunfo da Vontade” (1935).

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Um conjunto de fotografias vão sendo mostradas e passadas com pequenos ‘dissolves’ que mostram o envelhecimento de Leni. Afinal, é partir dos seus depoimentos que ela nos conta a sua história. Se, à primeira vista, “Riefenstahl” é um filme ambíguo e que nos deixa até em dúvida sobre o olhar do realizador, aos poucos, vamos sabendo que não é bem assim… E o derradeiro golpe dá-se num programa de televisão onde Leni é contestada fortemente. Não se arrepende do que fez porque “não sabia”…

Já sobre os documentos fotográficos (e não só), é, de facto, notório como tudo foi tão bem guardado e arquivado. E, com estas fotografias, Andres Veiel consegue construir uma espécie de mosaico da vida desta mulher.

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Era Riefenstahl realmente nazi?

Riefenstahl
© Midas Filmes

Ao longo do filme esta pergunta vai sendo desenvolvida por várias pessoas que lhe questionam porque fez filmes para o regime de Hitler. E o facto é que a opinião de Leni não é sempre linear. Depende muito da idade e do estado de espírito. No entanto, isto é mesmo o que uma pessoa autoritária faria. Contornar os vários caminhos para dizer as coisas à sua maneira e como lhe convém. Leni trabalhou para Hitler simplesmente pelo dinheiro? Porque era artista e lhe era igual filmar Hitler ou filmar Roosevelt (como ela indica)? Não é bem assim. E ela, intimamente, sabe. E o desviar do olhar dela focado pelo realizador é bem claro do que ela realmente sente.

Arte pela arte?

O facto mais relevante de como Riefenstahl sabia o que estava a fazer pode ser resumido a um exemplo paradigmático de “O Triunfo da Vontade”. Leni explica como filmou a multidão que ouvia o discurso de Hitler, completando um círculo, através de uma panorâmica em ângulo picado. Era uma forma de propagandear a união do regime. Não há qualquer dúvida nisso. Para lá disso, a forma como Leni filmou não só Hitler como também os atletas de “Olimpíadas” (1938) é sintomática da forma como enalteceu a beleza das figuras. Elas não estavam simplesmente ali, como ela chega a referir. Ela transformou-as em algo de deuses (e a sequência inicial também o denuncia). E, quando Leni, refere sem hesitação que não filmaria deficientes, não há qualquer dúvida na escolha que ela fez.

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Sim, Riefenstahl foi uma artista. Tinha gosto e educação pela arte. No entanto, também compactuou com o regime nazi. Inclusive, assistiu a um fuzilamento de judeus sem nada fazer. Além disso, utilizou ciganos na rodagem de um dos seus filmes: “Terras Baixas”… E refere desconhecer que foram para um campo de concentração (de onde se confirmou mais tarde que ela própria os tinha ido lá buscar). “Quem é mais provável estar a mentir? Eu ou os ciganos?” Só com estas afirmações se vê quem era (realmente) Riefenstahl…

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As verdades escondidas

Riefenstahl
© Midas Filmes

Andres Veiel sabe o impacto que Leni Riefenstahl teve na História e, por essa razão, dá-lhe voz mas também a contradiz (e com ela própria). Aliás, este documentário praticamente não tem narração o que faz com que a intervenção do realizador seja mínima.

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Acreditará Riefenstahl naquilo que ela própria está a dizer? “Não há mensagem política no filme.”, refere. No entanto, o antissemitismo existe em “O Triunfo da Vontade” e Andres Veiel confirma-nos com um excerto. É uma mensagem de paz? Que paz? Eliminar uma raça para os arianos puros terem ‘a paz’…?

Ao longo do filme, Riefenstahl é uma mulher (aparentemente) sem convicções. Fez os filmes por ser artista. Esteve ao lado de Hitler porque a maioria também esteve. Quem é realmente Leni Riefenstahl? Uma amizade muito próxima entre ela e Hitler é o que demonstram os factos. Uma relação mútua de compreensão.

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A partir do momento em que vemos as imagens do ‘talk show’ onde Leni Riefenstahl participa e é severamente criticada, conhecemos também o seu amor tardio: Horst Ketner. Com 40 anos de diferença, foi ele quem ajudou a realizadora nos últimos anos da sua vida e trabalharam em conjunto (por exemplo, em expedições fotográficas). Contudo, seria verdadeiramente ‘apenas’ amor e trabalho? A forma como Riefenstahl fala com ele não será demasiado autoritária…?

Conclusões sobre Riefenstahl

Riefenstahl
© Midas Filmes

No pós-II Guerra Mundial, Leni Riefenstahl deixou praticamente de trabalhar. Lançou apenas uma longa-metragem em 1954 (com 10 anos de atraso): “Terras Baixas”; a mesma tinha sido filmada entre 1940 e 1944. Por fim, em 2002, surgiu um documentário com imagens colecionadas pela artista: “Impressionen unter Wasser”. Nada mais. Contudo, ela nunca deixou de ser realizadora. E isso nota-se nas entrevistas que dá. É ela quem dirige onde colocar a câmara. É ela quem diz quando cortar (seja sobre acusações sobre a sua relação com Goebbels ou sobre os seus filmes e a sua visão política). Uma forma ‘discreta’ de ser autoritária. Com a arte não se fazem ‘apenas’ filmes. Escolhe-se o que filmar. Escolhe-se o que dizer. Leni Riefenstahl escolheu filmar para Hitler. Escolheu como o filmar. Sim, ela também fez propaganda.

Em resumo, “Riefenstahl” é um filme que procura refletir sobre a vida e obra de Leni Riefenstahl e fá-lo através de diferentes fontes de arquivos. Desde fotografias, filmagens de bastidores, filmes caseiros, programas de televisão ou os próprios filmes de Riefenstahl. Além disso, Andres Veiel não é um mero observador. Ele confronta as palavras de Leni com os seus filmes. Procura o significado dos apertos de mão. E mostra-nos o desconforto de Leni nas entrevistas. Aplica a câmara lenta para evidenciá-lo.

Trata-se, assim, de mais um filme relevante para refletir não só sobre o nosso passado mas também sobre o nosso presente. Sinto apenas que podia ter ido um pouco mais além. Parece faltar algo mais dos seus filmes… Digo-o também porque a filmografia de Leni Riefenstahl é pouco divulgada. Pessoalmente, apenas vi “O Triunfo da Vontade”. Sim, são filmes de propaganda. Mas precisamos de os ver para tirar lições. Fica a dica.

Riefenstahl

Conclusão

  • “Riefenstahl” é mais um relevante documentário para refletir sobre os autoritarismos.
  • Depois de estrearem “Orwell: 2+2=5” e “Mr. Nobody Contra Putin”, este filme é um olhar mais ‘direto’ sobre a vida e obra de uma artista em específico.
  • Com um vasto e importante material de arquivo, sente-se alguma falta da presença dos filmes de Leni Riefenstahl. Este é daqueles documentários que aguentaria mais minutos de duração para melhorar aprofundar a protagonista. Havia material para isso…
Overall
8/10
8/10
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