15º IndieLisboa | Hitler’s Hollywood, em análise

O documentário “Hitler’s Hollywood”, de Rüdiger Suchsland é uma fascinante (re)descoberta do cinema do III Reich, e um extraordinário ensaio cinematográfico, absolutamente essencial para todos os cinéfilos e estudiosos da história do cinema e da manipulação das massas. Vai estar na Secção da Director’s Cut do IndieLisboa 2018.

“Hitler’s Hollywood” (“A Hollywood de Hitler – Cinema Alemão na Era da Propaganda, 1933 a 1945”), de Rüdiger Suchsland é em primeiro lugar um documentário fundamental para compreender a história do cinema mundial e de todos os mecanismos de propaganda e manipulação que podem ser utilizados no cinema, e o poder das imagens como meio de comunicação de massas. O ministro da propaganda de Hitler, Joseph Goebbels — ele próprio também um grande cinéfilo, como aliás se diz de Hitler — foi entre tantas outras coisas, o grande ideólogo e criador de um cinema nazi, que não ficasse nada atrás da indústria de Hollywood. Por isso, e simbolicamente, Rüdiger Suchsland abre o seu novo documentário com um excerto de “Heróis do Mar” (ou “Morgenrot”, de 1933), de Gustav Ucicky, um filme estreado precisamente no ano da ascensão nacional-socialista, uma drama patriótico passado num submarino, que começara a ser rodado antes mesmo de Hitler chegar ao poder. 

Hitler's Hollywood
“Heróis do Mar” (ou “Morgenrot”, de 1933), de Gustav Ucicky, estreado no ano da ascensão nazi.

“Hitler’s Hollywood”, mostra esses espantosos e surpreendentes filmes que alimentaram igualmente a poderosa máquina de propaganda nazi. Assim “Hitler’s Hollywood”, é um ensaio cinematográfico, que utiliza vários clipes de filmes, para explorar a estética, atitudes e mensagens do cinema alemão produzido de 1933 e 1945. O curioso que não se trata apenas de uma análise neutra e meramente visual, mas antes um conjunto de respostas e um reconhecimento ideológico, que começa logo por nos mostrar os perigos deste terreno pantanoso e escorregadio da arte como propaganda: “Mal conhecemos esses filmes, e não há motivo para não os conhecer-mos ou desviar-mos o olhar”, diz o narrador, o famoso actor alemão Udo Kier (“Pequena Grande Vida,”, 2017), e por isso é recomendável um visionamento crítico, “que se concentre nos detalhes e se desconsidere a mensagem superficial, sem perdê-la nunca de vista”.

Efectivamente a análise e estudo deste dramático período do cinema alemão já não é novidade. O realizador, Rüdiger Suchsland, cita vários teóricos e filósofos tão influentes como Siegfried Kracauer, Hannah Arendt e Susan Sontag, que abordaram esta questão das relações da arte cinematográfica com o nazismo; igualmente “From Caligari to Hitler: A Psychological History of the German Film”, a análise histórica de Siegfried Kracauer, sobre o cinema da República de Weimar, como reflexo das atitudes nacionais alemães, serviu de base a “From Caligari to Hitler: German Cinema in the Age of the Masses”, o documentário anterior do mesmo realizador, estreado na Mostra de Veneza 2014.

“Hitler’s Hollywood” dá-nos a conhecer as obras cinematográfica produzidas durante o nazismo, os seus realizadores: Veit Harlan, autor de “Jud Süss”, um filme anti-semita disfarçado de drama histórico, estreado em Portugal a 1 de Maio de 1941, — curiosamente do pai de Thomas Harlan, o realizador de “Torre Bela” (1977), o documentário que mostra a “ocupação selvagem” de uma propriedade agrícola em Portugal, no Ribatejo, filme que foi a sua primeira obra cinematográfica; Wolfgang Liebeneiner, que no melodrama “Ich klage an” (ou “Eu acuso”), defende o assassinato de deficientes, ao equipará-lo a uma espécie de eutanásia; e outros como Fritz Hippler, realizador de Der Ewige Jude” (The Eternal Jew), Leni Riefenstahl (“O Triunfo da Vontade” e “Olympia”), entre outros; e algumas das estrelas mais relevantes do cinema nazi: Marianne Hoppe, Lil Dagover, Zarah Leander — a quem chamavam a “Garbo Alemã” —, o “óscarizado” actor Emil Jannings (venceu o Óscar de Melhor Actor da Academia de Hollywood em 1928 por dois filmes: “The Way of All Flesh” e “The Last Command”), o comediante Heinz Rühmann, e a bela loira Kristina Söderbaum, mulher de Veit Harlan — apesar de sueca, era considerada a ariana ideal —, Marika Rokk, Lilian Harvey, Irene von Meyerhoff, Paul Kemp e Oskar Sima, entre tantos outros, que se equiparavam às estrelas de Hollywood; e o curioso e que não vemos apenas os filmes de propaganda directa do regime e da ideologia, — como “O Triunfo da Vontade”, mandado fazer pelo próprio Hitler a Leni Riefensthal, — que segundo Goebbels acabavam por ser mais funestos e contraproducentes à difusão em massa do pensamento nazi.

Lê Também:
71º Festival de Cannes: “Ilha dos Amores”, no Cannes Classics
Hitler's Hollywood
Algumas das estrelas do cinema nazi, nada atrás das de Hollywood.

Assim conhecemos os filmes produzidos pela UFA (Universum Film AG) — estatizada pelo regime e onde estagiou entre outros o cineasta português António Lopes Ribeiro (1908-1995) — nos estúdios de Babelsberg, perto de Berlim, estúdios esses que foram projetados para criar um universo alternativo e um cinema que se opunha, mas que de certa maneira e salvo as devidas diferenças procurava copiar Hollywood: toda morte era feliz e, até mesmo nos ingénuos musicais de entretenimento, procuravam enfatizar o ideal fascista. O documentário mostra ainda como a indústria de cinema nazi foi capaz de criar uma das sagas de Sherlock Holmes ou como em 1930 foi precursora de um filme que se assemelha muito com  “Lawrence da Arábia”, de David Lean (1962). E tal como o cinema de Hollywood, o cinema nazi encontrou as suas próprias grandes estrelas e realizadores, onde se incluíam por exemplo a bela Marlene Dietrich, ou os mestres Ernst Lubitsch e Douglas Sirk, que acabaram por fugir da Alemanha nazi, para os EUA.

TRAILER | “HITLER’S HOLLYWOOD”

O cineasta Rüdiger Suchsland sugere ainda que o III Reich foi essencialmente um filme colectivo e imersivo, protagonizado pela nação alemã, produzido e realizado pelo ministro da propaganda Joseph Goebbels. E assim “Hitler’s Hollywood”, junta mais de cem filmes-chave dos produzidos pelos nazis de 1933 a 1945: musicais, melodramas, romances, dramas de fantasia, filmes de guerra – e até mesmo quando a guerra real se tornou mais dura, insanamente luxuosa e exagerada. O povo alemão foi retratado como um povo alegre e despreocupado, com vidas carregadas de uma exagerada alegria ou, inversamente, pessoas imersas de um desejo mórbido, por uma morte que serviria aos interesses da pátria.

Talvez a grande novidade para cinéfilos, seja a descoberta que na década de 1930, a indústria cinematográfica alemã já entretanto controlada pelo Estado, foi fundamental para a formação técnica e artística de realizadores do cinema norte-americano, como Douglas Sirk (com o nome alemão de Detlef Sierck,) — cuja primeira produção americana, foi o fantástico filme anti-nazi “Hitler’s Madman” (1942); e que Ingrid Bergman, participou num filme na Alemanha nazi: “Die vier Gesellen” (1938), de Carl Froelich. O documentário recorda que o seu papel de Ilsa Lund em “Casablanca”, de Michael Curtiz, estreado quatro anos depois (1942), funciona quase como ‘uma espécie de expiação’ da actriz sueca.

EXCERTO | “OPFERGAN”, de VEIT HARLAN (1944)

No entanto, nem todos os elementos dos filmes alemães deste período, são igualmente persuasivos e sublimatórios. Alguns dos mais fortes detalhes enfocam-se em perfeitas e emotivas técnicas cinematográficas de engrandecimento, do cinema expressionista alemã: os  cortes e os fundidos “criam com que uma atmosfera irrealista na qual tudo se torna relativo”. Se o ‘Weimar Cinema’, uma espécie de  ‘idade de ouro’, consolidou uma espécie de radiografia psicológica das frustrações colectivas (e freudinas) do povo alemão pós-I Guerra Mundial e antes da II Guerra Mundial — que muitos defendem que foi apenas uma Guerra, com um período de tréguas, pelo meio — como argumentou Siegfried Kracauer, este Rüdiger Suchsland realizador de “Hitler’s Hollywood”, postula por exemplo que na mega-produção histórica “Kolberg”, (1945) do génio Veit Harlan,  um cineasta sempre muito envolvido com o regime , — um filme que faz lembrar “Guerra e Paz” — vê-mos um retrato kitsch, que antecipa a queda e os esfumar das ambições dos nazis. Suchsland desmonta vários filmes de puro kitsch ariano, com pedaços da estética Wehrmacht esculpidos, com fadas e homens fardados, e ate loiras carregadas da frieza “hitchcockiana”  — à imagem de “A Mulher Que Viveu Duas Vezes” — , camisas castanhas insufladas e personagens que mergulham de cabeça no culto da morte e da redenção heróica pela Pátria. Em “Opfergan”, de Veit Harlan (1944), por exemplo, filmado num espetacular Agfacolor, vê-mos uma valquíria loira (Kristina Söderbaum) — musa e mulher do realizador — vestida com um fato-de-banho branco, galopando num cavalo branco na praia, nas ondas ou nas águas do mar, desembainhando uma flecha e atingindo o alvo: quase uma espécie de “Wonder Woman” ou Mulher Maravilha que alimentava esse universo redentor criado por Joseph Goebbels.

O que se torna estranho para um espectador de “Hitler’s Hollywood” é a facilidade com que se é seduzido ou se fica fascinado — como aliás acontece com Susan Sontag, declarado no seu brilhante ensaio “O Fascinante Fascismo” — por essas comédias, melodramas, ou pelos excertos das suas cenas e diálogos; e muito mais deliciado do que ver o belo, enfatizante e pesado, “O Triunfo da Vontade”, de Leni Riefenstahl (1935). A implicação mais carregada deste “Hitler’s Hollywood”, é mesmo ver como de facto a arte cinematográfica ajudou à ascensão do III Reich, e como às vezes até parece imoral assistir-mos e admirar-mos este filme e aquele cinema.

Hitler's Hollywood
O realizador Rüdiger Suchsland, fez um audacioso e detalhado trabalho de recuperação de arquivo.

As teses de Hannah Arendt (1906-1975), são igualmente perspectivadas e contextualizadas em “Hitler’s Hollywood”, de uma forma que antecipa quase o futuro das imagens e os dias que vivemos: “Uma das principais características das massas modernas (…) (é) não confiarem nos seus olhos e ouvidos, mas apenas nas suas imaginações. O que convence as massas não são efectivamente os factos, nem mesmo falsos factos, mas apenas a consistência da ilusão. Curiosamente ”é uma assustadora percepção que poderia ser facilmente aplicada ao cenário político da América da actualidade”.

A presença do narrador do filme, Udo Kier, é igualmente fundamental pois torna-se num personagem por si só, com seu inglês, arranhado no acento alemã. É precisamente essa presença e essa capacidade do narrador de emocionar-se com em suas próprias interpretações que torna “Hitler’s Hollywood”, não apenas uma aula de cinema ou um documentário crítico, mas antes uma extraordinária, prazerosa e acessível experiência cinematográfica aberta a todos os amantes de cinema, como se tivesse um grande catedrático, ali na nossa frente.

De facto não é difícil ficar de boca aberta perante imagens tão belas e sedutoras dos filmes do III Reich. É impossível sobretudo para os interessados na simbiose entre o cinema e a história, não se deixarem fascinar pelo audacioso e detalhado trabalho de recuperação de arquivo de Rüdiger Suchsland. “Hitler’s Hollywood”, possui essa narração excepcionalmente eloquente e reflexiva. Tem momentos de pura beleza, poesia e magia. É uma verdadeira cavalgada de imagens, ícones e ideias, e todas tão fascinantes como à sua própria maneira foram na sua época os clássicos expressionistas alemães do tempo do cinema mudo.  Filme que foram na realidade o prenúncio do Holocausto nazi, e que tinham personagens doentios que pareciam anunciar os tempos sombrios subsequentes: “O Gabinete do Doutor Caligari” (1920), de Robert Wiene “Nosferatu, o Vampiro” (1922), de Friedrich Wilhelm Murnau, ou “Metropolis” (1927), de Fritz Lang, analisados no filme anterior do realizador.

JVM

Já viste este filme? Diz-nos se gostaste e se concordas connosco!

Hitler’s Hollywood

Movie title: Hitler’s Hollywood

Director(s): Rüdiger Suchsland

Genre: Documentário histórico

  • José Vieira Mendes - 90
  • Cláudio Alves - 60
75

CONCLUSÃO

“Hitler’s Hollywood” é uma verdadeira lição de cinema ou uma master class na relação que existe entre produção da imagem e as ideologias, em grande escala.

O MELHOR: A presença e a emoção do narrador Udo Kier, fornece uma experiência cinematográfica acessível e aberta a todos os amantes de cinema.

O PIOR: O fascínio que provocam aquelas imagens sedutoras e coloridas dos filmes nazis, o que por si só acaba por se tornar algo de maravilhoso.

Sending
User Rating 0 (0 votes)
Comments Rating 0 (0 reviews)

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Sending