"State Funeral" | © IndieLisboa

IndieLisboa ’20 | State Funeral, em análise

No seu mais recente mural cinematográfico,”State Funeral”, o cineasta Sergei Loznitsa detalha os rituais fúnebres de Josef Stalin e, pelo caminho, concebe uma impressionante autópsia ao culto de personalidade soviético. Este é um dos melhores filmes na secção Silvestre do 17º IndieLisboa.

A 5 de março de 1953, Josef Stalin foi declarado morto depois de ter passado vários dias em atribulada recuperação de um derrame cerebral. O antigo Secretário-Geral do Partido Comunista e então primeiro ministro da União Soviética era, aquando do seu fim, um dos homens mais poderosos do mundo e a sua morte reconfigurou dinâmicas de poder à escala global. Simultaneamente amado e temido, o definhar de Stalin marcou o culminar de um culto de personalidade que ele mesmo havia criado, e o espetáculo do luto soviético foi a derradeira expressão desse fenómeno. O funeral do ditador foi um evento gigantesco que reuniu personalidades de todo o mundo comunista.

Tratou-se de um teatro épico sobre o titã caído, um desfile de perda a resvalar na histeria coletiva. Considerando a escala da situação, não é de admirar que os esforços propagandistas da antiga União Soviética se tenham esforçado para capturar o momento para a posteridade. Orientado por seis realizadores, foi feito um esforço para filmar horas e horas de material, com câmaras enviadas para os sete cantos da Terra. Originalmente, tal reportagem foi feita com o intuito de conceber um documentário propagandista chamado “A Grande Despedida”.

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Para dar encanto e majestade à imagética, os cofres estatais abriram-se e deixaram que os realizadores gastassem o saque de película Afgacolor que havia sido confiscada no território Nazi. No entanto, tamanha era a magnitude do projeto, que se teve de misturar a imagem colorida com a monocroma. Afinal, não havia recursos suficientes para gravar tudo a cores. Em termos mais humanos e não tão técnicos, o foco era democrático na sua abrangência, dando tempo de antena tanto aos mais altos dirigentes do Partido como ao humilde operário.

Este último detalhe acabou por ser a semente da desgraça. Como se pode entender, tamanho projeto cinematográfico não se conclui em pouco tempo, e, quando chegou altura de estrear “A Grande Despedida”, já muitos dos seus protagonistas haviam sido declarados inimigos da nação e efetivamente rasurados da História. O filme aqui analisado não é esse documentário soviético, convém dizer. Pelo contrário, “State Funeral” faz proveito da matéria bruta desse antigo filme para construir uma nova visão desse evento histórico.

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Sergei Loznitsa, um cineasta ucraniano que há muito se interessa em desmantelar a mitologia do Nazismo e da Ditadura Soviética, reeditou “A Grande Despedida”. Fora ficou narrativa e música não-diegética, o glamour do sentimento e a simpatia do observador. Frio e clínico, o realizador contemporâneo transforma o passado numa arma para matar nostalgia, para contrastar o luto nacional com a realidade dura do Estalinismo. Parte do seu jogo depende da exaustão do espectador.

Ao contrário de outros filmes de Loznitsa, “State Funeral” não é tanto um teste de paciência como podia ser. Não há narração, mas a montagem é dinâmica e a qualidade esplendorosa das imagens mantém sempre a atenção da audiência. A Afgacolor era particularmente boa a capturar tons de verde e vermelho, pelo que os arranjos florais e toda o drapejado carmim que adorna o sarcófago do grande líder são como um farol cromático que atrai sempre o olho do observador.

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Além disso, aquando dos discursos, o espectador atento poderá ver muito no desconforto dos intervenientes, no modo como o nervoso miudinho vai quebrando a rígida geometria humana da procissão. A um nível puramente estético, “State Funeral” cativa. Contudo, passadas mais de duas horas desta observação passiva, até a teatralidade política da antiga União Soviética começa a perder o brilho. Vamos sendo hipnotizados pela tapeçaria de faces carpideiras, pela monumentalidade da arquitetura e a ópera do luto, embalados até cair no transe.

É aborrecimento alucinatório que Loznitsa quebra com um toque de puro génio. Depois de toda a imagética descontextualizada, “State Funeral” termina com uma série de textos que nos recordam da realidade do regime de Josef Stalin. A duração da fita compensa quando chegamos ao fim e toda a pompa e circunstância é rematada pela facada do facto histórico. Milhões morreram, por guerra, por ação opressora e por fome. No fim, até os mandatares do Partido viraram as costas ao tipo de quase-religiosidade com que Stalin se envolveu. A realidade é o estalo na cara da propaganda.

State Funeral, em análise
state funeral critica indielisboa

Movie title: Gosudarstvennyye pokhorony

Date published: 1 de September de 2020

Director(s): Sergei Loznitsa

Genre: Documentário, 2019, 135 min

  • Cláudio Alves - 90
90

CONCLUSÃO:

Essencial para todos os estudiosos da História soviética, “State Funeral” é como que um objeto de anti propaganda, um exercício da desmistificação do mito, do desmantelar do teatro político. Belo e assombroso, o mais recente projeto de Sergei Loznitsa continua a sublinhar a importância do cineasta no panorama contemporâneo.

O MELHOR: Os verdes frios e o carmesim reluzente da Agfacolor. De facto, todas as imagens de arquivo são sublimes, cristalinamente restauradas e transcendentes na sua beleza enlutada.

O PIOR: A duração prolongada de “State Funeral” tem o seu propósito, mas é cansativa.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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