Robocop – em análise

 

Em 1987 estreou nos cinemas Robocop, um filme policial de ficção científica, em que o personagem principal era um autómato cibernético e tornou-se num dos maiores sucessos de bilheteira da altura, e num dos ícones cinematográficos mais conhecidos de sempre. Quantos de nós, em crianças, não sonhou em ser um Robocop nas nossas brincadeiras. Pessoalmente, era fã do personagem na altura e ainda hoje gosto de ver os seus dois primeiros filmes.

O Robocop de Paul Verhoeven contava a história de Alex Murphy, um polícia que prestava serviço na cidade de Detroit. Após um assalto a um banco, ele e a sua parceira policia Anne Lewis lançam uma perseguição aos suspeitos, a quadrilha de Clarence Boddicker, assassinos de polícias, onde Murphy acabava por ser brutalmente assassinado. Dado oficialmente como morto, Murphy é transformado pela OCP (Omni Consumer Produtcs, uma poderosa empresa que se dedica à construção e vendas de armas cibernéticas e robots de combate) num poderoso Cyborg de combate ao crime das ruas da cidade de Detroit, um Policia Robot.

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Em 2014, o realizador brasileiro José Padilha (Tropa de Elite 1 e 2), traz-nos a sua versão de Robocop adaptada aos dias de hoje. Nesta nova versão, estamos no ano 2028, onde a empresa OmniCorp produz robots militares usados na pacificação de zonas de guerra espalhadas por vários locais do mundo. Entretanto, esta iniciativa não é bem vista em território Americano. Na intenção de conquistar a confiança do povo americano, na utilização deste tipo de tecnologia, no combate ao crime, Raymond Sellars (Michael Keaton), o presidente da empresa, tem a ideia de criar um robot que tenha consciência humana, de forma a cativar a opinião pública.

A oportunidade surge quando um polícia chamado Alex Murphy (Joel Kinnaman) é vítima de um atentado, que o coloca entre a vida e a morte. A sua única hipótese de viver é ser transformado num cyborg, numa máquina de combate ao crime, mas a sua natureza humana vai falar mais alto. A pergunta essencial deste filme é, o que nos torna humanos? Murphy depois da explosão é reduzido a um corpo inutilizado, e após a sua transformação, só a sua cabeça, caixa torácica e a sua mão direita restam da sua identidade humana. Com um novo corpo, um corpo autómato cibernético, Murphy sente dificuldade em aceitar a sua condição. Um homem de família, casado e com um filho, vê se vivo ligado a uma máquina e reduzido a uma simples cabeça, onde toda a sua vida está na sua cabeça, no seu cérebro. Este filme tem de ser visto não só como um filme de acção, mas também tem uma mensagem sublime que não vai ficar indiferente ao público.

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Esqueçamos por momentos a versão original de Paul Verhoeven, e apreciem este novo filme como um original. Na minha opinião esta nova versão de Robocop, pelas mãos de José Padilha, está muito boa. Eu não considero um remake directo, mas sim um filme bastante original, bem adaptado aos nossos dias, onde a crítica social continua bem presente em todo o filme. A critica ao estilo de vida americano, à politica americana de “os policias do mundo”, onde o poder bélico e a superioridade tecnológica faz com que os americanos se sintam um povo superior, mas vivendo de aparências, pois em território nacional vivem numa sociedade corrupta e criminosa. Em termos técnicos e começando pela realização, José Padilha traz-nos uma versão do seu Robocop, muito boa onde o seu estilo de crítica social, que vimos em Tropa de Elite, está bem presente, a sua visão do mundo do crime e das forças policias que o controlam está muito bem desenvolvida.

Quanto à sua visão do personagem, Padilha dá-nos um Robocop muito mais humano, e muito mais consciente da sua condição. Enquanto no original temos um Alex Murphy muito mais amnésico após a sua “morte”, e vai se recordando aos poucos da sua vida anterior, a personalidade do seu personagem encontrasse mais limitada, comportando se mais como um simples autómato. Em Robocop de José Padilha, temos um homem dentro de uma máquina, que é o seu novo corpo, pois do original, não resta mais nada a não ser a cabeça, coração, pulmões e uma mão. O que nos torna humanos? A resposta está aí mesmo, no nosso cérebro e coração. O corpo é o que nos move e permite a manifestação dos nossos comportamentos, e um corpo sem cérebro e coração não passa de “sucata”. Neste caso, Robocop é o “Homem” com corpo de máquina, mas embora limitado no seu software, pelos seus criadores, a sua personalidade mantém-se viva.

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Um aspecto positivo que realço deste filme é esse mesmo, é a humanização de uma máquina que ao fim de contas é mais do que um homem, com um facto metálico. A sua interação com a família é um ponto forte do filme, e um traço que torna Alex Murphy como Robocop mais eficaz. O elenco composto Joel Kinnaman como Alex Murphy aka RoboCop, Gary Oldman como Dr. Dennett Norton, o cientista que cria o Robocop, Michael Keaton como Raymond Sellars, o director da empresa OmniCorp, Samuel L. Jackson como Patrick “Pat” Novak, anfitrião da The Novak Element, Abbie Cornish como Clara Murphy, esposa de Alex Murphy, e Jackie Earle Haley como Rick Mattox, um militar responsável pela formação de RoboCop, são cumpridores da sua tarefa, as suas performances dentro de cada papel, estão razoáveis.

A nível técnico de efeitos visuais e sonoros, está muito bom. O corpo robótico está muito mais detalhado e pintado de preto, dá-lhe um ar mais táctico, como o próprio Sellars exclama no filme. O pormenor da mão que restou do seu corpo, é algo que ainda me faz confusão, pois esteticamente está ali solta, mas compreendo o porque de a deixarem, pois permite a Alex Murphy o contacto humano com outras pessoas. Confesso que contava à partida que Robocop tivesse uma voz robótica como aparece no trailer mas depois de ver o filme compreendo que a sua humanização ter se ia perdido se tal tivesse acontecido.

O argumento do filme está muito bem estruturado e a preocupação com o desenvolvido do personagem está muito bem organizada. Um aspecto negativo que tenho a apontar neste filme, é a banda sonora. Uma BSO algo new tech até compreendo, pois estamos a falar de máquinas, mas o filme merecia algo mais sublime e icónico como o original teve. Uma BSO que identificasse logo à partida o novo ROBOCOP de José Padilha.

 

Um bom filme a não perder, já nos cinemas. Um filme razoável que merece uma atenção especial, sejam fãs do Robocop original ou não.

7/10

Carlos Migue Reis (in facebook MHD)

Já esperava que fosse inferior ao original de Paul Verhoeven, e já estava de pé atrás por ter lido que o realizador José Padilha tinha tido grandes problemas em ver as suas ideias para este filme aprovadas (em cada 10, 9 eram recusadas).

Muito do filme original, que se tornou num filme de culto, baseava-se na sua violência nua e crua, num vilão irascível enquanto assassino de polícias, num grupo de capangas sádicos e perturbadores, numa bela colega de trabalho do protagonista, e num elenco bem conseguido para ter um produto final que ficou na história do cinema e angariou muitos fãs (provavelmente agora ainda arranja mais alguns).

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Ora, este RoboCop de José Padilha é um filme para adolescentes, com uma abordagem mais familiar e até se pode dizer autobiográfica, porque muito do filme é centrado no protagonista, sem existir um vilão para eliminar ou alguma acção. As semelhanças com o filme original, sejam imitações ou inovações, mostram que houve alguma preocupação em honrar o mesmo, mas não resultam, de todo. A introdução de um “talk show de propaganda” (não fosse a escolha de Samuel L. Jackson para a personagem responsável e o desastre era total) para honrar os segmentos de notícias do filme original torna-se aborrecida e corta o ritmo do filme, de uma maneira ao contrário da pretendida. A personagem Raymond Sellars (Michael Keaton) não consegue cativar porque não tem profundidade nenhuma, ao contrário da de Gary Oldman (ele não sabe fazer nada mal). As restantes, incluindo o protagonista, contribuem para o produto razoável deste filme.

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Só me ocorre resumir que a tecnologia nem sempre é sinónimo de melhorias e progresso porque, passados 27 anos e fora o facto de o filme não ter como objectivo ter a violência do original, podia ser muito melhor. Fica-se por ser uma nova abordagem a um icónico personagem, sustentada por 2 grandes nomes do cinema actual, pois penso que fora estes e seria um desastre total.

6/10

Pedro Almeida (in facebook MHD)

Rui Ribeiro

Engenheiro, publisher, melómano e audiófilo, daqueles que ainda vão ao cinema, compram vinil, cd's, blu-rays, a Empire e a Stereophile em papel.