Rock in Rio Lisboa Ultimo Dia

Rock in Rio Lisboa | No último dia, Jessie J foi amor, Katy Perry foi espetáculo

Num dia de Rock in Rio Lisboa marcado pelo poder feminino e pelo futebol, Ivete Sangalo voltou a casa, Jessie J fez magia com a voz, e Katy Perry deslumbrou com um espetáculo animado e recheado de cor. Em 2020 há mais!

#FemalePower era a ideia que transmitia o Palco Principal do último dia do Rock in Rio Lisboa 2018. As nuvens e chuva deram lugar a um sol radiante, o cartaz totalmente feminino dominou até títulos noticiosos internacionais, e as camisolas de música deram a vez às bandeiras de Portugal, do Brasil e de arco-íris, representativas do dia que se avizinhava.

A alteração dos horários devido à transmissão do jogo de Portugal para o Mundial de Clubes fez com que o primeiro nome do palco mundo surgisse tão cedo quanto as 16:30, mas nem o calor abrasivo afastou as pessoas da frente fosse para guardar lugar para as principais atuações, fosse para prestar toda a atenção à primeira: Hailee Steinfeld.

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A atriz e cantora esteve menos tempo em palco do que as restantes atuações daquele palco do festival, apresentando a mesma sucinta seleção musical que tem levado pelo mundo inteiro na abertura da tour “Witness” de Katy Perry. A jovem de 21 anos está em início de carreira e isso faz-se notar, pela reduzida opção de temas, mas não muito, dado o grande à-vontade que mostra com o público.

Parece, no entanto, abusar um pouco das vozes de fundo e dos tons electrónicos, que mostra, até, não precisar durante interpretação acústica que faz de “Flashlight”. Conversa bastante, comenta o jogo que todos querem ver, deixa escapar alguns passos de dança, e repete o quanto está fascinada com o público que assiste, principalmente quando harmoniza os seus hits como “Capital Letters”, “Most Girls”, ou “Starving”. Serve o seu propósito de abertura.

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Seguiu-se uma injeção de energia vinda diretamente do outro lado do Atlântico. A veterana Ivete Sangalo já faz parte da mobília do Rock in Rio Lisboa, tendo atuado agora em oito edições do festival – e, numa delas, duas vezes. E nem o facto de ter sido mãe de novo à pouco tempo a impediu de voltar àquela que descreve como sendo “a sua casa e a sua família”, nem de dar um espetáculo energético que não deixa ninguém manter os pés no chão. O concerto traria ainda uma surpresa inesperada, e a Ivete viria a juntar-se outra rainha, Daniela Mercury, para uma interpretação conjunta de “Canto da Cidade”.

No meio de desabafos, sorrisos e de convites para o carnaval da Bahia, a “Veveta” liga-se à legião de fãs que já mantém e aos curiosos que ali estão pela primeira vez, sem ser preciso recorrer a linguagem ou danças impróprias. E entre êxitos como “Poeira”, “Sorte Grande”, “Abalou”, “No Groove” ou “Beleza Rara”, o ‘show’ da rainha, como diz a expressão, é como o vinho do Porto: quanto mais tempo tem, melhor fica.

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A Jessie J calhou a tarefa árdua de atuar após a eliminação da Seleção Portuguesa de futebol, testemunhada pelas dezenas de milhar de pessoas já presentes no recinto da Bela Vista. E a artista começou logo com um bang e a bandeira de Portugal nos ombros: mal pôs as suas cordas vocais a funcionar, era como se Portugal inteiro tivesse ganho. A londrina começou pelo (seu) início, com “Do It Like a Dude”, e, para além de se surpreender com as pessoas que desciam o slide do recinto, não pôde deixar de notar que estavam mais presentes “do que estava à espera”.

Se o início do concerto foi composto por temas que de certa forma dualizam o Pop/Rock, como “Play” do seu novo e diferente álbum “R.O.S.E. “, e a banda que a segue a dar também ares da sua graça e mostrar que não é por serem de estilo Pop que não sabem tocar – pois estes sabem, e bem; após “Domino” os temas giraram mais à volta da essência de Jessie J: o seu vozeirão, que se fez entoar por todo o Parque, e o empoderamento, neologismo que podia bem ser transformado num adjetivo para toda a sua performance. Se Jessie canta e encanta, também encanta quando discursa, tentando introduzir “Nobody’s Perfect” numa analogia à Seleção Nacional e acabando a negar o mesmo a ela própria, e continuando o conto com “Easy On Me”. Seguir-se-ia uma versão acústica de “Flashlight”, que nada tinha de igual à que já tinha sido ouvida naquele dia. E entre coros em união com o público, a cantora vai transmitindo amor e mensagens de aceitação – “tu salvaste a tua vida, eu fui só a banda sonora”, afirma, ao aproximar-se dos fãs sem receios de se entregar por completo. Após uma troca de visual, regressa com a imponente “Queen”, dedica “Momma Knows Best” a todos os (até bastantes) pais e mães presentes, e termina com o seu primeiro grande êxito, “Price Tag”. O que seria apenas um concerto transformou-se, até para os mais céticos, num grande momento musical, onde Jessie J mostrou que, para além de ter uma capacidade vocal como já não se ouve atualmente, existe lugar na Música para a emoção sem ser falseada, e os presentes podem acreditar que tudo é possível.

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Esta edição do Rock in Rio Lisboa iria fechar com mais uma demonstração de poder, desta vez em forma de cores, luz e todo o aparato possível. Katy Perry não veio sozinha e não deixou espaço para tristezas acerca do jogo da tarde, abrindo com o olho atento sob o recinto que caracteriza a sua tour “Witness”, de mesmo nome que a primeira música tocada, e que terminava ali mesmo. Segue-se “Roulette”, com direito a dados gigantes em cima do palco e confetti em forma dos naipes das cartas de jogar. A produção iria ser única para cada tema, com tanto a decoração como as roupas dos dançarinos, e mesmo da própria, a adaptarem-se a cada um dos hits da cantora. A promessa de que o público iria “ouvir todas as músicas que tinha ido para ouvir” cumpre-se com “Dark Horse” e “Chained to the Rhythm”, que, à parte de falhas técnicas que não ajudam ao espetáculo, terminam o primeiro ato de cinco planeados, entre os quais todo o cenário se vai alterar, como se um espetáculo teatral se tratasse. No regresso, Katy Perry tem um visual diferente (até o microfone combina com a roupa!), e neste retrocedemos à primeira década de 2000 e aos seus primeiros grandes êxitos: “Teenage Dream”; “Hot N Cold/Last Friday Night”, no qual a norte-americana ativa a ajuda do público e, arriscando o seu português, traduz para Quente e Frio; “California Gurls”, onde recebe um convidado cómico especial, o ‘Left Shark‘ da atuação no SuperBowl de 2015; e “I Kissed a Girl”, para a qual Katy se cobre com a bandeira de Orgulho Gay.

Os próximos atos, tal como os anteriores, seriam repletos de animação mais do que de voz, não escondendo Perry, no entanto, o poder vocal que também possui e que vem à tona em temas como “Wide Awake”, “Into Me You See”, ou “Part of Me”. E se “Swish Swish” tem bolas de basquetebol e a ‘backpack dance’, “Roar” tem um leão virtual e “Firework”, guardada para o final, tem… exatamente o que se espera: fogo de artifício. É com esse fogo que a artista termina o seu verdadeiro espetáculo, mas não necessitava dele para que o considerássemos abrasador. Katy Perry, ausente de terras lusas, que são parte suas, à sete anos (e a mesma pergunta o que se passa consigo para deixar isso acontecer), dirigiu-se q.b. ao público, mostrou todo o seu jogo, o seu próprio País das Maravilhas, e a sua música como se fosse apenas a banda sonora do filme montado em palco. E não desapontou os 67 mil espectadores que se deslocaram à Bela Vista para ver do que ela era feita.

O Rock in Rio Lisboa aconteceu nos dias 23, 24, 29 e 30 de julho, no Parque da Bela Vista, em Lisboa. Até 2020!


Fotografias: agenciazero.net 

Ana Rodrigues

Seriófila, e amante das artes cinematográficas.

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