O vestuário de Rogue One | Chirrut e Baze, o monge e o guerreiro

Com as suas referências orientais, Chirrut e Baze são duas figuras de Rogue One onde se volta a salientar a inspiração japonesa que tem marcado, desde sempre, a saga Star Wars.

 


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rogue one star wars

A primeira paragem na odisseia de Jyn e Cassian leva-os até à lua desértica de Jedha e sua cidade capital, onde permanecem as ruínas do último templo Jedi. Caminhando pelas suas ruas, eles cruzam-se com uma série de coloridas figuras no que é uma clara referência visual ao Médio Oriente da atualidade e seu constante estado de Guerra. Uma cena de rebelião violenta que explode no meio da praça pública parece mesmo uma referência à obra-prima italo-argelina que é a Batalha de Argel, agora situada numa Meca intergaláctica.

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No entanto, apesar desta ligação à imagética islâmica, que é traduzida em figurinos semelhantes a versões fantasiosas de hijabs, chadors e burkas, as duas personagens que Jyn e Cassian encontram que se tornam seus fiéis companheiros mostram uma ligação oriental mais virada para terras nipónicas. Como já explorámos em páginas anteriores, isso é algo perfeitamente consistente com a tradição visual do cânone Star Wars desde 1977, sendo que, desta vez, não é tanto a filmografia de Akira Kurosawa a ser pilhada em busca de inspiração, mas sim a figura do monge budista e a personagem de um heroico guerreiro cego popularizada em Zatoichi e suas muitas sequelas, spin-offs e mash-ups.

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Chirrut é uma espécie de monge que, em tempos, foi um protetor do templo de Jedah, sendo que, ao longo do filme, ele invoca constantemente a Força sob a forma de prece. Seguindo essa linha de inspiração budista, ele não é apenas um monge pacífico e indefeso, mas sim um mestre combatente preparado para usar a violência em nome da sua fé quando isso se revela necessário e, tal como seria de esperar, tal relação entre a natureza bélica e a natureza clerical está ilustrada no seu singular figurino.

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Vejamos, para começar, o seu casaco de camurça preta, que é, apesar da sua sujidade e desgaste, uma peça de surpreendente luxo para uma personagem que, a uma primeira análise, parece quase um pedinte perdido no meio da rua. A peça, que mostra evidentes inspirações nipónicas, sugere, não só a sua vida passada num templo religioso, como insinua logo a sua condição de guerreiro. Afinal, reparamos logo que um dos seus braços está coberto em camadas protetoras, quase uma armadura de tecido, enquanto o outro é coberto somente com uma manga larga. Para além do mais, as suas vestes inferiores, feitas em seda, tendem a assemelhar-se às vestes de um clássico guerreiro de kung fu no cinema, simples, largas, práticas e ótimas para uma cena de luta em que o movimento flutuante da seda é um ótimo apontamento visual para intensificar a dinâmica da ação.

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De forma geral, com o seu casaco, arnês, e esvoaçantes calças de seda, Chirrut é uma figura de peculiar elegância em Rogue One, um filme marcado pelo pragmatismo militar. A acentuar ainda mais a sua anómala sofisticação estética está o tecido vermelho vivo que se evidencia entre o seu casaco e as calças e que constitui não só mais uma referência aos monges budistas, como também cria uma união visual entre este monge cego e o seu companheiro e fiel protetor Baze. Dizemos isto pois, tal como Chirrut está completamente vestido de preto com a exceção desse rasgo de vermelho, também Baze é uma montanha de castanhos com exceção da sua couraça escarlate.

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Tirando esse apontamento de união cromática entre os dois companheiros, o figurino de Baze é quase que a completa antítese do de Chirrut. Vestido com um macacão em algodão leve e equipado com armadura e equipamento construídos a partir das carcaças dos uniformes de stormtroopers e armas imperiais, Baze não tem nada de elegante. Isso, no entanto, não invalida o impacto visual da sua figura que, no mundo cheio de brutalidade de Rogue One, se evidencia como uma espécie de âncora humana, um ícone de segurança que, mais do que parecer ameaçador, transmite a ideia de um defensor coberto de armadura protetora.

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Transcendendo os figurinos e chegando ao panorama doa adereços e coregrafia, os próprios estilos de combate de Chirrut e Baze apresentam os seus contrastes. Chirrut é um ágil mestre de artes marciais que usa um bastão com mortífera mestria. Por seu lado, Baze é todo ele bruta força e o seu método preferido de derrotar os seus inimigos consiste no uso do poderoso canhão que ele carrega sempre às suas costas. Costuma dizer-se que os opostos se atraem e esse cliché parece estar em evidência nesta relação, onde os dois homens se complementam em termos de caráter e em termos visuais. Se quisermos ser particularmente fiéis à inspiração asiática das suas vestimentas, poderíamos mesmo dizer que, no seu jogo de opostos complementares, Chirrut e Baze quase que incorporam a ideia de Ying e Yang no contexto da Rebelião contra o Império e fiel à religião da Força.

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Na próxima página falaremos dos figurinos do último membro humano da equipa principal que apoia Jyn Erso na sua missão final contra o Império. Falamos, pois claro, de Bohdi, um piloto imperial que arriscou tudo em nome da redenção da sua alma e a esperança de um mundo liberto do controlo ditatorial de Palpatine.

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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