O vestuário de Rogue One | As origens de Jyn Erso

Na sua memorável abertura, Rogue One estabelece o novo visual desta aventura em relação aos outros filmes da saga Star Wars.

 


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Rogue One começa com uma abertura digna de Sergio Leone mas o mestre de cinema invocado pelos seus aspetos visuais não é o rei do spaghetti western, mas sim Akira Kurosawa, um cineasta cuja influência no universo Star Wars remonta aos seus primórdios. Mais especificamente, George Lucas é um imenso fã do realizador japonês e implementou uma série de piscares de olho à obra dele na sua trilogia original como, por exemplo, o uso das transições em swipe horizontal. Mais marcante ainda foi o modo como a abertura e muito do enredo base do filme original de 1977 foram inspirados por A Fortaleza Secreta, filme de 1957 assinado por Kurosawa. Ou seja, não é de admirar que Gareth Andrews também tenha ido buscar umas ideias ao mestre japonês.

Com soberbos planos de uma paisagem fria, cheia de dunas de terra negra, planícies verdejantes e rochas cobertas de musgo, dá-se início a esta nova história. No céu, uma esquelética e elegante nave corta a harmonia natural e depressa aterra perto do esconderijo de uma família que, apesar de aterrorizada, parecia já esperar a chegada deste pesadelo. Esta unidade familiar consiste no genial engenheiro Galen Erso, sua mulher, Lyra, e filha, Jyn. Os três são fugitivos do Império para quem Galen outrora trabalhava como criador de armas de destruição em massa, e agora vieram ser confrontados por um antigo colega, o odioso Orson Krennic.

rogue one star wars

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Mais à frente falaremos em detalhe dos figurinos de Krennic, mas, nesta página, o nosso enfoque será na família Erso cujo contraste com a brancura imperiosa do seu inimigo é um tipo de código visual típico da saga Star Wars. Como sempre, neste universo fictício a limpeza, minimalismo e perfeição elegante são tidos como algo maligno quando colocados em direta comparação com visuais mais artesanais, caóticos, sujos e naturais. Daí, o modo como a família é unida visualmente pelos seus trajes escuros, rudes e em materiais pobres (maioritariamente algodão desgastado), uma série de escolhas que também os tornam unos com a paisagem envolvente e possibilitam a sua camuflagem.

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Pela sua parte, Mads Mikkelsen no papel de Galen, parece estar a fazer cosplay como Toshirô Mifune num dos seus muitos papéis em filme de Kurosawa. Tendo em consideração que outra personagem do filme parece ter sido inspirada pelo espadachim cego Zatoichi, é engraçado pensar nesta introdução a Galen como uma referência ao herói solitário e de dúbia moralidade que foi Yojimbo (cujas aventuras Sergio Leone desavergonhadamente copiou para criar a personagem do Homem sem Nome de Clint Eastwood). Veja-se o seu casaco estilo quimono masculino, seu penteado e sua geral silhueta na paisagem para se comprovar esta comparação a Mifune e aos samurais do cinema nipónico.

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Voltando à história das referências japonesas no cânone Star Wars, samurais foram uma das principais inspirações tanto para os Jedis como para os Sith. Afinal, é precisamente devido ao cinema de Kurosawa em particular, e aos filmes de samurais em geral, que o capacete de Darth Vader tema forma que tem (com uns toques de capacetes alemães e máscaras de gás a completarem o look) e pela qual as túnicas dos Jedis se fecham à moda do vestuário tradicional japonês. Aqui, a referência e sua execução implicam nobreza de espírito e uma decência moral que será, mais à frente, posta em causa pela própria Aliança mas que nem os cineastas nem a sua filha alguma vez colocam em questão.

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Em relação a Lyra há pouco que dizer. Ela segue os mesmos códigos visuais do marido em termos de cor, estilo e materiais, e o mesmo se pode dizer da sua filha. Um elemento de dissonância visual é um colar de cristal que ela, nos seus últimos momentos, passa a Jyn. No resto do filme, esse mesmo cristal ganha uma relevância acrescida, cumprindo quase o papel de um crucifixo, sendo que a Força e seu culto são abordados como uma religião em Rogue One, mas também o papel de um amuleto familiar que está sempre junto ao coração da protagonista, a recordá-la do que perdeu.

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Ao longo da narrativa de Rogue One temos mais alguns vislumbres dos pais de Jyn, quer seja em flashbacks onde os vemos vestidos como bons funcionários do Império (se bem que os seus penteados sempre os parecem demarcar como outsiders), quer seja noutros contextos que não iremos revelar para não incitar acusações de indevidos spoilers. Uma coisa é certa, os figurinos desta cena de abertura marcam o início e marcam o modo como as tradições estéticas dos primeiros filmes da saga Star Wars continuam aqui a marcar presença, se bem que alterados e executados com maior solenidade do que é costume.

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Depois desta primeira análise dos figurinos presentes na abertura narrativa que acende os pavios dramáticos que vão explodir aquando do clímax do filme, falaremos mais detalhadamente das roupas de Jyn Erso em adulta, assim como sua relação visual com o Capitão Cassian Andor. Na próxima página!

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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