"Os Salteadores da Arca Perdida" | © Lucasfilm

Clássicos em Casa | Os Salteadores da Arca Perdida (1981)

Há 39 anos, chegava às salas americanas um dos grandes clássicos do cinema de aventura e ação. Tratava-se da chegada ao grande ecrã de um daqueles heróis imortais que para sempre terão um lugar na cultura popular. Falamos, pois claro de Indiana Jones e “Os Salteadores da Arca Perdida”.

Poucos são os filmes que podem ser justamente classificados como perfeitos. Há sempre alguma fragilidade a encontrar aqui e ali, algum gesto onde a ambição foi maior que a habilidade ou simples momento em que a inspiração se esgotou. A falta de perfeição jamais é uma marca de mau cinema e diríamos mesmo que alguns dos melhores filmes já feitos são aqueles cujas falhas são numerosas, mas conseguem ser ofuscadas pela qualidade da restante obra. De vez em quando, contudo, aparece-nos um objeto cinematográfico realmente merecedor da descrição de perfeição. Tal é o caso de “Os Salteadores da Arca Perdida” de 1981, o filme com que o realizador Steven Spielberg apresentou ao mundo o icónico Indiana Jones de Harrison Ford.

Desde os seus primeiros instantes, esta delícia de ação à moda antiga mostra as suas referências. Na meninice, Spielberg havia adorado os filmes de aventura da Velha Hollywood, essas histórias de exploradores em terras exóticas. A sequência inicial de “Os Salteadores da Arca Perdida” faz lembrar muito esses filmes, desde o modo como joga com as sombras até à ênfase em efeitos especiais práticos. Há uma fisicalidade rudimentar nas acrobacias de Indiana Jones, uma qualidade que evoca o cinema do antigamente, mas traz o passado até à modernidade. Afinal, para executar tamanhas façanhas como a corrida em frente a uma bola de pedra armadilhada, Spielberg teve de recorrer a grande engenharia de efeitos especiais.

Os Salteadores da Arca Perdida critica
© Lucasfilm

Tal descrição pode sugerir uma montra de habilidade técnica exibida com frieza. A realidade está bem longe de tais infelicidades. Ancorando todo o espetáculo na performance impecável e carismática de Harrison Ford, Spielberg é um contador de histórias acima de um técnico brilhante. A ação está sempre ao serviço da narrativa neste filme, ao serviço do desenvolvimento de personagens e do investimento emocional do espectador. Trata-se de espetacularidade com substância. Nada de demasiado cerebral, mas sim um escapismo convencional executado com a exatidão de um neurocirurgião em plena mesa de operações. Spielberg faz da convenção algo extraordinário e nós só temos vontade de aplaudir o seu sucesso.

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Dessa sequência de ação que começa o filme com túmulos antigos e rochedos assassinos, Spielberg desenrola um conto de luta contra os nazis e tesouros bíblicos, arqueologia misturada com magia e aventura mesclada com os maiores vilões do século XX. Ao invés de ser simples pastiche do cinema de aventuras dos anos 30, “Salteadores da Arca Perdida” é uma homenagem com os olhos postos no futuro, concebendo o perfeito híbrido entre nostalgia e adrenalina blockbuster. A ajudar a façanha, temos um elenco de personagens coloridas que tecem uma tapeçaria de interesses justapostos e desconfiança palpável. Entre o elenco secundário, ninguém é mais importante que a Marion de Karen Allen, antigo interesse romântico do nosso herói e uma figura chave na procura pela Arca Perdida do título.

os salteadores da arca perdida
© Lucasfilm

Em termos dramáticos, Marion e Indiana são uma parelha perfeita, cada um iluminando aspetos do outro que não são feitos explícitos pelo resto do enredo. Através da sua química, descobrimos a humanidade nos arquétipos narrativos do filme. De facto, este jogo de personagem é só uma parte da genialidade que é o argumento de “Os Salteadores da Arca Perdida”. Partindo de uma ideia de George Lucas, o pai da “Guerra das Estrelas”, o escritor Lawrence Kasdan construiu um verdadeiro milagre de estrutura narrativa. Desde a cena introdutória ao desfecho catártico, todos os componentes da história encaixam uns nos outros com uma eficiência que recorda os melhores relógios suíços. Não há excesso ou excedente neste guião, cada detalhe é necessário para o resultado final. É tudo músculo e zero gordura.

Guião impecável, execução técnica apurada, um elenco virtuoso que não chama atenção para a grandeza do seu trabalho e um realizador insuflado pelo amor de um cinéfilo a prestar homenagem aos filmes da sua infância – com tudo isto em comunhão, não admira que “Os Salteadores da Arca Perdida” consiga escalar até às antípodas da perfeição. Além de tudo mais, este filme é o exemplo perfeito de cinema comercial que não tem, por isso, de ser cinema medíocre. O que entretém pode ser formalmente brilhante sem sacrificar o gozo do espectador, divertimento não é antítese de arte. De certa forma, é pena que os restantes filmes de Indiana Jones nunca cheguem aos calcanhares desta primeira desventura, mas isso não implica que sejam mau cinema. Simplesmente não são perfeitos. Poucos filmes o são.

“Os Salteadores da Arca Perdida” está disponível em três dos maiores serviços de streaming em Portugal, Netflix, HBO e Amazon Prime Video. Também podes alugar o filme através da Google Play, Youtube, Rakuten TV e Apple iTunes.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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