Top MHD | Os 10 melhores filmes de Steven Spielberg

Com a estreia e sucesso de “Ready Player One”, é a altura ideal para se refletir sobre a carreira de Steven Spielberg, um dos realizadores mais celebrados do cinema americano, e ponderar quais serão, afinal, os seus 10 melhores filmes.

Steven Spielberg foi, na sua juventude enquanto cineasta, um dos grandes pioneiros do movimento da Nova Hollywood. Na década de 70, ele e seus colegas como Scorsese, Coppola, Cimino, May e Lucas, reinventaram o cinema americano mainstream, apropriando-se de mecanismos e técnicas das vanguardas europeias e assimilando-as posteriormente num novo tipo de sensibilidade cinematográfica americana. O resultado final não foi menos que revolucionário.

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Ainda mais importante foi o que Spielberg e Lucas trouxeram ao cinema com o advento de “Tubarão” e o primeiro filme da saga “Star Wars”. Referimo-nos ao nascimento do cinema blockbuster, uma ideia comercial que, para bem e mal, viria a alterar por completo a face de Hollywood e seus métodos de produção e consumo.

Não há dúvida que Steven Spielberg é um realizador importante. O que também é difícil de disputar é a sua popularidade, tanto a nível crítico como popular. Afinal, ainda esta semana, o cineasta tornou-se no primeiro realizador a conseguir faturar mais de 10 biliões de dólares em valores de bilheteira ao longo de toda a sua filmografia. Peter Jackson, que fica em segundo lugar nesse ranking, ainda só valeu pouco mais de 6 biliões.

Steven Spielberg
Steven Spielberg na noite em que ganhou os Óscares para Melhor Filme e Melhor Realizador por A LISTA DE SCHINDLER (1993)

Em termos críticos, a adoração por Spielberg já o acompanha desde o início da carreira. Poucos são os cineastas desconhecidos que, aos 27 anos, conseguem levar um filme à competição oficial de Cannes e ainda menos são aqueles que conseguem arrecadar 17 nomeações para os Óscares e 3 estatuetas competitivas mais um prémio honorário. Mesmo a fama do cineasta enquanto um populista sentimental pouco tem feito para diminuir o seu estatuto respeitoso.

Como tal, propomo-nos aqui a listar os 10 melhores filmes de Steven Spielberg, escolhidos com base no voto de vários membros da equipa da Magazine.HD. O critério é simples, sendo só contadas longas-metragens profissionais em que Spielberg foi o solo realizador.




10. 1941, ANO LOUCO EM HOLLYWOOD

Steven Spielberg 1941
“Este é um feito de um realizador disposto a experimentar e desafiar convenções(…)”

A carreira de Steven Spielberg no mundo do cinema começou de um modo tão estrondoso como peculiar. Numa época em que ainda era raro os estúdios confiarem em realizadores com pouca experiência profissional e somente alguns projetos da esfera independente para lhe assegurarem a reputação, Spielberg, no espaço de dois anos, levou uma longa-metragem de baixo orçamento à competição oficial de Cannes e teve direito a um orçamento de estrela para realizar “Tubarão”.

As filmagens do thriller sobre esse célebre peixe comedor de homens foram uma catástrofe, mas, graças aos talentos miraculosos de Verna Fields na sala de montagem, o projeto ganhou forma e acabou por tornar-se na primeira obra-prima de Spielberg, assim como primeiro blockbuster na história do cinema. Dois anos depois, Spielberg seguiu o sucesso de “Tubarão” com mais um triunfo comercial, crítico e artístico chamado “Encontros Imediatos de 3º Grau”. O mundo do cinema era seu e, naquele momento, não havia praticamente nada que Spielberg pudesse pedir aos estúdios que eles não lhe oferecessem com sorrisos rasgados.

O que o realizador mais popular do cânone americano moderno decidiu fazer foi dar início à sua longa pesquisa cinematográfica sobre a 2ª Guerra Mundial, um tema que iria perdurar na sua carreira durante décadas. A grande surpresa, que ainda marca o filme como uma anomalia na filmografia do autor, é que tal pesquisa veio na forma de “1941 – Ano Louco em Hollywood”, uma endiabrada comédia com dezenas de personagens e uma sensibilidade mais próxima dos Loony Toones do que do drama de guerra.

A opinião popular tende a apontar para “1941” como um dos maiores e mais incontestáveis fracassos na carreira de Steven Spielberg, mas há algo de inspirador na sua ambição e ousadia. Afinal, este é um filme que arrisca ressuscitar o tipo de comédia slapstick que parecia ter sido enterrada e esquecida pelo fim da década de 40, executando-a com primor técnico do mais alto gabarito, incluindo uma das melhores composições bélicas no currículo de John Williams. Este é um feito de um realizador disposto a experimentar e desafiar convenções e isso merece ser celebrado.

O épico anárquico foi um desastre crítico e as audiências, apesar de terem feito do filme um relativo sucesso comercial, mostraram-se frias. Nos Óscares, “1941” ainda ceifou três nomeações, inclusive pelos seus estrambólicos efeitos visuais, uma marca do seu virtuosismo técnico, se de nada mais.

CA


Título Original: 1941. Realização: Steven Spielberg. Intérpretes: Dan Ackroyd, Ned Beatty, Jim Belushi, Lorraine Gary, Murray Hamilton, Christopher Lee, Toshiro Mifune, Tim Matheson, Nancy Allen, John Candy, Patti LuPone, Samuel Fuller, Mickey Rourke. Produção: Buzz Feitshans. Argumento: Bob Gale e Robert Zemeckis. Música: John Williams. Ano: 1979. Duração: 118m (cor) minutos




09. A.I.: INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Steven Spielberg AI
“(…)uma bizarra quimera fílmica(…)”

Durante os seus últimos anos de vida, o grande realizador Stanley Kubrick ficou enamorado por um conto de Brian Aldiss, em que a história do Pinóquio era pervertida na forma de uma tragédia futurista. Devido a limites técnicos e pragmáticos, Kubrick não se sentia, contudo, confortável em encabeçar a filmagem da adaptação literária, sugerindo o nome de Steven Spielberg aos seus colaboradores. Por muito estranho que pareça, o cineasta mais cínico do cinema anglófono e o ídolo populista de Hollywood nutriam enorme respeito pelos talentos do outro. Eles desenvolveram mesmo uma amizade de tal modo próxima que, quando Kubrick morreu em 1999, Spielberg colocou todos os seus outros projetos em pausa para poder levar aos cinemas a visão do seu amigo.

A.I.: Inteligência Artificial” é assim uma espécie de elegia a Kubrick, ao mesmo tempo que é o seu último sonho cinematográfico completado pela mão de outrem. E não se tratou de outro realizador qualquer, mas sim um realizador cujo estilo e métodos de trabalho são diametralmente opostos aos de Kubrick. Esta alquimia cinematográfica, capaz de corroer a ideologia de qualquer fanático da teoria de autor, deu origem a uma bizarra quimera fílmica, onde o sentimentalismo infantil de Spielberg se desdobra em epítetos de crueldade intolerável e onde o seu brio visual, longe de apelar à ideia de um espetáculo escapista, concebe uma visão de um futuro belo, mas despido de esperança.

Esta é, afinal, a história de um casal que adquire David, um substituto robótico para o filho que, devido a uma doença complicada, é mantido em suspensão comatosa. O tempo passa e com o advento da cura do filho biológico, a presença do menino falso torna-se em algo obsoleto e traumatizante, pelo que a matriarca, incapaz de simplesmente destruir o robot, abandona o seu filho perpetuamente criança num mundo hostil. Só que amar os seus pais é a única coisa que David compreende, é a pedra basilar da sua programação, pelo que, decidido a recuperar o amor da sua mãe, a rapaz parte numa odisseia em busca da fada azul que lhe irá conceder a bênção de ser um rapaz a sério.

Ele é assim um D. Quixote motivado unicamente pela procura valerosa do amor maternal, assim como uma perversão monstruosamente obcecada desses mesmos impulsos. Kubrick, o cínico, e Spielberg, o sentimentalista, estão aqui de mãos dadas, fundindo as suas vozes criativas profundamente contraditórias.

O controverso final é o culminar de todos estes impulsos e talvez um dos golpes de génio mais incompreendidos na carreira de Spielberg. Depois de testemunharmos um conto miserabilista em que todos estão dispostos a explorar e abusar David, Spielberg violentamente injeta mais um toque de sentimentalismo meloso como cereja no topo do bolo. Ele ativamente subverte as suas tendências mais sacarinas, construindo algo que, por muito inofensivo que pareça, vibra com uma contracorrente de malevolência niilista.

CA


Título Original: Artificial Intelligence: AI. Realização: Steven Spielberg. Intérpretes: Haley Joel Osment, Jude Law, Frances O’Connor, Sam Robards, William Hurt, Jake Thomas, Clark Gregg, Ken Leung, Brendan Gleeson, Chris Rock, Meryl Streep. Produção: Bonnie Curtis, Kathleen Kennedy e Steven Spielberg. Argumento: Steven Spielberg. Música: John Williams. Ano: 2001. Duração: 146m (cor) minutos




08. IMPÉRIO DO SOL

Steven Spielberg imperio do sol
“(…)a perda da inocência é o tema principal deste IMPÉRIO DO SOL(…)”

Baseado no romance e crê-se na experiência vivida pelo próprio escritor britânico J.G. Ballard (“Crash”), — que escreveu o argumento a meias com o dramaturgo Tom Stoppard — “Império do Sol” (1987) foi o filme da carreira de Steven Spielberg em que o ‘mago’, se quiz assumir pela primeira vez como um cineasta-autor de Hollywood e não apenas o realizador e o criador da ‘era dos blockbusters’. Spielberg desenvolve em pano de fundo, e apesar da diversidade da sua obra, uma das suas obsessões mais profundas da sua extensa filmografia: o drama da II Guerra Mundial, — iniciado de uma forma irónica em “1941, Ano Louco em Hollywood” — desta vez no palco da invasão japonesa à China e vista pelo olhar inocente de uma criança, interpretada por Christian Bale, que se estreava no cinema, então com 13 anos.

No filme, a primeira produção de Hollywood rodada na China continental, Christan Bale interpreta Jim, um rapazinho inglês que vive com os seus pais em Xangai, até que a invasão das tropas japonesas faz com que a sua vida mude de um momento para o outro. Durante a confusa e selvagem tomada da cidade Jim perde o contacto com os seus pais e vai parar a um campo de concentração, onde se vê obrigado a crescer muito depressa, ao lado do Coronel Nicholson — uma dos personagens mais apaixonantes da carreira do grande John Malkovich — e têm de fazer tudo para sair dali com vida. Contudo, a perda da inocência é o tema principal deste “Império do Sol”, que de uma maneira óbvia acaba por centrar-se na luta pela sobrevivência de Jim e na notável interpretação de Christian Bale, que carrega incrivelmente aos ombros o seu personagem e este filme.

Na realidade, o tema da inocência é um dos temas favoritos do realizador — habituadíssimo a dirigir actores-infantis — que conjuga quase sempre este momento da vida, com a inevitável fragilidade e imperfeição moral do ser humano, face aos caprichos da natureza e da história. “Império do Sol”, é um filme espetacular, mas continua curiosamente a ser considerado, — talvez por ser demasiado longo, tem cerca de duas horas e meia — um das obras mais falhadas do realizador.

Aproximando-se da tragédia de proporções globais, pela primeira vez de uma forma ambiciosa e séria, Spielberg talvez o faça de uma forma um tanto tímida, parecendo quase pedir por favor para entrar no grupo dos cineastas mais consagrados e prestigiados do mundo, em vez de reclamar esse lugar que então, no final dos anos 80, já lhe pertencia. Uma questão que só vem valorizar e confirmar a grandiosidade e beleza de “Império do Sol”.

JVM


Título Original: Empire of The Sun. Realização: Steven Spielberg. Intérpretes: Christian Bale, John Malkovich, Miranda Richardson, Nigel Havers, Joe Pantoliano, Masato Ibu, Leslie Phillips, Burt Kwouk, Emily Richard, Ben Stiller, Rupert Frazer. Produção: Robert Shapiro e Steven Spielberg. Argumento: Tom Stoppard. Música: John Williams. Ano: 1987. Duração: 148m (cor) minutos




07. MUNIQUE

Steven Spielberg Munique
“(…)violência selvática e vislumbres às profundezas mais negras da consciência humana(…)”

Mesmo depois das suas viscerais explorações do pesadelo da 2ª Guerra Mundial, do Holocausto e das cicatrizes do esclavagismo em comunidades afro-americanas, Steven Spielberg não era, em 2005, um realizador que muitas pessoas pensassem capaz de realizar cinema político. No entanto, desde o início desta presente década, que Spielberg se tem vindo a afirmar como um dos grandes contadores da História política americana no grande ecrã, com filmes tão respeitados como “Lincoln”, “Ponte dos Espiões” e “The Post”.

Com tudo isso em conta, convém esclarecer que o filme que abriu os horizontes cinematográficos de Spielberg a tais possibilidades não é uma obra focada na História Americana, nem em nenhum tipo de inspirador triunfo humanista. De facto, “Munique” é algo mais próximo de uma documentação de podridão humana, tomando como seu ponto de partida o massacre de 11 atletas israelitas nas Olimpíadas de 1972 em Munique. O que se segue a isso é uma narrativa focada nos esforços de quatro agentes da Mossad a tentarem executar um plano de vingança governamental, assassinando 11 líderes palestinianos, alguns dos quais nem estavam tangencialmente ligados aos eventos das Olimpíadas.

Há que esclarecer algo importante. Não obstante muita da receção popular ao filme em 2005, “Munique” está longe de ser um filme sionista ou uma glorificação das ações dos serviços secretos israelitas. O filme, baseado num argumento do dramaturgo Tony Kushner, é um retrato de um ciclo de violência infindável, onde os atos vingativos de um governo são somente uma perpetuação crónica dos horrores infligidos aos seus compatriotas.

Não há dúvida que, para além de ser um excelente thriller, “Munique” é o filme mias moralmente complexo no cânone Spielberg. O que também é difícil de ignorar, se considerarmos o contexto sociopolítico dos EUA em 2005, é que “Munique” é um comentário e crítica cinematográfica sobre a Guerra ao Terror. Somente em “The Post”, onde a figura de Nixon é silenciosamente equiparada a Trump, é que Spielberg foi tão claro nas suas intenções políticas.

Para o realizador mais populista e sentimentalista no panteão dos grandes autores modernos, este filme cheio de violência selvática e vislumbres às profundezas mais negras da consciência humana representa uma obstinada mostra de maturidade e bravura cinematográfica. Bravo!

CA


Título Original: Munich. Realização: Steven Spielberg. Intérpretes: Eric Bana, Dabiel Craig, Ciarán Hinds, Mathieu Kassovitz, Hanns Zischler, Ayelet Zurer, Geoffrey Rush, Mathieu Amalric, Michael Lonsdale, Valeria Bruni Tedeschi, Lynn Cohen . Produção: Barry Mendel, Kathleen Kennedy, Colin Wilson e Steven Spielberg. Argumento: Tony Kushner e Eric Roth. Música: John Williams. Ano: 2005. Duração: 144m (cor) minutos




06. A LISTA DE SCHINDLER

Speven Spielberg Lista de Schindler
“(…)exibe o maior virtuosismo técnico da Hollywood dos grandes estúdios(…)”

De certo modo, é justo dizer que “A Lista de Schindler” é vítima da sua própria boa reputação. Não é que o épico histórico assinado por Steven Spielberg em 1993 seja um mau filme, muito pelo contrário, mas a opinião popular sobre a obra tem vindo a dar-lhe o horrendo estatuto de suprassumo documento cinematográfico sobre o Holocausto.

Escusado será dizer que isso é algo apopleticamente absurdo, ou mesmo ofensivo. Stanley Kubrick, que era grande fã de Spielberg, chegou mesmo a afirmar trocistamente que o Holocausto foi sobre 6 milhões de judeus que perderam a vida, enquanto “A Lista de Schindler” é um filme sobre 6 centenas que sobreviveram. Uma série de cineastas que dedicaram a carreira a explorar e a tentar entender os horrores do Holocausto, como Claude Lanzmann, mostraram-se ainda mais revoltados com a reação popular ao filme de Spielberg, vendo no filme uma transformação de uma das maiores tragédias da Humanidade num filme de entretenimento de Hollywood.

Tais acusações são muito redutoras e um tanto ou quanto injustas, mas também são amplamente justificáveis pela abordagem que Spielberg tomou à história de Oskar Schindler e as centenas de judeus que os seus esforços salvaram. O foco numa figura inspiradora, a manipulação cromática e sobretudo o uso de técnicas de thriller em sequências como aquela em que um grupo de mulheres julga ir morrer numa câmara de gás, tresandam ao tipo de mecanismos de género que o realizador havia passado décadas a aperfeiçoar. O problema é que tais mecanismos, quando aplicados a um tema destes, com um tom tão sepulcral e respeitável como o que está em evidência em “A Lista de Schindler”, acabam por dar um ar de trivialização monstruosa ao projeto final.

A grande chave para se entender os méritos astronómicos de “A Lista de Schindler” depende assim das expetativas do espectador. Se encararmos o filme como o derradeiro filme do holocausto, então deparamo-nos com uma obra trivial e ligeiramente ofensiva. Se, por outro lado, encararmos o filme como um estudo de personagens, especialmente centrado nas figuras de Schindler e Amon Goeth, então temos um dos maiores trunfos na carreira de Spielberg.

Não há nada que enganar, este é um épico histórico que exibe o maior virtuosismo técnico da Hollywood dos grandes estúdios aplicado a um estudo severo e pragmático de horrores humanos. No seu retrato do heroísmo individual de Schindler, Spielberg concretizou o seu mais grandioso filme sobre o tema do Holocausto e da 2ª Guerra Mundial sem abandonar por completo os seus talentos enquanto maior manipulador emocional do cinema americano moderno.

CA


Título Original: Schindler’s List. Realização: Steven Spielberg. Intérpretes: Liam Neeson, Ben Kingsley, Ralph Fiennes, Caroline Goodall, Jonathan Sagall, Embeth Davidtz, Malgorzata Gebel. Produção: Branko Lustig, Gerald R. Molen, Colin Wilson e Steven Spielberg. Argumento: Steven Zaillian. Música: John Williams. Ano: 1993. Duração: 195m (cor) minutos




05. PARQUE JURÁSSICO

Steven Spielberg Parque Jurassico
“(…)um triunfo de cinema escapista(…)”

Não obstante a crescente quantidade de filmes de guerra e dramas políticos no seu currículo, Steven Spielberg é e sempre será, acima de tudo, um realizador de cinema de entretenimento. Grandes espetáculos populistas que brincam com temas e estéticas de géneros como a ficção científica e o cinema clássico de aventuras são a sua especialidade, especialmente quando são emparelhados com as preocupações fetiche do realizador.

Referimo-nos principalmente à figura paterna ausente, crianças em perigo e uma certa dose de espetacularidade tecnológica, tanto ao nível do mundo experienciado pelas personagens dentro da narrativa como da audiência maravilhada com as últimas inovações em efeitos especiais. Quase todos os últimos cinco filmes nesta lista exemplificam esta fórmula Spielbergiana, sendo “Parque Jurássico”, estreado originalmente em 1993, o seu primeiro grande exemplo.

De uma certa perspetiva, é fácil categorizar a estrutura narrativa do filme como uma cópia adaptada de “Tubarão”. Novamente temos uma maravilha monstruosa do mundo animal no centro do enredo, uma série de indivíduos e instituições capitalistas decididas a ignorar os perigos em cena e uma série de desastres de planeamento e tecnologia que resultam na perda de vidas a uma escala considerável. Ao invés do tríptico de masculinidades em conflito de “Tubarão”, contudo, “Parque Jurássico” coloca vários cientistas e acrescenta o elemento crucial da família em perigo. Nas mãos de Spielberg, isto é a receita perfeita para o triunfo cinematográfico.

E de facto, “Parque Jurássico” é um triunfo de cinema escapista, cheio de visões espetaculares e cenas programadas para encher o organismo da audiência de adrenalina. Está longe de ser uma história muito complexa, sendo que a psicologia das personagens e os conflitos morais da premissa inicial são risivelmente subdesenvolvidos, mas isso não é, de todo, uma necessidade para um bom filme. Aliás, graças a um dos melhores elencos que já reuniu na sua carreira, Spielberg consegue mesmo circum-navegar as zonas de maior perigo e indulgência do guião, poupando as suas forças e energia para lidar com o grande desafio do projeto: os monstros jurássicos em si.

E que monstros! Passados 15 anos desde a estreia original de “Parque Jurássico”, os seus efeitos especiais ainda são convincentes. Efeitos que, há que dizer, eram extraordinários feitos históricos no seu ano de estreia, unindo efeitos CGI que eram ainda uma novidade com efeitos práticos e assim criando os dinossauros mais materialmente convincentes na história do cinema.

CA


Título Original: Jurassic Park. Realização: Steven Spielberg. Intérpretes: Sam Neil, Laura Dern, Jeff Goldblum, Richard Attenborough, BD Wong, Samuel L. Jackson, Bob Peck, Martin Ferrero, Joseph Mazzello, Ariana Richards, Wayne Knight. Produção: Gerald R. Molen e Kathleen Kennedy. Argumento: Michael Crichton e David Koepp. Música: John Williams. Ano: 1993. Duração: 127m (cor) minutos




04. ENCONTROS IMEDIATOS DO 3º GRAU

Steven Spielber encontros imediatos do terceiro grau
“(…)a rara joia cinematográfica onde todas as partes parecem funcionar perfeitamente”

Como já deu para entender, alguns dos maiores sucessos na carreira de Steven Spielberg nasceram de reimaginações de géneros e fórmulas outrora associados aos filmes de série B. Afinal, o que é “Tubarão” senão uma malévola junção dos filmes de praia dos anos 50 e 60 com os filmes B sobre monstros sobrenaturais? O que são as aventuras de Indiana Jones que não reinvenções das sagas dos heróis de matiné dos anos 30?

Seguindo esta mesma linha de pensamento, chegamos a “Encontros Imediatos do 3º Grau”, uma versão Nova Hollywood dos muitos filmes de invasões e visitas extraterrestres que encheram os cinemas na década de 50. A grande diferença é que este filme não floresceu na América conservadora e otimista de Eisenhower, mas sim no final dos anos 70, o que alterou por completo o seu foco e tonalidade.

Mais do que uma aventura espetacular com vilões e heróis bem definidos, “Encontros Imediatos do 3º Grau” é uma história de implosão familiar, um drama sobre estranhas obsessões e, acima de tudo isso, um mistério sobrenatural. No seu arsenal de mecanismos e soluções cinematográficas tirados dos filmes de série B, Steven Spielberg chega mesmo a acrescentar uns toques de terror à sua receita de referências, fazendo dos seus aliens criaturas de igual ameaça e esplendor.

Como muitos filmes no currículo de Steven Spielberg, esta é a rara jóia cinematográfica onde todas as partes parecem funcionar perfeitamente como uma máquina bem oleada. Se um requintado relógio suíço tivesse forma fílmica, talvez a eficiência rítmica, estrutural, visual e narrativa de “Encontros Imediatos do 3º Grau” fosse uma boa proposta. A fotografia de Vilmos Szigmond e a música de John Williams são particularmente notáveis, assim como os efeitos visuais que ainda não envelheceram um dia desde 1977.

Não só este é um dos filmes mais bem interpretados do realizador, mas é também aquele mais moralmente complexo e profundamente humano. Acima de tudo, este é um projeto que aborda, de várias perspetivas, a ansiedade intrinsecamente humana que é sabermos se estamos ou não sozinhos no Universo. Isso e pais que abandonam os filhos, pois, afinal, é um filme de Steven Spielberg.

CA


Título Original: Close Encounters of the Third Kind. Realização: Steven Spielberg. Intérpretes: Richard Dreyfuss, François Truffaut, Melinda Dillon, Teri Garr, Bob Balaban, J. Patrick McNamara, Warren J. Kemmerling, Philip Dodds, Cary Guffey. Produção: Julia Phillips, Michael Phillips. Argumento: Steven Spielberg. Música: John Williams. Ano: 1977. Duração: 138m (cor) minutos




03. E.T. – O EXTRA-TERRESTRE

steven spielberg e.t.
“(…)pura glória cinematográfica. “

De todos os filmes realizados por Steven Spielberg, “E.T. – O Extra-Terrestre” é claramente a sua obra mais pessoal. Tal como o jovem protagonista do filme, Spielberg cresceu nos subúrbios californianos com poucos amigos da sua idade, o peso do abandono patriarcal e uma mãe com a qual a relação do jovem foi sempre um tanto ou quanto inconsistente. O futuro rei de Hollywood passou estes anos da sua vida mergulhado em mundos de fantasia, escapando da sua realidade através do ato de fazer vídeos caseiros, pequenos filmes que antecipavam as glórias do futuro. Para Elliott, o alter-ego Spielbergiano de “E.T. – O Extra-Terrestre”, essa fuga da realidade não vem na forma de atividade cineasta, mas sim na figura de um bizarro ser de outro planeta.

No contexto do seu cânone pessoal, e não obstante a reputação de Spielberg como criador de grandes lamechices cinemáticas para toda a família, “E.T. – O Extra-Terrestre” é o único projeto calibrado especificamente para um público infantil. Não que Spielberg demonstre qualquer tipo de condescendência para com o seu público-alvo. Muito pelo contrário, o realizador encara todo o drama de Elliott e o seu amigo de outro planeta com inabalável sinceridade e respeito.

O filme não vê com nenhum humor o estado quase depressivo em que Elliott se encontra no início da narrativa, por exemplo, e retrata a sua relação com o alienígena como um processo de redescoberta da própria capacidade de se preocupar e amar o outrem. Essa abertura emocional e sua ameaça por forças exteriores orientam a estrutura do filme e a evolução musical dos temas de John Williams, efetivamente marcando a obra como, acima de tudo, uma experiência em catarse emocional.

De facto, não há nenhum filme de Spielberg mais emocionalmente avassalador que este, o que é uma prova das capacidades manipuladoras do cineasta, mas também uma prova do seu génio. Afinal, o que é o cinema senão a manipulação das reações de uma audiência quando confrontada com imagens, movimento, ritmo e talvez som? É isso que “E.T. – O Extra-Terrestre” é, pura glória cinematográfica.

Sim, é um filme de grande orçamento dos estúdios de Hollywood e não um tratado artístico de um autor europeu, mas isso não lhe detrai nenhum valor enquanto glorioso exemplo das maravilhas da sétima arte.

CA


Título Original: E.T. the Extra-Terrestrial. Realização: Steven Spielberg. Intérpretes: Henry Thomas, Drew Barrymore, Dee Wallace, Peter Coyote, Robert MacNaughton, K.C. Martel, Sean Frye, C. Thomas Howell. Produção: Kathleen Kennedy e Steven Spielberg. Argumento: Melissa Mathison. Música: John Williams. Ano: 1982. Duração: 115m (cor) minutos




02. OS SALTEADORES DA ARCA PERDIDA

Steven spielberg salteadores da arca perdida indiana jones
“(…)um dos grandes heróis do cinema.”

Existem poucos filmes na História do cinema que podem justamente ser caracterizados como perfeitos. “Os Salteadores da Arca Perdida” é um deles.

Nascido das mentes do produtor George Lucas e do realizador Steven Spielberg, o filme começou por existir como uma ideia, uma vontade de se fazer um filme deliberadamente formulaico e simplista, uma obra de desavergonhado entretenimento na mesma linha das aventuras de James Bond e dos grandes seriados dos anos 30. Deste exercício em nostalgia cultural, floresceu o projeto e, mais importante ainda, germinou a figura central da aventura – Indiana Jones.

É evidente, contudo, que a personagem presente no argumento de Lawrence Kasdan – uma jóia de economia narrativa por si só – nunca funcionaria tão bem nas mãos de outro ator que não Harrison Ford. De facto, a estrela já então famosa pelo seu desempenho enquanto Han Solo na saga Star Wars não foi, nem de perto nem de longe, a primeira escolha do duo Lucas e Spielberg. Felizmente, a parelha de cineastas lá abandonou o seu lapso de momentânea insanidade e ofereceram o papel a Ford que, por sua vez, trouxe ao prototípico herói de matinés um toque de ironia moderna, assim solidificando a figura de Indiana Jones como um dos grandes heróis do cinema.

Argumento elegante e um elenco perfeito são parte da receita de sucesso de “Os Salteadores da Arca Perdida”, mas ainda mais importante é a contribuição de Spielberg. Referimo-nos aos seus gostos classicistas e tendências românticas, mais próximas das sensibilidades de um cineasta da Era doirada de Hollywood do que de um realizador de blockbusters dos anos 80. Este é um filme executado na perfeição, com fotografia deslumbrante, efeitos especiais insuperáveis, uma montagem que faz com que o filme passe a correr e uma banda-sonora icónica.

Melhor ainda, este filme possui algumas das melhores cenas de ação de sempre, com especial destaque para a memorável cena de abertura. Como é que é possível alguém resistir aos encantos de tal maravilha. Isto sim, é cinema de entretenimento no seu melhor.

CA


Título Original: Raiders of the Lost Ark. Realização: Steven Spielberg. Intérpretes: Harrison Ford, Karen Allen, Paul Freeman, Ronald Lacey, John Rhys-Davies, Denholm Elliott, Alfred Molina, Wolf Kahler, Anthony Higgins. Produção: Frank Marshall. Argumento: Lawrence Kasdan. Música: John Williams. Ano: 1981. Duração: 115m (cor) minutos




01. TUBARÃO

steven spielberg tubarao jaws
“(…)o filme que abriu caminho à Era do Blockbuster(…)”

E num oceano de histórias com âncoras emocionais inimitáveis e aventuras familiares que centenas de outros cineastas tentaram replicar (tantas vezes sem sucesso) ao longo de tantos anos, chegamos ao topo da lista de Spielberg e sobe um frio na espinha: longe está a relação fraterna entre um rapaz e um extraterrestre, ou o laço de um paleontólogo e os milagres da ciência, e até mesmo o atroz retrato de um dos maiores crimes humanitários da história, personificados no casaco vermelho de uma menina inocente. É imensamente curioso que o “pai” das aventuras familiares e dos laços emotivos se distinga por instalar tão visceralmente o sentimento de horror em todos nós, ao longo de tantas décadas.

De repente estamos numa praia e ouvimos dois acordes familiares que chegam para nos gelar os sentidos, e a única coisa que importa é fugir – fugir sem nunca olhar para trás.

Se esta decisão de colocar Tubarão no topo da lista dos Filmes Spielberg by MHD te parece suspeita ou até estranha, convidamos-te a fazer um pequeno exercício: faz uma lista dos blockbusters que sentes que tiveram um grande impacto na história do cinema. Força, nós esperamos.

Já está? Bom, não é uma lista assim tão fácil, certo? Tudo já foi feito, refeito, imaginado e reimaginado. As raras exceções são os pioneiros, e Tubarão é um deles.

Tubarão é repetidamente considerado o filme que abriu caminho à Era do Blockbuster, e um dos primeiros “filme-evento” da história – talvez por isso pudesse ser discriminado nos dias de hoje, numa época em que se assiste cada vez mais à sobrelotação e sobre-exposição ao blockbuster… mas o “problema” é que Tubarão é tão bom que é impossível questionar a sua relevância história, cinematográfica e até sociológica.

Filho da sua era, Tubarão refletiu o zeitgeist americano e um sentimento de profunda ansiedade que o país atravessava em cenário pós-Vietname e em semi-depressão. Perante uma América impotente, o Tubarão bebeu dessa debilidade de uma forma visceral para edificar um fenómeno que os humanos comuns não tinham possibilidade de controlar, manipulando as noções de suspense em graus mainstream como desde Hitchcock não se via.

O maior testamento à sua marca na história? Até hoje pensamos duas vezes antes de entrar na água.

CO


Título Original: Jaws. Realização: Steven Spielberg. Intérpretes: Roy Scheider, Robert Shaw, Richard Dreyfuss, Lorraine Garry, Murray Hamilton, Carl Gottlieb, Jeffrey Kramer. Produção: David Brown, Richard D. Zanuck. Argumento: Peter Benchley, Carl Gottlieb. Música: John Williams. Ano: 1975. Duração: 124m (cor) minutos

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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