Silêncio | A mestria do cenógrafo e figurinista Dante Ferretti

Entre verismo histórico, homenagens cinematográficas e uns toques de estilização teatral, os figurinos de Silêncio são um triunfo do genial Dante Ferretti.

silencio dante ferretti

Silêncio merece especial destaque na filmografia do ilustre Dante Ferretti por ter sido o projeto que deu início à sua colaboração com Martin Scorsese. Apesar de ser sido o cenógrafo de eleição para uma série dos maiores mestres do cinema italiano como Pasolini, Zefirelli e Fellini, Dante Ferretti raramente se aventurava fora das fronteiras do seu cinema nacional. Isso começou a mudar nos anos 80, mas foi quando Ferretti se envolveu no projeto para adaptar Silêncio ao grande ecrã que a sua carreira mudou por completo. Dizemos isto pois, apesar de Silêncio ter demorado décadas até ser filmado, o realizador Martin Scorsese adorou o trabalho desta lenda viva do cinema italiano e os dois passaram a colaborar regularmente, começando com A Idade da Inocência em 1993. Três Óscares, muitas nomeações e filmes de Hollywood depois, Ferretti é um titã incomparável no seu ramo e Silêncio é mais uma mostra da sua mestria.

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Mestria essa que, convém salientar, se estende tanto aos cenários como aos figurinos, sendo que Silêncio é somente o terceiro projeto na carreira de Ferretti em que o italiano esteve encarregue tanto dos espaços em que a ação se desenrola como do vestuário das figuras humanas. Notoriamente, um dos outros filmes para o qual ele desenhou figurinos foi Kundun, outro épico religioso de Martin Scorsese passado na Ásia. Escusado será dizer que conceber o guarda-roupa para Silêncio não foi tarefa fácil, pois o filme, para além de ter exigido uma imensa pesquisa histórica levada a cabo por Ferretti em Nagasaki, Tóquio e Quioto, acabou por requerer cerca de dois mil figurinos para além de uma imensidão de cenários, todos eles feitos de raiz no Taiwan. Dificuldades técnicas aparte, Silêncio é um estrondoso triunfo do estilo híper detalhado de Ferretti, onde o naturalismo visual é elevado a um nível de opulência quase operática.

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Aqui vamos focar-nos nos figurinos edificados por Ferretti e começamos por falar das figuras que mais dores de cabeça deram ao designer: os padres portugueses. Com a exceção de Ferreira (Liam Neeson), que vislumbramos logo no prólogo em andrajos pobres, as personagens lusitanas são apresentadas à audiência como as iconoclásticas imagens de padres trajados de negro dos pés à cabeça. Tal vestuário modesto e historicamente correto é um elemento de fenomenal negrura nas primeiras imagens do filme, recordando as pinturas nipónicas da época, onde figuras trajadas de negro rasgavam a harmonia paisagística e representavam os religiosos europeus. No entanto, depois de arranjarem um intérprete muito suspeito numa taberna de Macau, os padres partem rumo ao Japão, onde o seu traje católico os sinalizaria imediatamente como alvos a abater pelas autoridades anticristãs.

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Como tal, os jovens padres Rodrigues e Garupe (Andrew Garfield e Adam Driver) passam a envergar trajes nipónicos em tons terrenos e materiais pobres. Assim, a sua aparência fica muito mais próxima dos camponeses japoneses que os acolhem do que dos nobres que os perseguem. Tal relação entre a pobreza cristã e a riqueza hostil das elites nipónicas constitui o principal motivo visual deste guarda-roupa mas, voltando a falar nos padres, é de salientar como as vestes de Rodrigues se vão alterando depois de este ser capturado pelas autoridades. Os materiais das suas roupas tornam-se mais nobres, sua forma mais rígida, seus tons terrenos são substituídos por negros elegantes e azuis que contrastam com os ambientes envolventes. A certa altura, pelo meio destes trajes de burguesia nipónica, os captores de Rodrigues chegam mesmo a vesti-lo com a indumentária dos sacerdotes budistas num toque de cruel provocação.

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Chamamos a atenção para a estratificação social da sociedade nipónica desta época pois as injustiças do regime feudal estiveram no cerne da questão anticristã – afinal, não era bom ter os camponeses a pensar que as suas vidas eram tão importantes e valorosas como as dos seus superiores sociais – e porque, como já dissemos, essa mesma ordem socioeconómica torna-se no principal motivo visual dos figurinos de Silêncio. Note-se, mais uma vez a pobreza miserável dos camponeses das aldeias piscatórias e suas andrajosas roupas cheias de remendos, rasgões e relativa falta de elementos decorativos. Mesmo o uso de têxteis com padrões, que é algo central na história da moda nipónica, é reduzido ou usado para salientar como as peças têm sido progressivamente alteradas devido ao desgaste.

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Não vamos estar aqui a usar muita nomenclatura exata e explicada ou este artigo torna-se numa dissertação, mas há que se salientar como na moda japonesa da época existiam uma série de peças e estilos que eram exclusivos de certas classes sociais, independentemente da capacidade económica da pessoa em questão. Os samurais por exemplo, tinham uma série de trajes que só eles podiam usar, incluindo peças tão simples como o Shitagi – que era, em essência um simples estilo de túnica. Como tal, quando as personagens aristocráticas aparecem, a sua silhueta, até mais que as sedas rígidas, padrões requintados e materiais translúcidos das suas vestes, é um indicador claro da disparidade entre eles e as classes inferiores nos seus trapos de linho e algodão.

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É claro que, sem um ator que o saiba usar, um figurino pode passar de uma peça soberba a um estorvo descomunal. Felizmente, todos os atores de Silêncio sabem usar os seus trajes, alguns deles assemelhando-se a atores de Noh e Kabuki, onde o dramatismo teatral das roupas é uma parte essencial do estilo performativo e sua estilizada fisicalidade. Issei Ogata, em particular, faz bom proveito da rigidez sedosa do seu Kamishimo (um conjunto de túnica de mangas curtas, calças assimétricas com sete pregas e um casaco sem mangas e com ombros salientes) e parece ter saído diretamente de um palco tradicional ou então de um filme de época japonês.

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Esses dramas históricos, chamados jidaigeki, foram uma das principais inspirações para o estilo de Silêncio, e o fausto altamente teatral e codificado dos seus figurinos foi uma clara influência para Ferretti. Ran de Akira Kurosawa parece ser uma especial referência, tendo em consideração as conjugações cromáticas dos figurinos dos nobres e sua relativa simplicidade individual, tão elegante quão ameaçadora. Outra boa referência é também um filme de Kurosawa, Os Sete Samurais que, ao contrário da maioria dos seus épicos históricos, tem uma população empobrecida colocada em destaque e, tal como em Silêncio, um breve interlúdio numa área urbana que revela as monstruosas disparidades sociais que afetavam a sociedade japonesa do período feudal. Se, depois disso, ainda estiveres interessado em testemunhar a beleza e espetacularidade cinematográfica do traje japonês desta época histórica, dá uma vista de olhos pela filmografia de Kenji Mizoguchi, aonde Scorsese foi buscar muitos dos ponderados movimentos de câmara que emprega com magistral solenidade em Silêncio. Se, por outro lado, desejares ver mais do trabalho de Dante Ferretti, recomendamos A Invenção de Hugo, Sweeney Todd, O Aviador, Gangues de Nova Iorque, Titus, Kundun, A Idade da Inocência, As Aventuras do Barão, O Nome da Rosa, Cidade das Mulheres, Salo e a Trilogia da Vida de Pasolini.

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Se te interessas pelas complexidades e valor artístico inerente ao desenho de figurinos para cinema e televisão, vem explorar a nossa rubrica Figura de Estilo.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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