Silvio e os Outros critica leffest

LEFFEST ’18 | Silvio e os Outros, em análise

“Silvio e os Outros” é um filme biográfico sobre Silvio Berlusconi, assinado pelo maximalista italiano Paolo Sorrentino. Trata-se de uma das obras fora de competição no Lisbon & Sintra Film Festival.

Paolo Sorrentino tem vindo a afirmar a sua posição destacada no panorama do cinema italiano com uma série de filmes internacionalmente aclamados que, de modo geral, são exemplos de puro maximalismo cinematográfico. Referimo-nos a obras como “A Grande Beleza”, onde o cineasta exumou “La Dolce Vita” de Fellini e injetou-lhe umas quantas substâncias psicotrópicas, ou “Il Divo”, onde a biografia de Giulio Andreotti ganhou a aparência de uma ópera pop cheia de figuras grotescas. Seu cinema é um de excesso e ostentação que chega até ao precipício do mau gosto, nos deita a língua de fora, e depois atira-se de cabeça. Ou seja, se Silvio Berlusconi não existisse, tinha de ser inventado para aparecer num filme de Sorrentino.

De facto, no seu artifício untuoso, estilo de vida hedonista e procura constante por poder e influência, o antigo Presidente da República de Itália Silvio Berlusconi é como que o prototípico protagonista de Paolo Sorrentino. Tanto isto é verdade que ninguém estranhou quando o realizador anunciou que ia filmar uma obra sobre a vida da figura pública. Afinal, já antes Sorrentino havia feito fama ao retratar um antigo presidente italiano. Com o exemplo de “Il Divo” em mente, muitos foram os cinéfilos que ficaram na expetativa de experienciar mais uma crítica cáustica e operática a mais um político compatriota do realizador. Contudo, talvez Berlusconi seja demasiado perfeito para um filme de Sorrentino, pois, ao invés da dissecação incisiva de Andreotti, este retrato biográfico não tem nada de cáustico. Aliás, é uma montra de todos os piores impulsos e manias de Sorrentino levados à sua triste apoteose.

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Hedonismo sem limites.

Se há um gesto estilístico que anuncia um filme como obra de Sorrentino é uma montagem em câmara lenta de um bacanal cheio de corpos femininos desnudos. Em “Silvio e os Outros”, os primeiros 40 minutos da obra são quase exclusivamente dedicados a esses mesmos bacanais, começando com uma modesta mostra de ginásticas vaginais em gesto de suborno político e terminando com uma monstruosidade de hedonismo sem limites, onde chove esctasy dos céus e há mais corpos nus em cena que na maior parte dos filmes pornográficos. Mesmo para quem não fique justificadamente incomodado com a desenvergonhada objetificação feminina destas sequências, a sua qualidade repetitiva acaba por aborrecer e cansar.

Talvez esse seja o jogo de Sorrentino – comunicar o vazio deste estilo de vida ao atordoar a audiência para os seus prazeres. Em contrapartida, há demasiado empenho e inventividade formal nestas passagens numerosas para que essa leitura seja possível. Convém dizer ainda que esta versão de “Silvio e os Outros” que estreia em Portugal, não é a mesma que chegou aos cinemas italianos. Originalmente, esta obra era composta por dois filmes que, ao todo, tinham cerca de três horas e meia. Já a respeito dessa dupla, houve quem acusasse os filmes de pareceram fragmentados de uma obra maior forçosamente reduzida. Nesta versão para o mercado internacional, que ainda corta uma hora de duração, o resultado são uns derradeiros 30 minutos notoriamente incoerentes e intensificação de todos esses outros problemas. Mesmo assim, Sorrentino não viu necessidade de cortar nenhuma das suas infindáveis festas.

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Durante esses bacanais, jantares e encontros com prostitutas que compõem o primeiro ato do filme, nem sequer estamos na companhia de Silvio, mas sim a ver os esquemas de escalada social de Sergio Morra. Trata-se de um dos muitos parasitas que se tentam aproximar do milionário com dentes luminosos e cabelos pintados em nome de desfrutarem do seu poder. Na verdade, quando Silvio finalmente assume o seu lugar como justo protagonista de “Silvio e os Outros”, traz consigo calma e muita melancolia. Para Sorrentino, Berlusconi é um homem viciado em poder, criminoso e afetado por uma necessidade doentia de sentir o afeto de todo o mundo. Também é uma figura patética, quase trágica, que se tenta a agarrar à juventude que perdeu e aos prazeres do corpo e do dinheiro. Pelo menos, este é o quadro que o realizador nos pinta.

A ajudar o realizador está, como seria de esperar, o seu ator fetiche de preferência, Toni Servillo. Coberto de próteses faciais, pintado com um bronzeado laranja e portador do sorriso mais maníaco da Europa, o ator faz de Berlusconi um vigarista de terceira classe que se expressa em gestos espampanantes e a todo o custo tenta evitar revelar o que está por detrás da sua fachada risonha. Só mesmo num momento de confrontação com a esposa, Veronica Lario, é que lhe vemos irritação no olhar e ameaça na postura. Face à ferocidade de Elena Sofia Ricci no papel de Veronica, tal reação é entendível. Aliás, esse é um dos poucos exemplos de como o filme tenta criticar diretamente a natureza mentirosa, emocionalmente abusiva e cronicamente gananciosa de Berlusconi.

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As cenas entre Toni Servillo e Elena Sofia Ricci representam os pontos altos do filme.

Leitores atentos hão de reparar como pouco disto se refere a Silvio como político. Isso deve-se ao facto de que muito pouco do filme se foca no tempo de Berlusconi em posições de poder estatal, preferindo documentar a sua existência tristonha entre o fim do seu mandato em 2006 e as eleições de 2008. Se “Il Divo” nos mostrou a monstruosidade de um presidente corrupto, “Silvio e os Outros” parece estar quase a desculpar o seu mau caráter, a justificar o seu hedonismo e a desviar os olhos do mal que os seus governos trouxeram ao povo italiano e do radicalismo de algumas das suas crenças. Não se quer com isto dizer que “Silvio e os Outros” não tem nada a dizer sobre Berlusconi que não seja uma apologia da sua pequenez humana.

Já referimos a confrontação com Veronica, mas essa nem é a cena mais impactante da narrativa. Antes disso, uma tentativa abortada de sedução durante uma festa mortiça levou a que Silvio fosse rejeitado por uma mulher mais nova que se recordava do avô quando cheirava o hálito do antigo e futuro presidente. Para ela, tudo em Silvio é patético e a palavra reverbera por todo o filme, abalando o edifício do seu espetáculo. Por fim, “Silvio e os Outros” termina com uma coda solene, nos escombros de Áquila após o sismo de 2009, onde a negligência de Berlusconi para com o seu povo melhor se materializa, fazendo de todo o hedonismo anterior algo ativamente demoníaco. Tal resolução vem demasiado tarde, infelizmente, e o pior de tudo é que é fácil ver na carcaça deste desastre momentos como final, fundações de uma potencial obra-prima cheia do habitual virtuosismo formal de Sorrentino. Na sua forma atual, este é um bacanal de mediocridade que, como o bafo a cheirar a cola de dentadura na boca de um Casanova cor-de-laranja, não tem nada de grandioso. É só mesmo patético.

Silvio e os Outros, em análise
Silvio e os Outros

Movie title: Loro

Date published: 2018-11-19

Director(s): Paolo Sorrentino

Actor(s): Toni Servillo, Elena Sofia Ricci, Riccardo Scamarcio, Kasia Smutniak, Euridice Axen, Fabrizio Bentivoglio, Roberto De Francesco, Dario Cantarelli, Anna Bonaiuto, Giovanni Esposito, Ugo Pagliai, Ricky Memphis

Genre: Biografia, Drama, 2018, 145 min

  • Cláudio Alves - 45
45

CONCLUSÃO

“Silvio e os Outros” recusa-se a examinar a fundo a figura política de Silvio Berlusconi, preferindo focar-se na natureza patética do seu hedonismo. Ao mesmo tempo, o realizador é incapaz de criticar esse estilo de vida sem cair numa cansativa celebração do mesmo com grandes doses de nudez e violação dos bons costumes. Algumas prestações de relevo e um par de cenas fortes impedem o filme de ser completamente fracassado.

O MELHOR: A prestação de Elena Sofia Ricci como Veronica, que se esconde por detrás de livros de Saramago e, nos seus momentos finais, dá a Berlusconi o tipo de dissecação cáustica de que este filme mais precisava. A nível mais técnico, a fotografia é sublime, especialmente durante a chuva de ecstasy.

O PIOR: O branquear da história política, a repetição atordoante da estrutura do filme e quão notórios os cortes da última meia-hora são.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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