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LEFFEST ’18 | Cafarnaum, em análise

Cafarnaum” ganhou o Prémio do Júri do Festival de Cannes deste ano e agora chega ao público português que certamente se irá comover com a sua história de um menino a viver o inferno nas ruas de Beirute. Este filme integra a secção não competitiva do presente LEFFEST.

A premissa básica de “Cafarnaum” é, no mínimo, chamativa. Neste filme da cineasta libanesa Nadine Labaki, um menino de doze anos, condenado a cinco de prisão por ter esfaqueado um homem, leva os pais a tribunal. Face a um juiz, o pequeno Zain tenta provar que os seus pais são culpados do crime do seu nascimento. No contexto desta narrativa, somos levados a entender como a mera existência de Zain representa imperdoável e criminosa negligência pela parte dos seus pais. Lendo esta descrição, tal tese poderá parecer difícil de engolir, mas Labaki muito trabalha para dar razão as palavras cáusticas do seu protagonista infantil.

Usando os procedimentos judiciais contra os pais de Zain como esqueleto estrutural do filme, Labaki constrói a narrativa através de uma série de flashbacks que traçam o caminho que levou todas as personagens à polémica situação na sala de tribunal. A sua ambição biográfica não se estende a todos os detalhes na tortuosa vida deste menino, mas a cineasta dá-nos informação suficiente para que a audiência consiga pintar na sua mente toda uma tapeçaria de horrores e sofrimento que nenhuma criança deveria ter que experienciar, mesmo que muitas o façam no mundo podre em que habitamos.

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A prestação de Zain Al Rafeea merecia um Óscar!

A ação principal tem início uns meses antes do processo ter início, e mergulha-nos de cabeça no caos urbano de Beirute vista pelos olhos cansados de Zain. Perscrutamos o labirinto de lixo e degredo das ruas onde ele cresceu e testemunhamos o seu inimaginável ambiente familial. Os pais pouco se parecem preocupar com os filhos, o número total dos quais nunca é claro, preferindo encará-los ora como comodidades ou mão-de-obra. No seu usual esquema de traficar drogas para o interior de uma prisão local, todos os miúdos colaboram tirando os mais novos que são acorrentados pelo tornozelo para não se matarem com os pós psicotrópicos espalhados pelo chão.

É impossível não ficar chocado com o mundo que Labaki documenta com a sua câmara, mas, ao mesmo tempo, temos de admirar a sua contenção. Há pouco na gramática cinematográfica da realizadora que promova o choque barato, sendo que a sua técnica é uma de imersividade bruta, crua e dura. Numa cena de particular violência, quando a adorada irmã de Zain, uma das poucas fontes de felicidade na sua vida, é vendida pelos pais a um casamento forçada por meia dúzia de galinhas, é como se a própria câmara perdesse noção do que se passa no meio da calamidade. Descemos por uma escada sinuosa aos pontapés e quase perdemos o folego enquanto vemos todo o mundo deste menino desabar à sua volta.

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O impacto da injustiça é tão grande que Zain foge de casa e acaba por encontrar refúgio numa feira popular, onde as cores vias das atrações e a as músicas festivas ganham a qualidade de um riso trocista. É aí que Zain encontra Rahil, uma imigrante etíope sem documentação que trabalha como mulher das limpezas na feira e oferece abrigo ao menino sem casa. Em troca, ela só pede que ele cuide do seu bebé, o pequeno Yonas, enquanto ela está a trabalhar. O contraste entre o afeto, mesmo que condicional, da mulher adulta é, para Zain e para o espectador, um contraste monstruoso em relação à atitude da mãe do protagonista.

No interlúdio de tardes passadas a tomar conta de Yonas e noites a jantar com uma presença maternal sorridente, “Cafarnaum” e seu herói juvenil encontram um semblante de paz e algo parecido com alegria. Obviamente que tal éden está destinado desde início a acabar em desgraça e assim se verifica quando, uma noite, Rahil não volta a casa. Zain não sabe a razão da sua ausência e é rapidamente convencido do abandono, mas a mãe de Yonas foi presa enquanto tentava arranjar dinheiro para pagar documentos forjados. Sem comida, sem água, e finalmente sem casa, Zain tenta garantir a sua sobrevivência e a do pequeno Yonas, efetivamente tornando-se um adulto de doze anos se é que já não o era.

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Quando o nascimento de uma criança é em si um ato de negligência.

A partir daqui o filme tende a tornar-se bastante repetitivo, o que tanto beneficia como magoa a experiência geral de “Cafarnaum”. Por um lado, tal técnica tende a ajudar a criar  empatia com os ritmos diários de Zain e sua luta cada vez mais precária pela subsistência e cuidado de Yonas. No entanto, a repetição também começa a pôr em evidência os problemas do argumento, nomeadamente a sua falta de subtileza nas cenas em tribunal, onde a história de Zain tende a cair de realismo poderoso em sensacionalismo sentimental. No ponto de encontro das duas correntes narrativas, isso é particularmente óbvio, culminando num monólogo televisado de Zain cuja articulação repentina parece forçada e inorgânica.

Convém dizer que nada disso é culpa dos atores. Aliás, as prestações que Labaki consegue obter do seu elenco são estonteantes. Veja-se o desempenho de Zain Al Rafeea, que aqui interpreta uma personagem cuja vida se calhar não é assim tão distante da do ator e que é tão extraordinário que quase dá vontade de se falar em prémios como o Óscar. Desde as maiores crispações emocionais de Zain até aos momentos mais apáticos, o elemento mais impressionante do seu trabalho é o modo como ele telegrafa a depressão que se estabelece sobre o menino. Seus olhos perdem o brilho e a cara fica congelada numa expressão de resignação aborrecida. Como Yonas e sua mãe, a adorável Boluwatife Treasure Bankole e Yordanos Shiferaw, que é uma refugiada etíope na vida real, são igualmente formidáveis.

Enfim, “Cafarnaum” está longe de ser pornografia gratuita de miséria e sofrimento humano. Contudo, há que admitir como este é um exercício cheio de passos em falso, talvez o maior deles todos a tentativa desajeitada de parcialmente desculpabilizar as ações dos pais pelo final da narrativa em tribunal. Tais fragilidades trazem muito demérito às boas intenções da realizadora, mas não apagam todo o poder do seu exercício em realismo social da variedade mais lacerante que se consegue imaginar. Afinal, não é todos os dias que somos confrontados com um filme que nos pede para simpatizar totalmente com uma criança e, em consequência, aceitar que esse menino nunca devia ter sido forçado a nascer para um mundo que para ele só guarda sofrimentos sem fim.

Cafarnaum, em análise
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Movie title: Capharnaüm

Date published: 2018-11-19

Director(s): Nadine Labaki

Actor(s): Zain Al Rafeea, Yordanos Shiferaw, Boluwatife Treasure Bankole, Kawsar Al Haddad, Fadi Yousef, Haita 'Cedra' Izzam, Alaa Chouchnieh, Nadine Labaki, Elias Khoury, Nour El Husseini, Joseph Jimbazian, Samira Chalhoub, Farah Hasno

Genre: Drama, 2018, 121 min

  • Cláudio Alves - 70
  • José Vieira Mendes - 55
63

CONCLUSÃO

“Cafarnaum” é um filme de fazer chorar as pedras da calçada, mas que, apesar disso, vibra com fúria indignada e não com tristeza lacrimosa. Este filme é um grito de raiva contra uma sociedade que permite tais situações de abuso e negligência, que condena crianças a viver no inferno desde o nascimento até ao momento benevolente da morte. O elenco e as técnicas imersivas da realizadora são espantosos.

O MELHOR: As prestações do elenco infantil, especialmente Zain Al Rafeea.

O PIOR: A indulgência do sentimentalismo melodramático em que o filme ocasionalmente se deixa cair.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

One thought on “LEFFEST ’18 | Cafarnaum, em análise

  • Excelente crítica

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