Snowden – Ninguém Está Seguro, em análise

Oliver Stone regressa à sua melhor forma com um dos maiores “docudramas” políticos dos últimos tempos. Gordon-Levitt na pele de Snowden é simplesmente hipnotizante.

Snowden” – esse apelido enevoado pela maior fuga de informação classificada da estória dos serviços secretos norte-americanos é, hoje, porta estandarte de um movimento cívico global contra o abuso do poder estadual. O debate já não é de agora, mas numa era tão digitalizada como a nossa é imperativo atribuir limites à privacidade e protecção dos nossos dados pessoais. E foi pela defesa desses valores fundamentais, que Snowden se insurgiu com todo o estrondo mediático que se conhece, recusando pactuar com um “Big Brother” planetário fomentado pelo trauma do 11 de Setembro. Mas a dúvida persiste: Será Snowden herói ou traidor?

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Talvez a resposta se encontre algures no caminho entre as duas hipóteses ainda toldadas por algum ceticismo, o mesmo que levou inicialmente Oliver Stone a recusar associar-se a um filme tão controverso, à semelhança das restantes produtoras cinematográficas que não se coibiram de censurar a iniciativa. Baseado na crónica de Luke Harding “Os Ficheiros de Snowden” e no thriller político de Anatoly Kucherena “A Hora do Polvo“, a metragem de Stone mais do que enfatizar cronologicamente os factos, compromete-se a explorar a índole humana deste homem que aceitou fugir do seu país para não fugir da verdade inconveniente.

“Stone pretende preencher esse vazio humano que o mundo desconhece, e fá-lo com recorrência às memórias mais tenras de Edward Snowden, num estilo de filmagem polarizante, que congrega uns laivos de “noir clássico” com técnicas convencionais.”

A narrativa preambular de “Snowden” é-nos apresentada “in media res” ou seja, a ordenação temporal dos acontecimentos sucede-se por via de prolepses e analepses, que enquadram simultaneamente os eventos que ocorrem no presente com correlação no passado vivencial de Snowden. Assim, utilizando esta técnica literária, o roteirista Kieran Fitzgerald consegue implantar no argumento aqueles picos de tensão emocional instantâneos, sem que tenhamos de aguardar pacientemente pela escalada dos mesmos. E é logo por entre uma panorâmica dos arranha-céus de Hong Kong, que obtemos o primeiro contacto com Snowden e o seu cubo de Rubik, no lobby do hotel Mira, aonde dois repórteres do “The Guardian“: Glenn Greenwald (Zachary Quinto) e Laura Poitras (Melissa Leo) aguardavam ansiosamente por aquele “blind date” profissional.

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E logo ali, mal Gordon-Levitt se dá a conhecer à câmara com o seu ar ultra geek de génio em potência e profere as primeiras de muitas palavras monocórdicas, nada conseguirá preparar o espetador para o impacto daquela comunicação ventriloquista de Snowden, tão estranhamente inesperada mas ao mesmo tempo refrescantemente intrigante. Porque até agora só conhecemos o ruído por detrás das suas fortes alegações, não conhecemos a pessoa e as suas motivações. Stone pretende preencher esse vazio humano que o mundo desconhece, e fá-lo com recorrência às memórias mais tenras de Edward Snowden, num estilo de filmagem polarizante, que congrega uns laivos de “noir clássico” com técnicas convencionais.

“O roteirista Kieran Fitzgerald consegue implantar no argumento aqueles picos de tensão emocional instantâneos, sem que tenhamos de aguardar pacientemente pela escalada dos mesmos.”

Entre um quarto de hotel com uma porta imperturbável, aonde Snowden negoceia os termos jornalísticos da sua exposição e o seu ingresso na Agência Central de Inteligência, o enredo mantém-se suficientemente diversificado para subsistir unicamente dos diálogos individuais sem depender de cenas mais movimentadas. Mas não deixa de constituir uma certa revelação, como este perfil introvertido de Snowden – talvez derivado à “quirkiness” da sua persona -, acaba por suplantar em presença o restante elenco, com a noção clara de que, sozinho, provavelmente, acabaria por esgotar-se em si próprio. Contudo, ainda existe espaço para outros intervenientes não deixarem todos os louros representativos a Gordon-Levitt, se pensarmos na personalidade algo sadista do instrutor de Snowden na CIA, Corbin O’Brian (Rhys Ifans), que numa das cenas mais arrepiantes do filme, projeta o seu rosto sobre uma tela de ecrã gigante como se fosse engolir o “pequeno” Snowden por uma transgressão informática.

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Efetivamente, falar de “Snowden” poderia significar a abordagem de todo um oásis de códigos binários, equações matemáticas, linguagem Pascal que o “average user” não estaria habilitado a interpretar, mas Oliver Stone e Kieran Fitzgerald conseguem descomplicar as fórmulas brutas de mentes brilhantes como a de Snowden, reencaminhando a trama para um cenário romantizado, aonde os sentimentos têm o seu peso na persecução dos atos. Lindsay Mills (Shailene Woodley), a companheira liberalista que Snowden apanhou num desses sites de encontros online (geek-date.com) – o que não poderia soar mais a cliché, constitui a força motriz que descarrega algum calor e animosidade à pálida e fleumática postura de Snowden.

“Nada conseguirá preparar o espetador para o impacto daquela comunicação ventriloquista de Snowden, tão estranhamente inesperada mas ao mesmo tempo refrescantemente intrigante.”

Melissa Leo, que representa a laureada documentarista Laura Poitras (vencedora de um Óscar com o documentário sobre Snowden “Citizenfour“), exibe-se a um bom nível pese embora a escassez das suas intervenções, mas em conjugação com o fervor do seu colega – também na vida real – Glenn Greenwald (Zachary Quinto) e um terceiro correspondente do jornal britânico que chama o “british accent” de Ewen MacAskill (Tom Wilkinson) à colação, conferem dimensão dramática e dão a conhecer o importante trabalho de fundo destes senhores da redação, que arriscam as suas vidas e carreiras em nome da notícia honesta de interesse público.

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Snowden” é, seguramente, um dos filmes mais relevantes da nossa actual geração, não só por agitar as águas aonde habitam os grandes tubarões governamentais, mas pela elucidação e ativação da discussão quanto ao cariz e natureza das condutas morais de instituições como a NSA (Agência de Segurança Nacional Americana) que, supostamente, deveriam zelar pelos direitos dos cidadãos, ao invés de espiá-los compulsivamente como um videojogo perverso em que se tornou este hodierno estilo de “Guerra Cibernética”. Oliver Stone, o premiado realizador anti-sistema, tem o mérito de tocar na ferida que Snowden já havia aberto, oferecendo o “gloss” hollywodesco aos ficheiros já não tão secretos do ex-agente da CIA.

O MELHOR – A preparação meticulosa e interpretação “spot on” de Levitt é surpreendente. O enredo embrulha-nos num romance de espionagem que se foca nos factos, mas também no lado humano dos intervenientes. Valor didático da obra que não deixa de cumprir o requisito supremo do entretenimento com altos padrões de produção cinematográfica.

O PIOR – A personsagem de Snowden pode tornar-se monótona e saturante após algum tempo.


Título Original: Snowden
Realizador:  Oliver Stone
Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Shailene Woodley, Melissa Leo, Rhys Ifans
NOS | Drama | 2016 | 134 min

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MS

 

Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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One thought on “Snowden – Ninguém Está Seguro, em análise

  • Snowden: 2*

    É a desilusão cinematográfica de 2016, é enfadonho e é grande de mais…

    Cumprimentos, Frederico Daniel.

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