Spielbergs, This Is Not The End | em análise

Em This Is Not The End, os Spielbergs mostram que o entusiasmo não pede inovação. Para dar vida nova ao pós-hardcore basta uma alma intranquila de guitarra na mão. 

Este é um álbum que começou com o enunciado, trivial mas sempre sombrio, de que “vamos todos morrer”. Acabou apregoando na capa, de forma mais esperançosa, que “isto não é o fim”. Lemas destes abundam nos géneros e influências musicais em cuja órbita os Spielbergs se movem. Não pecam por falta de visceral honestidade, como é, aliás, de rigor nos ditos géneros. E estavam mesmo a pedir, claro está, um jogo de palavras. Nada disto é muito promissor, levantando a suspeita de que estamos diante de mais um daqueles inúmeros sósias descoloridos que nos fazem sair da página ao som do primeiro acorde.

SPIELBERGS, THIS IS NOT THE END | “4AM”

Mas aparências enganam e descrições sumárias distorcem. É verdade que os Spielbergs estão longe de inovar aquilo a que tão francamente aderem. Inegável a sensação de familiaridade ao ouvir as canções. Imediata a procura do lugar onde primeiro se ouviu aquele som, aquele trejeito musical. Só que a história não acaba aqui, como no caso de tantos infindáveis outros que tentam, sem sucesso, a sua sorte no campo do pop-punk, power-pop ou pós-hardcore. Aqui, a franqueza converte-se em irredutível carisma pessoal, familiar é apenas a sensação de repousar no que sumamente agrada e a procura pelo original não passa de vão exercício, com o dedo que detecta, premindo, a suposta influência a escorregar e a falhar continuamente o alvo.

Senão, veja-se o caso da “NFL” (sigla que significa “Not For Long”), onde a voz de Mads Baklien desenterra subitamente a de J Mascis, anunciada por uma nota de baixo batida violentamente, como só o Lou Barlow sabia fazer, e afundada na nuvem sonora difusa e distorcida dos Dinosaur Jr. A semelhança parece tão óbvia que nos admiramos de a comparação não surgir mais vezes e vamos a You’re Living All Over Me, com o intuito de tirar tudo a limpo, colocando o dedo sobre alguma daquelas canções. Mas não conseguimos que aterre, ao reparar que a voz de Mascis é bem mais indolente (geração X, certo?) e, a cortar a nuvem de distorção, estão os solos de guitarra virtuosa, com travo a rock clássico. Está lá o futuro, do shoegaze ao grunge, mas não os Spielbergs, pelo menos não no sentido que nos levou até ali. Podem tentar o exercício com os Replacements ou os mais recentes Japandroids, influências invocadas para contextualizar This Is Not The End. O resultado não será muito diferente.

SPIELBERGS, THIS IS NOT THE END | “NFL”

Não é longa a vida dos Spielbergs mesmo se já vai longa a vida dos seus membros e longas as suas andanças pela cena indie norueguesa. Tendo labutado durante anos em diversas bandas e chegado mesmo a cruzar-se ou a conviver no decurso desta carreira, o moderado sucesso alcançado não foi suficiente para justificar as dores que vêm com uma vida de saltimbanco falido. O desejo de uma vida normal trouxe de volta aos estudos o vocalista Mads Baklien e o baterista Christian Løvhaug. Baklien trabalha hoje em dia na biblioteca da Universidade de Oslo, é pai de dois, e vai-se pondo a par das modas musicais com a filha de seis anos, a ouvir Carly Rae Jepsen e a banda sonora de Frozen. Quanto ao baixista deste trio norueguês, Stian Brennskag, tem um emprego num infantário.

Nada disto encaixa bem nos mitos e estereótipos do rock e do punk, embora já fosse altura de começar a pôr seriamente em causa estas imagens boémias e adolescentes. Até porque é preciso atravessar certos problemas para merecer questionar, desabafar e gritar, ao som de cantos eufóricos exasperados, distorcidas guitarras ascendentes e secção rítmica propulsiva. A latejar no fundo desses problemas, o maior de todos, o de que nada chega. “Tínhamos andado em digressão e a dormir no chão, por toda a Europa fora, e estávamos fartos disso. Queríamos um emprego decente e uma família. Mas depois não estávamos felizes com isso também.” Baklien explica assim o que levou Løvhaug e ele a alugar um espaço onde ensaiar todas as sextas-feiras à noite, só para se divertirem, sem segundas intenções ou expectativas quanto ao futuro. Porque “sentia falta de todo o processo criativo”, diz o baterista. Isso e ter sido posto fora de casa pela namorada.

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Desta vez não se tratava de viver para a arte. Baklien confessou que estava sempre a tentar parecer muito hábil e inteligente na época dos Call Vega: “Era pós-hardcore screamo, por isso, tinha de ter malhas mesmo difíceis e ser tudo muito engenhoso.” Agora trata-se de fazer arte para viver, “criar boas canções” sobre a luta diária do trabalho e da família, onde se explodem, lamentam e assobiam dúvidas, dores, fadigas. Para, vendo de fora, exorcizadas as emoções e exteriorizados os excessos, perceber o real tamanho de tudo isso: “isto é estúpido”. Será idiota mas é uma urgência, é terapêutico e reafirma, no processo, a bondade do que se tem e se suplica que não desapareça. A inversão explica por que soa tão nova e verdadeira, e não vácua e desmerecida, a sinceridade que é regra num álbum de pop-punk e pós-hardcore.

SPIELBERGS, THIS IS NOT THE END | “FIVE ON IT”

This Is Not The End é melódico, cantável, com linhas de guitarra em perene ascensão ou queda insistente, num diálogo efervescente em que a banda desabafa, sem jamais desabar, as impaciências e agruras do quotidiano agónico, num idioma que flui organicamente entre o pop-punk e o pós-punk. Não significa que não haja momentos mais meditativos, introduzidos por canções pós-rock como “Familiar” e “McDonald’s”, dois pontos altos do álbum, onde os Spielbergs revelam pendor e talento para experimentar e matizar sentimentos, abrindo caminhos futuros interessantes. Na primeira, as melodias dos sintetizadores, sublinhadas por acentos de guitarra, trazem uma gravidade nostálgica que, por meio de repetição e imperceptíveis variações, evolve num crescendo introspetivo e pungente. A guitarra acústica e o tremolo em “Sleeper” adormecem o temor do abandono (“I beg you/ don’t ever/ tell me to go) e sustentam o canto que sussurra votos de protecção (“I am here, I’m watching you/ I’m here and I will see you through”), apesar de, ou precisamente porque se conhece a própria fragilidade (“I can’t believe that I left you alone”) e a vacuidade do que se é: “I’m one to pretend/ and maybe that’s all that I am”.

SPIELBERGS, THIS IS NOT THE END | “SLEEPER”

Se por originalidade se entender, não a inovação de uma prática ou género, mas a capacidade de adquirir um certo idioleto até este se tornar uma segunda natureza e a habilidade de o vergar à expressão de uma vida autêntica, uma vida de aspirações elevadas, mesmo quando mescladas de terra e pó, então os Spielbergs são uma das bandas mais originais que despontaram recentemente. As canções, única coisa que lhes interessa, são atractivas logo de imediato mas estão também cheias de momentos que pedem uma audição repetida. Pontes e codas por que começamos a esperar e a que nos vamos afeiçoando. Isto enquanto gritamos “what do you want” ou “baby, go away”, também nós às vezes necessitados de assobiar para o lado, também nós fechados no medo de morrer e deixar desamparados os que amamos: “Every night you say/ you want me to survive/ what if I die?” Só para embarcar em momentos de doçura dolorosa onde contemplamos a hipótese de uma familiaridade que decaia no hábito (“being familiar/ that’s not good enough for me”) ou um passar do tempo que não traga um crescimento real: “I wish I was home/ but there’s nothing going on with me”. É verdade que acabamos a cantar “I stand alone forevermore”, mas também é verdade que isso não passa de estupidez e isto não é, afinal, o fim.

SPIELBERGS, THIS IS NOT THE END | “FAMILIAR”

Spielbergs, This Is Not The End | em análise
Spielbergs - This Is Not The End - Cover

Name: This Is Not The End

Author: Spielbergs

Genre: Indie rock, pop-punk, power-pop, pós-hardcore, pós-rock

Date published: 2019-02-01

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  • Maria Pacheco de Amorim - 83
83

Um resumo

Há, em This Is Not The End, uma liberdade e um à vontade que arrastam irresistivelmente o ouvinte, uma entusiasmante atmosfera de divertimento, de real envolvimento de cada membro do trio com todo o projecto. Mesmo se exteriorizar dúvidas e expulsar demónios é parte integrante do processo criativo. Não faltam canções hínicas, cheias de espera e explosão, nem momentos mais melancólicos e espraiados, que esboroam a nitidez contundente das fronteiras pop e tornam o quadro final mais complexo. A variedade de géneros e influências resulta aqui num documento coeso, a assinalar a existência de uma personalidade onde tudo estranhamente se sintetiza, mas com as bordas difusas e indefinidas, que pedem audição repetida e prometem direcções futuras interessantes.

Canções incontornáveis: "Five On It", "We Are All Going To Die", "Familiar", "You All Look Like Giants"

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Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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