Mês em Música | Playlist de Janeiro 2019

Ano novo e uma presença paira já poderosa. Sharon Van Etten marcou o arranque de 2019, e por isso também a nossa Playlist de Janeiro. Mas há mais, muito mais.

Estava tudo só à espera que 2019 chegasse. Que terminasse a pasmaceira de dezembro, agitada apenas pela revisão do ano feita pelas várias publicações e a esporádica subida à superfície de alguma vida subterrânea. Veio janeiro e, passada uma semana de resquícios de pasmaceira e expectante quietude, começaram a borbotar, todos os dias e por todo o lado, os anúncios de lançamento de novos álbuns, ilustrados pelos respectivos singles.

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A esta enxurrada juntou-se a cascata de álbuns com data marcada neste mês para chegar às lojas e aos serviços de streaming, cuja promoção animara o último trimestre de 2018. Como se não bastasse, ainda surgiram, caídos do céu, com anúncio de última hora ou sem anúncio sequer, álbuns surpresa de artistas bem estabelecidos na praça internacional. Por várias vezes perdemos o fôlego e desistimos de estabelecer limites à Playlist de Janeiro, tamanha a criatividade e a promessa de um grande ano musical, que aqui inauguramos.

Playlist de Janeiro | Os singles

Não há dúvidas sobre qual o grande single de janeiro. “Seventeen”, de SHARON VAN ETTEN, tem acompanhado as nossas andanças pela cidade, ao crepúsculo. Lembrando-nos o gosto de ter uma voz para cantar e qualquer coisa sobre o qual cantar. Mostrando-nos que a liberdade vem com o crescimento, com o possuir-se que vem da dádiva de si. Sobre ele dissemos, na nossa análise de Remind Me Tomorrow: “Do novo ponto de vista que ocupa, da confiança conquistada, do alto das escadas, Sharon Van Etten fita a rapariguinha que desapareceu mas habita ainda como memória e identidade em si e como promessa e ameaça no bebé que contempla no berço. Olha para aquela liberdade que vem da falta de rumo e ausência de obrigações e pensa se não passará de sonho, ilusão: ‘Think you’re so carefree/ But you’re just seventeen’. Vencendo os resquícios de charme que a ideia e lembranças de vagabundagem juvenil possam continuar a ter, a versão presente da mulher corta a direito, descobre o quão “uncomfortably alone” se encontra, no fundo, a sua versão passada e, enchendo-se de compaixão, diz-lhe: ‘I wish I could show you how much you’ve grown’.”

PLAYLIST DE JANEIRO | “SEVENTEEN”

Sharon Van Etten não é a única veterana a abrilhantar a nossa Playlist de Janeiro. De regresso está também a banda de emo e pós-hardcore LA DISPUTE, passados quatro anos desde o seu último longa-duração, Rooms Of The House (2014). Em setembro de 2018, anunciaram que tinham assinado contrato com a Epitaph e, no início de dezembro, partilharam o primeiro single do seu quarto álbum, Panorama, que sairá a 22 de março deste ano. Ao par mais tenso e ambiental “ROSE QUARTZ”/ “FULTON STREET 1” seguiu-se agora em janeiro um segundo single, “FOOTSTEPS AT THE POND”, mais reminiscente da sonoridade turbulenta da banda. Jordan Dreyer remói, com a mordente intensidade do seu recitativo, a insatisfação numa relação passada, que o vídeo onírico da desenhadora de jogos londrina Daisy Fernandez traduz como a tortuosa andança de Teseu no labirinto do Minotauro. Disse o vocalista ao The Fader que “esta canção é sobre confrontar as falhas, desiludir as melhores pessoas, quase se afogar se não fosse por elas”. E, de facto, a mesma termina com o pedido de “Come and shake me from my sleep/ Come and help me believe”.

PLAYLIST DE JANEIRO | “FOOTSTEPS AT THE POND”

Mas da nossa Playlist de Janeiro não constam apenas veteranos. Ouvindo “This House Has No Living Room” é difícil imaginar a ferocidade dos YAK, tanto na generalidade das suas canções quanto dos seus espetáculos ao vivo. Este é o quarto single de Pursuit of Momentary Happiness, o segundo álbum do trio britânico, que será lançado já no dia 8 de fevereiro, por meio da discográfica de Jack White, a Third Man Records. Mas o mesmo desejo de transcender os limites que anima os anteriores singles, aí se realizando como fúria psicadélica e cantado grito de guerra, reemerge agora na duração épica do crooning de Oli Burslem, cujo canto emprestado da música doo-wop e soul das décadas de 50 e 60 volteja, longínquo e obsessivo, em torno da memória de uma casa e dos entes amados que um dia se reencontrarão. Tudo sobre uma agitada linha melódica de órgão Hammond com caixa Leslie, e alguma percussão mecanizada que desemboca numa sinfonia de metais e amostras sonoras de canto de pássaros. Para esta canção, os Yak contaram com a colaboração de Jason Pierce (Spaceman 3 e Spiritualized), a tocar guitarra slide e cantar no final, bem como a de John Coxon (Spiritualized e Spring Heel Jack), por detrás do piano e da harmónica.

Yak - Pursuit of Momentary Happiness - Playlist de Janeiro 2019
Oli Burslem, Elliot Rawson e Vinny Davies dos Yak

Pursuit of Momentary Happiness segue-se ao álbum de estreia, Alas Salvation (1916), e a ideia era ser gravado no estúdio de Kevin Parker, dos Tame Impala, na Austrália. O plano saiu gorado, o baixista original da banda, Andy Jones, deixou os Yak por uma vida melhor neste país e Oli Burslem regressou a Inglaterra, com uma passagem conseguida por meio de um amigo que trabalhava numa companhia aérea, sem dinheiro, sem álbum e sem casa para viver, apenas uma carrinha onde dormir (DIY). John Coxon apresentou-o a Jason Pierce, que encorajou Burslem e o baterista dos Yak, Elliot Rawson, a continuarem. Não tardou que aparecesse um novo baixista, Vinny Davies, e os três gravassem, em apenas dez dias, o álbum no estúdio londrino RAK, com a produtora Marta Salogni (Björk, Django Django). Das 29 canções gravadas, 11 acabaram em Pursuit of Momentary Happiness, cujos retoques finais foram dados com a ajuda de Pierce no seu estúdio doméstico. Num comunicado de imprensa, Burslem comentou deste modo a gravação do novo álbum:

Não quero que isto seja uma história de fazer chorar as pedras da calçada. Foi divertido fazê-lo. É bom levar-se a si próprio ao limite e agora posso dizer que não me interesso minimamente pelo que as pessoas pensam, porque é um documento daquela época, é honesto e aberto, e eu não teria conseguido fazer nem dar mais do que fiz e dei.

Meg Duffy - Hand Habits - Playlist de Janeiro 2019
Meg Duffy, de Hand Habits

Entre as várias promessas que pontuam esta Playlist de Janeiro está a jovem cantautora de Los Angeles, Meg Duffy, que compõe sob o nome de HAND HABITS. Tendo passado alguns anos a tocar em bandas de suporte de gente como Kevin Morby e Weyes Blood, Meg Duffy lançou-se, em 2017, para o seu primeiro esforço pessoal. O seu álbum de estreia como Hand Habits, Wildly Idle (Humble Before The Void), foi praticamente todo gravado em Upstate New York, de cuja zona é originária, e terminado já na cidade onde reside actualmente, Los Angeles. Agora, só neste mês de janeiro, lançou o primeiro e segundo singles do seu novo álbum, placeholder, que sairá dia 1 de Março pela Saddle Creeks Records. Não foi de todo fácil escolher qual dos dois deveria constar da nossa Playlist de Janeiro e ocorreu-nos mesmo fazer batota – um no artigo, outro na lista – mas optámos por dar a primazia ao single titular, “placeholder”, que acompanhou o anúncio de lançamento do álbum, mesmo se “can’t calm down” é uma pérola que custa deixar à mercê da iniciativa do leitor (vão ouvir, a sério). Sobre as várias canções que figuram em placeholder, Meg Duffy disse o seguinte:

Um importante aspecto da minha composição e do modo como me movo no mundo depende das minhas relações com as pessoas. As canções em placeholder são sobre responsabilidade e perdão. Estas histórias são todas reais. Não ficcionalizo muito.

Tanto “placeholder” como “can’t calm down” são mais ambiciosos e intrincados do que qualquer composição presente no primeiro álbum de Hand Habits, mas também, ao mesmo tempo, mais focados, menos meândricos e errantes. Em “placeholder”, num jogo de linguagem com o termo que intitula o tema, Duffy canta-nos a história do lugar que cada um é numa relação, o lugar de onde se parte e ao qual se regressa, o lugar a que cada um se agarra, o lugar que cada um ocupa, deixando-o vazio: “I was just a placeholder/ A place and nothing more/ I was just a placeholder with nothing to stand for”. O vídeo foi realizado pela cantautora Madeline Kenney, que imagina este lugar como um barco prestes, mas sem nunca chegar realmente a partir.

PLAYLIST DE JANEIRO | “PLACEHOLDER”

Este é o mês das apresentações. Nada mais apropriado que uma Playlist de Janeiro nos encha de expectativas para o ano a desabrochar. Bem vindos à última delas: SPIELBERGS. Este artigo mal terá sido publicado e já poderão ir a correr ouvir o álbum de estreia, This Is Not The End, que sai no dia 1 de fevereiro, por meio da By The Time It Gets Dark. Os vários membros deste trio norueguês não são novatos na música, mesmo se os Spielbergs formaram-se apenas recentemente, em 2016. Tendo antes tocado, durante a juventude e por algum tempo ainda, em vários projectos mais ou menos bem sucedidos, resolveram deixar a actividade para voltar à Universidade, constituir família (ou pelo menos tentá-lo) e experimentar uma vida estruturada, “normal”. Assim, o vocalista Mads Baklien tem já duas filhas e trabalha na biblioteca da Universidade de Oslo, enquanto o baixista Stian Brennskag tem um emprego num infantário. Porque, como disse o baterista Christian Løvhaug, numa entrevista à Stereogum, “a vida não é só sobre nós e a porcaria das nossas próprias necessidades”.

Mesmo se foi por uma destas necessidades, do género das que surgem quando se recebe uma ordem de despejo da namorada, que os trintões, saudosos do processo criativo, se juntaram para tocar música juntos, sem expectativas ou compromissos, todas as sextas-feiras à noite, num espaço de ensaio alugado para o efeito. Mas dessas sessões mais ou menos espontâneas acabaram por sair a declaração de intenções que é o single “We Are All Going To Die”, uma canção listada por uma publicação norueguesa nacional como a 27ª melhor do ano, o nome da banda, inspirado pelo filme Close Encounters of the Third Kind, e um EP que, se incluíra mais três ou quatro canções, teria sido um dos grandes álbuns de estreia de 2018.

Spielbergs - Five On It - Playlist de Janeiro
Spielbergs

Quando se deixaram de levar demasiadamente a sério como compositores, quando a arte deixou de ser uma questão de criar arte para passar a ser tanto um divertimento quanto uma forma de exteriorizar, e assim reduzir à insignificância, o detrito da vida quotidiana, as coisas começaram, pela primeira vez, a acontecer na vida destes rapazes e das suas guitarras. Também nós mal conseguimos esperar por ouvir This Is Not The End, o álbum de estreia que, a julgar pelos três singles já divulgados – “4AM”, “Five On It” e “Sleeper” -, estamos a anunciar na Playlist de Janeiro só para incluir entre os melhores do ano, em dezembro, numa história que apenas principiou e para a qual tão cedo não vemos um fim.

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Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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