Star Wars: Os Ultimos Jedi

Star Wars: Os Últimos Jedi | O guarda-roupa da General Leia

Na sua última aparição nos filmes do universo Star Wars, Carrie Fisher voltou a interpretar a General Leia Organa, cujo guarda-roupa é tão majestoso quanto a sua personalidade.

 

[ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS!]

 

A reação crítica e popular ao mais recente filme da saga Star Wars tem sido uma das maiores surpresas do ano. Os fãs do universo fantasioso, originalmente edificado por George Lucas nos anos 70, têm-se vindo a mostrar extremamente divididos em relação aos méritos e desgraças de “Os Últimos Jedi”. Por outro lado, os críticos, muitas vezes atacados pela sua intransigência analítica para com grandes blockbusters, mostraram-se encantados pela subversão de expetativas do filme.

De facto, o realizador Rian Johnson parece estar quase que a cuspir nas expetativas dos fãs da saga, filmando os seus ícones como mitos vivos ao mesmo tempo que os mostra na sua pequenez e hipocrisia. Afinal, este é o filme em que Luke Skywalker, ao receber o seu icónico sabre de luz, o atira para trás das costas como se fosse um pedaço de lixo inconveniente. Essa mesma arma quase mítica é mais tarde destruída e deixada para trás em pedaços fumegantes.

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Esse é somente um exemplo bastante óbvio entre muitos. Apesar de nem sempre ter levado as suas ideias de subversão aos limites mais radicais imagináveis, Johnson demonstrou ser um cineasta bastante destemido e ambicioso. Quem sabe se, depois da reação dos fãs, a Disney continuará a avançar com a ideia de uma trilogia concebida unicamente por Johnson? Especialmente se considerarmos quão Johnson posiciona “Os Últimos Jedi” como uma espécie de crítica direta a “O Despertar da Força” e toda a sua nostalgia repetitiva.

Snoke, longe de ser um inimigo grandioso a ser derrotado no clímax do terceiro filme, é traído por Kylo Ren e morre antes sequer do terceiro ato deste episódio. Os pais de Rey, longe de serem personagens com ligações ao resto da mitologia Star Wars, eram pessoas comuns que a venderam em criança. O legado dos cavaleiros Jedi, longe de ser algo glorioso a ser continuado por Rey, parece ser o cadáver de uma ordem que talvez mereça ser efetivamente aniquilada da galáxia.

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Tal reação não se estendeu somente à narrativa, tendo-se também manifestado em toda a concretização visual do novo filme. Como seria de esperar, isso também inclui os figurinos, com destaque para o guarda-roupa da General Leia Organa. Aquando da estreia de “O Despertar da Força”, J.J. Abrams foi muito elogiado pela sua reconfiguração da figura de Leia, deixando para trás o título de princesa em nome da celebração da sua liderança da Resistência. Com essa mudança de título hierárquico veio também uma mudança de visual.

Leia, tão conhecida pelos seus penteados espampanantes e pelo biquíni metálico que foi forçada a vestir quando foi capturada por Jabba, agora vestia aquilo que, segundo a própria Carrie Fisher, parecia o uniforme de uma trabalhadora de bomba de gasolina. Para Abrams, dar poder a Leia e distanciá-la do sexismo sacarino da sua denominação de princesa na trilogia original, era sinónimo de lhe dar um estilo modesto, quase masculino.

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Isto é um grande cliché no panorama dos figurinos de cinema de género. Em filmes de ficção-científica e fantasia, não há melhor maneira de delinear quão uma figura feminina é forte e merecedora de respeito, do que uma rejeição de adornos e estilos intrinsecamente femininos. Ripley, Éowyn, Katniss, Sarah Connor e até Rey são apenas alguns exemplos desta convenção, que, verdade seja dita, é sempre preferível à hipersexualização que é tantas vezes vista como alternativa.

Em “Star Wars: Os Últimos Jedi”, no entanto, Johnson pediu diretamente ao figurinista Michael Kaplan para evitar esta dinâmica. Por outras palavras, ele queria que as líderes da Resistência fossem glamourosas e femininas, não como sinal de superficialidade ou fraqueza, mas como indicador de poder e magnificência pessoal. Apesar de ser algo relativamente subtil, Johnson está aqui a usar roupas como modo de subversão, não só em relação ao género de ficção-científica em geral, mas especificamente em relação ao que Abrams havia feito em “O Despertar da Força”.

Na sua última aparição em filmes da saga Star Wars, Carrie Fisher não enverga nem um traje tão pouco prático e absurdo como o seu vestido branco no filme original de 1977, nem uma vestimenta forçosamente sensual como o biquíni metálico de “O Regresso do Jedi” ou algo tão desenxabido como o fato de trabalhadora de bomba de gasolina de “O Despertar da Força”. Pelo contrário, ela enverga uma série de majestosos mantos que lhe conferem uma silhueta imperiosa, assinalando-a como uma figura de poder na estrutura de autoridade da Resistência.

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Primeiro, ela é vista num figurino cinzento que é complementado por joalharia azul e doirada. Não há nada de masculino neste visual, mas é impossível negar quão impressionante Leia é. Até os materiais do figurino reforçam uma ideia de beleza enquanto significante de poder e valor. A capa, cujo design foi estranhamente baseado em alguns retratos da Rainha Isabel I de Inglaterra, é feita de um pesado tecido com fibras metálicas a traçarem reflexos brilhantes na trama cinzenta.

Quando a general é sugada para o vazio gélido do espaço e, num dos momentos mais polémicos do novo filme, usa a Força para “voar” de volta para a nave bombardeada, as largas mangas desenhadas por Kaplan flutuam como se Fisher se tivesse transmutado num anjo celestial. Para quem ainda não se convenceu que agora vivemos num mundo sem o humor acético da atriz, tal imagem é como que um murro no estômago, por muito ridícula que possa inicialmente parecer.

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Mais tarde, Leia passa grande parte do filme numa túnica e barrete branco, um traje de paciente na enfermaria da Resistência, mas, para o ato final da narrativa, ela enverga aquele que é talvez o seu mais impressionante figurino de sempre. Referimo-nos a um majestoso manto acastanhado com mangas largas e uma gola assimétrica. O design da peça é quase arquitetónico na sua manipulação de volumes, mas é a sua justaposição com a vulnerabilidade e resiliência de Leia que torna este figurino em algo verdadeiramente formidável.

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Até ao último momento em cena, Leia Organa continuou a ser a personagem mais bem vestida do universo Star Wars. Viva Leia Organa! Viva Carrie Fisher!

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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