20º Queer Lisboa | Taekwondo, em análise

Em Taekwondo, um grupo de jovens argentinos passa o Verão numa casa de férias, onde tensões sexuais e desejos silenciosos enchem a atmosfera como o calor do sol que cobre os seus corpos com suor e o bronze próprios da estação. Aliás, um bom título alternativo para este filme seria UST (Unresolveed Sexual Tension): The Movie.

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O que é que faz de um filme um thriller? Para muitos, uma obra de cinema pode ser categorizada neste género se se estruturar e construir em volta de uma ideia e atmosfera de suspense e crescente tensão. Certamente esta é um definição mais mecânica que temática, mas, se a aceitarmos, então é bem possível caracterizar Taekwondo, a nova longa-metragem de Marco Berger e Martín Farina, como um thriller, só que um thriller em que ao invés de crimes temos uma sufocante tensão sexual que se vai torcendo e retorcendo até que a audiência apenas deseja uma resolução para toda a espera e reticência, mesmo que tenham ansiedade e insegurança no que diz respeito ao caráter dessa resolução, se vai ser negativo ou positivo para as personagens. Ou seja, suspense como num filme de Hitchcock, onde, ao invés de uma bomba temos uma pergunta e o desejo de um homem pelo seu amigo.

Já estabelecemos que Taekwondo é um thriller com rasgos de romance e comédia, mas de que trata esta narrativa afinal? O cenário principal para esta longa-metragem é uma casa de Verão nos arredores de Buenos Aires, onde, durante o cálido Verão, um grupo de amigos passa o seu tempo a relaxar, fumar umas ganzas e a apreciar a companhia uns dos outros. Só há homens aqui, e, ao que parece são todos hétero, atléticos e bastante confortáveis com os seus corpos, sendo que se passeiam pela casa e seus terrenos em constante estado de nudez ou seminudez. Não há problema em serem vistos por alguém não convidado, visto que a propriedade é envolta por muros, como um oásis de privilégio e serenidade no meio da Argentina, onde, com o mundo exterior em completa abstração distante, os seus residentes se podem focar somente nas suas próprias pesquisas epicúrias.

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No entanto, este éden é perturbado pela chegada de duas entidades, uma é a câmara e a outra é Gérman, um amigo de Fer, o dono da casa que o conheceu através das aulas de Taekwondo. Sem ninguém saber, Gérman é gay e sente-se atraído por Fer, que, apesar de uma série de momentos carregados de possível erotismo, nunca faz nenhum avanço declarado. No meio do ambiente híper-masculino, onde é habitual fazerem-se piadas sobre homossexuais e chamar paneleiros uns aos outros em brincadeira, Gérman esconde a sua sexualidade dos outros homens, mas os seus olhos viajam pela paisagem humana e, quando ele não está presente, a câmara faz essa viagem erótica por ele.

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Ao longo de Taekwondo, a fotografia de Martín Farina captura os corpos atléticos dos vários homens com uma atenção sublime ao seu potencial erótico, sem nunca despir as imagens da casualidade implícita no comportamento. A maior parte das vezes, em parte graças ao uso de mínima profundidade focal, parece que os planos do corpo masculino são um olhar humano, focado em alguns detalhes de um modo que os erotiza e descontextualiza, ao mesmo tempo que não os remove da realidade física do seu cenário. Na verdade, é difícil encontrar um plano em todo este filme que não inclua ou nudez ou alguém a apreciar silenciosamente o físico de outro individuo, quer seja como mostra de admiração amigável ou desejo sexual.

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Como Claire Denis fez outrora em filmes como o formidável Beau Travail, também este duo de realizadores argentinos encontram, de forma sofisticada, o homoerotismo inerente a noções hiperbólicas de masculinidade heterossexual, fazendo de situações, como um jogo de futebol ou as brincadeiras de balneário, um espetáculo de erotismo. Aliás, é precisamente nesse erotismo subjacente a uma mini-comunidade, onde o romance homossexual ainda existe nas sombras e com medo das consequências da sua revelação, que o filme ganha uma dimensão divertidamente irónica, mostrando que também há comédia neste espetáculo, quando consideramos a mistura de desconforto, vergonha e excitação no olhar de Gérman.

Aliás, Taekwondo é um filme cheio de comédia, sendo que o filme recorda o trabalho do americano Richard Linklater que, tal como Berger e Farina, também é um mestre na captura e registo de grupos de amigos a falaram descontraidamente. Apesar de esta ser uma obra povoada maioritariamente pelo tipo de homem a que chamaríamos douchebag, os cineastas nunca tentam vilificá-los, mas sim neles encontrar humanidade e empatia, ao estilo do que Linklater recentemente fez com semelhantes dinâmicas masculinas em Todos Querem o Mesmo. E, tal como nesse filme, os seus esforços são imensamente facilitados pelo trabalho consistentemente primoroso de um elenco que nunca chama atenção para o brio do seu trabalho. Ao ver este grupo de amigos fictícios, acreditamos piamente na sua relação e nos anos que já partilharam na companhia uns dos outros.

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É claro que, por muito brilhantes que sejam os outros membros do elenco, os papéis mais difíceis e que colocam mais responsabilidade nos ombros dos atores são Gérman e Fer. No papel do “outsider”, Gabriel Epstein depende tanto da sua capacidade para telegrafar desejos silenciosos com o seu olhar e postura como da sua beleza física. Não menos belo, mas mais misterioso é Lucas Papa como Fer, o outro elemento neste possível par romântico. Ao contrário de Gérman, cujas ações e pensamentos são sempre claros para a audiência, Fer é sempre um pouco distante do nosso escrutínio, sendo que o ator tem o difícil trabalho de sugerir uma corda bamba, entre a devoção de amigo quase fraternal e o real interesse sexual de um potencial amante. Até ao final, ele deixa a audiência equilibrada nesta precária situação, ao mesmo tempo que consegue não transformar a sua personagem numa simples cifra ou um objeto de desejo sem personalidade.

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Devido às já mencionadas escolhas fotográficas, à reticência na narrativa, repetição estrutural e a intencional opacidade na prestação de Papa, Taekwondo vai-se desdobrando numa série de tableaux em que a tensão vai aumentando e, por consequência a frustração da audiência. Para muitos espetadores, a espera prolongada por uma resolução poderá ser uma pequena tortura de tédio, mas, para outros, a espera apenas torna a libertação de energia final muito mais intensa. Perdoem-nos os spoilers mas, quando finalmente um dos dois homens faz uma pergunta crucial ao outro, as audiências mais generosas quase têm vontade de aplaudir e, como aconteceu em pelo menos uma das sessões do Queer, é isso mesmo que acaba por acontecer. Elegantemente filmado com sofisticação e primor mecânico de um thriller, Taekwondo é uma obra pequena e despida de quaisquer pretensiosismos de ser algo importante ou inovador, mas, na sua simplicidade, encontra-se beleza e descontraída alegria mesmo apropriada ao ambiente estival representado na sua narrativa.

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O MELHOR: A resolução final e o júbilo que despoleta na audiência.

O PIOR: A qualidade hermética deste grupo e o tratamento de mulheres dentro do filme apenas como mães, empregadas ou potenciais parceiras sexuais. No entanto, há que perceber como Taekwondo é tão fixo na perspetiva dos homens que isto é entendível. O que não é tão desculpável é o modo como os cineastas nunca questionam ou examinam de modo crítico as ações e perspetivas das suas personagens.


 

Título Original: Taekwondo
Realizador:  Marco Berger, Martín Farina
Elenco:
Gabriel Epstein, Lucas Papa, Nicolás Barsoff, Francisco Bertín
Queer Lisboa | Comédia, Drama, Romance | 2016 | 105 min

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