The National e Queens of the Stone Age nos NOS Alive

The National & Queens of the Stone Age | Carta de um novo e velho fã

Dias depois e não esmorece a memória dos The National e Queens of the Stone Age nos NOS Alive. É a crónica de uma noite indelével, por um fã conquistado e reconquistado.

Ainda não passou um ano, desde Outubro de 2017, e os National voltam a Portugal, mas para mim era a primeira vez que os via ao vivo. Devo confessar que, apesar da aclamação crítica de que gozam, nunca os ouvi tanto que me chegasse a afeiçoar. Tive, aliás, de recorrer a uma intensa sessão de auscultadores, para me pôr a par de Sleep Well Beast, enquanto esperava que o concerto começasse.

Mathew Berninger, sempre de fato e camisa, entra à frente. Mãos no microfone, olhos fechados, todo entregue ao que diz, para nos convencer de que “I cannot explain this in any other way”, o vocalista enamora-se do pequeno instrumento, contando-lhe uma história como se mais ninguém lá estivesse. O ritmo inconfundível de “The System Only Dreams In Total Darkness” ecoa pelo campo fora. O magnífico (vá lá, toda a gente sabe isso) baterista Bryan Devendorf pedala-o directamente no nosso peito, que vibra a cada batida.

The National no NOS Alive 2018 (© Arlindo Camacho)

Em “The day I die”, Berninger abandona o microfone e vai ter com o público, deixando-se abraçar, engolido pela multidão. Percorre o palco à procura de algo nos olhos dos espectadores. Conta a história agora para a câmara telecomandada, que o segue e pára ao seu sinal. “I fell in love with a robot tonight”, confessa o vocalista, sendo presenteado com boas gargalhadas. A câmara aproxima-se, pronta para mais uma volta. “No…. not now!” Rejeita-a virando a cara de modo teatral. Bebe do copo e atira-o ao público ainda cheio.

O público procura nos ecrãs o vocalista que desapareceu dentro da multidão. Foi buscar uma cerveja à banca da Sagres, sempre a cantar, apenas para a atirar ao ar e dar a algum infeliz – ou sortudo – um banho de cerveja. Também ele recebe banhos de cerveja. Nesta fase já o vocalista ganhou a confiança e amizade do público, a minha antes de tudo.

The National & Queens of the Stone Age no NOS Alive 2018
The National no NOS Alive 2018 (© Arlindo Camacho)

Matt Berninger faz uma pausa para transmitir uma mensagem ao público, terminando-a com o lembrete de que “Queens are next”, despertando a euforia da audiência. Mas bem maior foi a euforia quando se ouviram na guitarra os primeiros acordes de ‘About Today’. “Hey. Are you awake?” Estamos sim, acorda-nos a letra da canção. O silêncio instalou-se como nunca antes nessa noite. Apenas a voz de Berninger ecoava: “I am here, but can I ask you about today?”

Envia outros dois copos cheios a voar, apenas para serem engolidos pelo mar de gente à sua frente. Os mais devotos fãs fecham os olhos e abrem os braços em direcção ao céu, na esperança de serem atingidos pelo misterioso líquido. “This is so inspiring”, despedindo-se assim, “thank you.” Deixa cair o microfone, mas não sem levar consigo um novo fã, decidido a saber de cor todas as canções da próxima vez que vierem cá. Dessa vez não haverá trabalho de casa para fazer à última hora, até porque não será trabalho o que se converteu em afeição.

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Avancei pela multidão adentro, ombros e ombros a ficar para trás, até arranjar um lugar memorável para os Queens of the Stone Age, a cinco metros da grade que impedia o público de invadir o palco, mesmo de frente para este. Os técnicos de som preparam as guitarras. Já aí a multidão levanta ansiosa a cabeça, impaciente, com cada segundo a parecer um minuto, porque soam prenúncios daquela sonoridade que é a impressão digital da banda. De facto, no final do concerto, surpreendi-me quando me pediram que identificasse o género de rock em que a banda se insere e não consegui responder. Nas fronteiras do hard ou stoner rock, metal alternativo, punk hardcore, estão sempre mais fora do que dentro. São os Queens of the Stone Age, ninguém soa como eles.

O palco cobre-se de nevoeiro. Do seu interior emergem cinco silhuetas. Por todo o lado, brota o entusiasmo quando finalmente começa “Feet Don’t Fail Me”. E nenhum me falhou, enquanto saltava ao ritmo da música, assim como todos os que me rodeavam. Se os National nos convidam a mergulhar num oceano imenso, os Queens of the Stone Age acendem uma incontrolável chama interior. Fizeram o chão tremer e os ouvidos estalar. “Obrigado. Let’s dance!” e entram agora a matar, em estilo e cabedal negro.

O inferno instala-se, evidência de que a chama não era apenas fruto da minha imaginação. O calor era tal que à minha volta era mais comum encontrar t-shirts na mão do que vestidas. Os empurrões recomeçam, inevitavelmente, de cada vez que o som aumenta de maneira abrupta. No entanto, não nos olhámos com irritação, mas com sorrisos e berros de excitação. Sou empurrado para longe daqueles com quem viera, mas não importa quando o estranho do lado canta as mesmas palavras e entoa a mesma melodia que eu. Somos um só, enquanto partilhamos suor, eventuais cotoveladas, mas, mais importante, amor pelos Queens of the Stone Age. “Close, come close!” Ao som de ‘The Evil Has Landed’, cantamos em uníssono com o vocalista, estendendo-lhe, tensos e estirados, os nossos braços, tentando aproximarmo-nos dele o mais possível.

The National & Queens of the Stone Age no NOS Alive 2018
Queens of the Stone Age no NOS Alive 2018 (© Arlindo Camacho)

“Are you with me? Are you with us?” insiste Homme, apelando ao público que aumente o alarido. A atitude de Joshua Homme brilha mais que qualquer feixe de luz, sempre com um sorriso irónico e misterioso. O público entra em erupção, mas mantém a postura, balançando o corpo e, ao cantar, a cabeça. Um cigarro entre os dedos e um copo de água para limpar a garganta. Era o maestro. Deixa cair a mão e cessa o fogo. Ergue lentamente os braços e a euforia dispara com todos os canhões que tem, vindo tanto do público à sua frente como da banda atrás de si. Foi raro o momento em que a câmara se desviou desta personagem, claramente protagonista do espetáculo.

Apela às senhoras que cantem “i wanna make it wit chu”. Mas, pouco convencida pelo timbre e volume feminino, a facção masculina do público ajuda. Quando todos gritam do fundo das entranhas “I wanna make it wit chu!” Homme responde, agora satisfeito, “We wanna make it wit chu too”, levando o público à loucura. Sempre educado, Homme agradece: “Obrigado, Motherfuckers”. A capacidade de criar temas e momentos tão carregados de sensualidade quanto capazes de sondar o temível e misterioso é a marca-de-água desta banda.

The National & Queens of the Stone Age no NOS Alive 2018
Queens of the Stone Age no NOS Alive 2018 (© Arlindo Camacho)

 “A song for the ladies”, “Little Sister”, e todos saltam e se empurram, reconhecendo-a logo. Meticulosamente escolhidas, apenas quatro canções foram tocadas do sétimo e mais recente álbum Villains, lançado a Agosto do ano passado. Ao meu lado, vivendo o concerto como uma sessão de nostalgia, alguém se congratulou dizendo que era tudo músicas antigas. Para mim, foi é tudo uma questão de equilíbrio. A banda realçou o que de melhor trouxe o novo LP, integrando-o no contexto de uma longa história e de uma identidade inconfundível, manifesta já em canções como “Little Sister”. Esta minha meditação é interrompida por dois homens que, vindos do nada, flutuam no ar, deixando-se conduzir pelas mãos da multidão, ao som da “Go With The Flow”. A euforia e excitação são constantes em todas as canções.

Homme levanta o indicador e o mindinho na direcção do público, de onde muitos lhe respondem da mesma maneira. Aponta o microfone na nossa direcção para nos ouvir gritar impetuosamente. No êxtase final da última canção, “Song For The Dead”, o protagonista atira o pé e o microfone ao chão quando não precisa mais deles. Fracassa na tentativa de deitar um holofote do palco abaixo. Não se deixando, apesar disso, vencer pelo resistente equipamento, volta a rasgar as cordas da guitarra, produzindo um ruído igualmente abalador. Uma baqueta passa a voar a poucos metros de mim, o palco está a explodir objectos, luz, som!

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O som e a luz são cortados. Deixam o palco de pernas para o ar. Fumega ainda, depois do ardente êxtase se desvanecer em cinzas. Não há sinal da banda, desapareceu, consumida pela emoção do momento, de um puro prazer que me cumpriu a noite e fez ansiar por mais.

No fim, fora conquistado pela atmosfera vibrante dos The National e vira confirmado o rock intenso e ardente dos Queens of the Stone Age. Estas duas bandas tinham-me oferecido, de maneiras tão opostas, emoções variegadas, cheias de indefiníveis matizes, durante umas breves, mas inesquecíveis, horas de vida. Mais tarde reparei, ao abrir a galeria de fotografias, que não precisei de encher a memória do telemóvel com vídeos que nunca mais iria ver. A satisfação surpreendeu-me então. Até porque…

QUEENS OF THE STONE AGE | NOS ALIVE 2018

THE NATIONAL | NOS ALIVE 2018

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