The Oscillation (©Margarida Ribeiro)

The Oscillation no Sabotage Club: Foguete krautrock fica a meio caminho das estrelas

Numa noite marcada pela fraca adesão, os britânicos The Oscillation fizeram vibrar a sua acentuada sonoridade cósmica pelos corredores do Sabotage Club.

No núcleo do Sabotage Club, acanhado bar na Rua de São Paulo, um modesto número de pessoas vai colocando a conversa em dia, tentando sobrepor a voz à intensa música de fundo escutada. A tediosa atmosfera constatada na pista de dança e zona de bar só não bate certo com o facto de alguns instrumentos e uma variada selecção de pedais de efeito repartirem o seu espaço numa secção designada para bandas ao vivo. Hoje, o turno da noite fica ao encargo do krautrock dos Dreamweapon e The Oscillation. A fraca adesão ao evento acaba por não ser uma surpresa. Afinal, falamos de um estilo de música que apela um público muito específico e de duas bandas consideravelmente obscuras. Um par de ingredientes que, de forma geral, anteveem um espetáculo íntimo e memorável… ou uma noite para esquecer.

Entram em cena os Dreamweapon, dupla portuense formada por André Couto no baixo (no fim do mês passado, a Magazine.HD fotografou o concerto dos 10.000 Russos no Musicbox, banda da qual também é membro) e Edgar Moreira na guitarra. A generalidade da audiência, até então dispersa pelas diferentes zonas do Sabotage Club, reúne-se em frente aos dois artistas. Braços cruzados, discussões paralelas e uma sensação de indiferença geral apoderam-se deste agregado de pessoas, que agora encaram os últimos ajustes técnicos dos serenos André Couto e Edgar Moreira.

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O duo dá início ao concerto e, de imediato, entendo o porquê do nome da banda. Assim como Dreamweapon, álbum-ao-vivo de Jason Pierce/ J. Spaceman (já confirmou a sua presença, como Spiritualized, na próxima edição do festival Vodafone Paredes de Coura) e os seus Spacemen 3, também a sonoridade produzida por este par de músicos se baseia, maioritariamente, em drones. O compasso kosmische da música eletrónica alemã dos anos setenta é conservado ao longo de todo o alinhamento. André Couto divide a sua atenção entre um sintetizador Korg, loops de breves murmúrios espirituais e uma linha de baixo que se alonga, infinitamente, pelo espaço, enquanto Edgar Moreira, agachado sobre os pedais de efeito, entrecorta, ocasionalmente, a grave atmosfera sonora com subtis rasgos de guitarra psicadélica.

Com o avançar do tempo, a dificilmente identificável progressão musical no corpo do seu alinhamento homogéneo torna-se exaustiva. A aura transcendental, provocada pela sustentação de sons, apenas nos imerge por breves momentos, já que a própria banda, face a um público mais empenhado em fazer circular o cantil de bolso do baixista do que em desfrutar da sua música, começa a manifestar alguns sinais de indolência. O encolher de ombros de André Couto, terminado o concerto, acaba por se revelar como um espelho da situação. Prevalece a convicção de que os Dreamweapon pouco mais fizeram do que os mínimos exigidos, mas também de que a sua musicalidade espacial fundamentada nos padrões da repetição suplicava por um cenário profundamente distinto.

Dreamweapon (©Margarida Ribeiro)

Após uma curta interrupção somos, finalmente, introduzidos ao ato principal da noite: Demian Castellanos e os seus Oscillation, banda londrina formada no ano de 2006, que vem dar a conhecer ao público português o seu mais recente projecto, Wasted Space, assim como executar algumas composições de discos passados. Previamente ao evento, recordo-me de ter lido uma entrevista a Demian Castellanos pela Música em DX, onde o rosto dos Oscillation afirmou que poderíamos esperar, do seu concerto, “energia, alguma emoção, e muitos sons repetitivos e indutivos à dança”. A meio alinhamento, o último elemento desta declaração tarda em evidenciar-se.

Pelo contrário, o produto dos Oscillation fomenta uma condição de hipnose, vinculada, em grande parte, à batida frequentemente motorik de Jon Abbey, à contagiante linha de baixo que a acompanha, executada de forma exímia por Tom Relleen e, tal como em Dreamweapon, ao recurso a drones distópicos. Assegurada, com precisão, a secção rítmica das composições, Demian Castellanos detecta margem de manobra para experimentar com a guitarra, o seu instrumento de eleição, e o conjunto de pedais de efeito (destacando-se a nítida preferência por delay, overdrive e tremolo). Reflectindo acerca da sua sonoridade, parece-me, acima de tudo, que se posiciona entre a música ambiente, indutora de projeção da consciência, dos Tangerine Dream e Klaus Schulze e o industrial de D.o.A: The Third and Final Report of Throbbing Gristle (1978), obra respeitável no que que diz respeito à formulação de um nauseante clima de inquietação e um dos álbuns de eleição de quem vos escreve este artigo.

The Oscillation (©Margarida Ribeiro)

Não se deixando esmorecer pela desafeição da audiência (à excepção de dois jovens na linha da frente, que aparentam ter mergulhado de cabeça no almejado estado de transe), Demian Castellanos e Tom Relleen vão trocando sorrisos ocasionais. Assentando o meu ponto de vista neste incontestável grau de proximidade, encontro-me piamente convencido de que mais do que tentarem encher as medidas ao público, os britânicos ambicionam superar-se a si mesmos, enquanto músicos individuais e enquanto colectivo. O habilidoso baixista acena a cabeça, como sinal de aprovação, sempre que Demian, de modo abrupto, se resolve exceder na guitarra. A sua convivência é contemplada pelo mecânico baterista, cujo envolvente estilo de percussão cada vez mais se assemelha ao de Jaki Liebezeit. Deixo a batida entranhar-se no meu corpo, sinto o chão vibrar com os graves. Emparelhados pelo ruído que produzem, os Oscillation transformam o Sabotage Club numa labiríntica e agourenta paisagem apocalíptica, da qual somos resgatados, apenas e só, pelas raras composições que substituem a densa sonoridade krautrock/ space rock pelo pós-punk dos The Cure.

Abandono o espaço com um sabor amargo na boca. A música dos Oscillation foi aprimoradamente produzida por Demian Castellanos com o intuito de ser apreciada sob o controlo de determinadas condições imprescindíveis, como o empenho da banda ao vivo, a conveniência do espaço escolhido e a receptividade do público (funcionando como uma contribuição colectiva em prol de um objectivo final). Enquanto os dois primeiros parâmetros cumpriram os requisitos, o último não. Em consequência deste factor, o potencial de imersão anímica associado à sua sonoridade acabou por ficar muito aquém das expectativas, convertendo-se, com o avançar do tempo, numa experiência superficial e até mesmo enfadonha. Mantém-se a vontade de voltar a cruzar caminhos com o projecto de Demian Castellanos. Hoje, a verdadeira essência da sua música não foi atingida na máxima plenitude. O foguete krautrock dos Oscillation ficou a meio caminho das estrelas.

THE OSCILLATION + DREAMWEAPON | SABOTAGE CLUB 14 DEZEMBRO 2018

The Oscillation no Sabotage Club: Foguete krautrock fica a meio caminho das estrelas
  • Diogo Álvares Pereira - 70
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Diogo Pereira

Ex-Farmacêutico que envergou pela rota da Sétima Arte. Cinema, Música, Literatura e Filosofia são as minhas áreas de eleição (excepto quando joga o Sporting). Devaneador por natureza, abraço a ideia de que as grandes viagens se desenrolam no cerne do ser.

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