The River | LEFFEST'18

LEFFEST ’18 | The River, em análise

The River” é uma exploração híper formalista das dinâmicas de um grupo de cinco irmãos condenados a uma existência de demagogias tirânicas no deserto do Cazaquistão. O filme é uma das mais notáveis obras em competição no Lisbon & Sintra Film Festival.

Algures nos desertos do Cazaquistão, uma família vive uma existência de rígido dever e militarista ordem. O patriarca trata a esposa como um patrão trata seus subalternos e vê o filho mais velho como o herdeiro à sua presente posição de tirano doméstico. Cabe a Aslan, com cerca de dezasseis anos, pôr ordem nos seus quatro irmãos que todo o dia trabalham sob as ordens do pai. Não há espaço ou tempo para qualquer distração, somente o seguimento cego de ordens, como um mecanismo bem oleado onde a humanidade das roldanas é uma inconveniência a ser superada com disciplina violenta.

Tudo isto Emir Baigazin filma com severo formalismo, em “The River”, encontrando padrões geométricos nos movimentos dos corpos juvenis e repetições quase musicais no ruído do seu lavoro. Tudo o que a vista alcança, que não seja o céu, pinta-se em tonalidades arenosas de castanhos, beges e cinzas, sendo que até as vestes uniformizadas dos cinco irmãos imitam a cor poeirenta da sua terra. Por vezes, uma labareda viva ou um raio de luz solar oferecem variação cromática a esta rotina, mas mesmo esses elementos tornam-se somente em mais símbolos do aprisionamento dos jovens a quem ninguém permite serem jovens.

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O rio é um bálsamo para a existência solene dos cinco irmãos.

Há beleza na absoluta rigidez desta abordagem estética, mas Baigazin não descura na beleza pictórica do seu exercício. Nunca é aborrecido observar as composições cuidadas de “The River”, mas sentimos a monotonia sufocante que asfixia as figuras em cena e as torna em súbditos relutantes do tirano que tudo domina do seu pedestal paternalista. De certo modo, o filme representa um ponto médio entre o pesadelo de controlo parental do “Canino” de Lanthimos e os epítetos de lirismo sobre corpos masculinos em esforço que Claire Denis capturou no seu “Beau Travail”.

Tais comparações podem parecer exageradas, não fosse a mestria inegável que o realizador cazaque demonstra, especialmente quando deixa que variações violem a plácida perpetuação deste regime de rotina e demagogia espartana. A primeira variação manifesta-se na forma do rio titular, uma massa de água de violentas correntes que os irmãos descobrem quando exploram a paisagem envolvente num raro dia em que o pai não está de olho neles. Finalmente concedidos com uma distração do seu fado sisífio, os miúdos dão permissão a si mesmos para se divertirem.

Visualmente, as águas do rio injetam verdes novos na monocromia do filme e reflexos de azul que quase fazem esquecer a secura que todo o resto da paisagem evidencia. Também a banda-sonora rebenta em música pela primeira vez na fita e a própria câmara ganha a liberdade do modesto movimento horizontal. Até o trabalho dos meninos é feito com mais vigor quando sabem que, às escondidas do pai, as suas vidas foram abençoadas com uma fonte de prazer.

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Contudo, este precário idílio não dura muito e rapidamente a ordem do mundo é posta em causa pelo aparecimento de uma figura com tablet na mão, meias coloridas, um casaco metálico e os pés bem assentes num overboard. Verdade seja dita, não haverá momentos mais surreais no cinema de 2018 que a entrada em cena de Kanat, um primo citadino dos cinco irmãos. De repente, apercebemo-nos que a existência esquálida dos nossos protagonistas não se encontra perdida nas águas do passado histórico, mas coabita connosco na contemporaneidade.

Pela sua parte, Baigazin encena esta intrusão com toda a secura de uma piada britânica e a atrevida provocação de uma criança que fez uma traquinice em busca de atenção. De repente, a monstruosa rigidez formal do filme converte-se num grotesco de paradoxos desumanos, quando aos seus sons naturais e paisagens arenosas se junta a música eletrónica proveniente dos jogos contidos no tablet, esse fruto proibido que desperta todos os vícios dos irmãos. Todos menos Aslan, que encontra em Kanat um indesejado desafiante à autoridade perante os trabalhadores rurais seus irmãos. Não demora muito até o rio ser contaminado pela desavença entre dever e prazer, entre ditadores e súbditos revoltosos.

“The River” divide-se em três atos precisamente delineados e, chegados ao fim dos primeiros dois, é fácil interpretar o filme como um conto caucionário a alertar para as tentações malignas da tecnologia enquanto porta de abertura para vícios de uma sociedade global. Contudo, Baigazin recusa-se a oferecer moralismos simples na sua conceção deste drama fraternal e vai-nos demonstrando como todos os vícios e atitudes mais nefastos das crianças já se encontravam presentes muito antes do advento tecnológico.

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Será possível quebrar os ciclos ditatoriais desta prisão doméstica no meio do deserto?

De facto, é a demagogia paterna e sua influência na ideia que os irmãos têm do mundo que parece ser a semente do mal. Numa conversa com Aslan, repare-se como o patriarca mostra orgulho pelo modo como o filho finalmente se está a mostrar homem e a dominar bem os irmãos. Esse “tornar-se homem”, convém dizer, passa pela chantagem, pelo potencial homicídio e pelo controlo ditatorial daqueles que Aslan passa a julgar inferiores à sua posição de autoridade apenas superada pela figura do pai.

Com tudo isto dito, “The River” é uma obra que consegue evitar ser somente um antro de miséria ou um diagnóstico niilista de um mundo doente. Suas explorações de dinâmicas masculinas e intergeracionais numa sociedade crispada entre ruralidade tradicional e urbanismo globalista é mais complexa do que aparenta ser inicialmente, especialmente quando o cineasta admite seus limites e se reduz à ambivalência inerente à história, quase primordial e mítica, que se propõe a contar.

No final, até o formalismo rígido do cineasta mostra a sua máxima complexidade, quando oferece um raio de esperança na forma de movimento. Talvez, depois da tragédia e do medo, da ascensão de um novo tirano e da ressurreição do Diabo tentador, os ciclos tenham sido quebrados. Talvez haja esperança para uma vida que não está destinada a ser somente ditada pelo dever e pelas dinâmicas entre quem manda e quem obedece. Talvez… afinal, “The River” recusa-se sempre a dar respostas absolutas.

The River, em análise
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Movie title: Ozen

Date published: 2018-11-23

Director(s): Emir Baigazin

Actor(s): Zhalgas Klanov, Zhasulan Userbayev, Ruslan Userbayev, Bagdaulet Sagindikov, Sultanali Zhaksybek, Kuandyk Kystykbayev, Aida Iliyaskyzy, Eric Tazabekov

Genre: Drama, 2018, 108 min

  • Cláudio Alves - 87
87

CONCLUSÃO

“The River” é uma meditação solene sobre almas perdidas em ciclos de demagogias ditatoriais numa paisagem desértica. O filme é um triunfo formalista do seu jovem realizador.

O MELHOR: A fotografia, assinada pelo próprio realizador, e a entrada em cena de Kanat no seu overboard.

O PIOR: A possível leitura tecnófoba e anti globalista sugerida pelos dois primeiros atos da narrativa.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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