Todos os caminhos vão dar aos Kraftwerk

 

Os Kraftwerk regressam a Portugal nos dias 19 e 20 de abril de 2015, para dois concertos, em Lisboa e no Porto, respetivamente. Trata-se de um acontecimento importante, pois o grupo de música eletrónica de Dusseldorf, formado em 1970 por Ralf Hütter e Florian Schneider, não só é um dos projectos musicais mais importantes da história da música pop, mas uma fonte de ideias e inovação que se manteve profícua, ao longo de quase cinco décadas.

 

KRAFTWERK live MTV EMA 2003

Sem os Kraftwerk (e Giorgio Moroder) não teria havido electropop, house music, techno, acid house ou big beat, entre muitos outros géneros e subgéneros. Eles foram a grande referência musical da geração acid, do início dos anos 90, uma das principais da geração new wave do final dos anos 70 e início dos anos 80, e continuam a ser uma referência incontornável para os cultores de música electronica do século XXI. De facto, tal como os Beatles, os Velvet Underground ou David Bowie, os Kraftwerk mudaram radicalmente a música, marcando diferentes gerações de músicos: de Brian Eno aos Daft Punk, passando pelos New Order, Cabaret Voltaire, Suicide, Ultravox, Gary Numan, Heaven 17, Human League, Yellow Magic Orchestra, Depeche Mode, Chemical Brothers, Prodigy, Crystal Method, Aphex Twin, Air, Laroux, Jon Hopkins ou Daniel Victor Snaith (Caribou e Daphni), para citar apenas alguns.

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Após a edição de um disco, “Tone Float”, com os Organization, em 1970,  Hütter e Schneider juntaram-se a Andreas Hohmann e Klaus Dinger, e lançaram, em 1971, “Kraftwerk”, com a produção de Konrad Plank, para a RCA alemã. Com uma capa meio warholiana da autoria de Hütter, o disco abre com “Ruckzuck”, um tema arrebatador em que os sons mais inusitados da electrónica se juntam ao som de uma flauta eximiamente tocada por Schneider. Em 1972, Hohmann e Dinger afastam-se para integrar os Neu, e Hütter e Schneider assinam para a Vertigo, editando, na então Alemanha Ocidental, “Kraftwerk 2”. No final desse ano, a Vertigo lança um duplo-álbum, também de nome “Kraftwerk”, uma edição internacional que reunia os dois álbuns feitos até então exclusivamente para o mercado germânico. É o início da carreira internacional dos Kraftwerk.

 

kraftwerk abril 2015 lisboa porto 5

Assim, em Novembro de 1973, apenas com o seu produtor habitual, Konrad Plank, Hütter e Schneider gravam o seu terceiro trabalho, “Ralf and Florian”, que, não obstante o brilhantismo, não teve o impacto desejado.  Já o disco seguinte, “Autobahn”, com os músicos Wolfgang Flür e Klaus Röder, lançado pela Vertigo, em Novembro de 1974, ultrapassou todas as expectativas. Não só o álbum conseguiu atingir o 5º lugar nos respectivos tops de vendas dos Estados Unidos e do Reino Unido, como o single, um editing com menos de 4 minutos do tema “Autobahn”, cuja versão no álbum tem cerca de 22 minutos, conseguiu a proeza de atingir o 11º lugar no top de singles britânico.  O impacto internacional do álbum, permitiu-lhes fazer uma digressão internacional que os levou pela primeira vez aos Estados Unidos, Canadá e Grã-Bretanha. É neste contexto, de enorme sucesso que, em 1975, os Kraftwerk assinam para a Capitol Records, ao mesmo tempo que Klaus Röder é substituído por Karl Bartos, que se manterá como percussionista electrónico até 1990.

Apesar de, com o enorme sucesso de “Autobahn”, os Kraftwerk se terem tornado mundialmente famosos, o êxito comercial dos álbum seguinte, “Radio-Activity”, foi relativamente escasso, embora seja um dos seus discos mais fascinantes e um marco na história da cultura ocidental. O mesmo relativo falhanço comercial aconteceu com o álbum seguinte, “Trans-Europe Express”, editado em Março de 1977, com a agravante de que os sectores mais radicais da crítica, um pouco injustamente, viram no disco uma viragem para o disco-sound e uma traição à estética alternativa e transgressiva dos álbuns anteriores, apesar da referência a um encontro com David Bowie e Iggy Pop em Dusseldorf.

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A edição de “The Man-Machine”, em Maio de 1978, levou não só muitos dos críticos do álbum anterior a fazerem as pazes com os Kraftwerk, como os colocou de novo nos principais tops, atingindo mesmo o top 10 britânico. Curiosamente, só depois da edição de “The Man-Machine”, é que, em Outubro de 1978, uma edição em single de “Trans-Europe Express”, com “The model” no lado b, entrou para o top 75 britânico, atingindo a 56ª posição. “The Man-Machine”, tal como um ano antes “I Feel Love” de Donna Summer com produção de Giorgio Moroder, lançava os fundamentos para o que iria ser a música pop e de dança nas décadas seguintes.

Em 1981, os Kraftwerk assinam contrato com a EMI e editam o seu oitavo álbum, “Computer World”, que chega ao 15º lugar do top de álbuns do Reino Unido, e ao 73º no dos Estados Unidos. O disco não traz nada de propriamente novo em relação ao anterior, mas é ainda um excelente disco, com destaque para temas como “Numbers” ou “Pocket Calculator”, o single, 39º lugar no top britânico. Tal como acontecera com os álbuns anteriores, uma nova tourné internacional promove o disco, só que desta vez a sofisticação tecnológica vai mais longe, chegando-se mesmo a apresentar manequins, replicados dos próprios elementos do grupo, durante “The Robots”.

 

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Após um interregno de cerca de dois anos, o grupo cancela a edição de “Techno Pop”, que teria sido o seu nono álbum, lançado apenas um single, “Tour de France“, que é 24º no top de singles britânico. O nono álbum, “Electric Café“, com parte do material do que teria sido “Techno Pop”, acaba por só ser editado no final de 1986 e ser uma desilusão, apesar de algum êxito na Suécia e na Alemanha Federal. “Electric Café”, que tinha saído após a maior pausa, entre álbuns, da carreira dos kraftwerk, cerca de cinco anos, foi, de facto, o seu disco menos interessante de sempre. Depois de mais uma pausa de cerca de cinco anos, os Kraftwerk regressam, em 1991, com um álbum novo, “The Mix”, que, no entanto, não contém material novo, mas remixes dos clássicos do grupo, já que este não quisera fazer um disco de Greatest Hits ou um Best of da maneira tradicional.  A tournée desse ano mostrou que, em pouco mais de vinte anos, os Kraftwerk tinham se tornado uma lenda viva com um estatuto apenas comparável ao dos Rolling Stones ou dos antigos Beatles.

Após uma nova ausência, de dez anos, os Kraftwerk regressam em disco, em Agosto de 2003, com “Tour de France Soundtracks”, comemorando o 100º aniversário da volta à França, e recuperando, para o efeito, o tema do single de 1983.  O disco, com temas como   “Aerodynamik”, “Elektro Kardiogramm” e várias variações de “Tour de France”, está ao nível de discos como “Computer World” ou “The Man-Machine” e consegue, ainda hoje, soar ultra-moderno quando comparado com inúmeros disco da mesma altura. Depois de “Tour de France Soundtracks”, não saiu mais nenhum álbum de originais dos kraftwerk – editaram apenas um disco ao vivo “Minimum-Maximum”, em 2005, e “The Catalogue”, em 2009, uma caixa com os oito álbuns do grupo, entre 1971 e 2003 – que no entanto, asseguraram várias tournés mundiais, a última das quais, em 2015, os traz de novo a Portugal para dois espectáculos que ninguém deverá perder. Até porque parece provado que, na música actual, todos os caminhos vão dar aos Kraftwerk.

 

João Peste Guerreiro

 

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