TOP Filmes 2015 by MHD | 6. As Mil e Uma Noites

 

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Em 1558 Camões conclui Os Lusíadas, em 2015, Miguel Gomes completou também ele uma epopeia, mas desta vez é o cinema o meio escolhido e a natureza do projeto não é uma simples glorificação nacionalista, mas sim um grito enfurecido contra injustiças presentes e uma inventiva canção de amor à resiliência dos portugueses face à austeridade.

O cinema de intenções políticas parece ser algo um tanto ou quanto démodé no panorama do cinema contemporâneo. Hoje em dia, filmes com tais ambições parecem desviar o seu olhar para o passado, para longe da ardente controvérsia da atualidade. Há uma certa segurança em falar de feminismo a partir do movimento sufragista no início do século passado. Tais seguranças não existem em As Mil e Uma Noites de Miguel Gomes, um projeto tão ousado na sua ideologia como na sua concretização formal, cuja experimentação e obstinada bravura estrutural desafiam as infelizes convenções do cinema contemporâneo.

 

As Mil e Uma Noites

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A partir do trabalho de uma equipa de jornalistas que ia compilando notícias nacionais, Miguel Gomes construiu um épico cinematográfico que se desenrola com base na estrutura da obra de origens orientais com que partilha o título. Assim se criou uma narrativa episódica, levemente unida pela história da rainha Xerazade, e que, pelo meio, vai brincando com uma série de registos cinematográficos incluindo o documentário.

As Mil e Uma Noites, um projeto de ambições monumentais, poderia, portanto, ter sido uma aborrecida exploração de miséria nacional construída por um visionário formalista como um serio exercício artístico. Felizmente, o filme não se deixa sufocar por tal respeitabilidade carrancuda, estando recheado de momentos de um humor tão ridículo como acídico, tão hilariante como cortante, e por uma alegria experimental que sugere o surreal. Gomes não é um estreante nestes registos, mas em As Mil e Uma Noites, o realizador abraça por completo a glória do nonsense e do sonho. Mesmo que fosse uma experiência fracassada, esta trilogia mereceria admiração, pelo que, o sucesso da obra final é de particular êxtase para os amantes de cinema. Um sonho cinematográfico que serve de carta de amor a Portugal, As Mil e Uma Noites é, sem dúvida, um dos filmes mais essenciais de 2015 e, muito provavelmente, os anos cimentarão a posição desta obra como uma das joias mais luminosas na história do cinema português.

 

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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