Top guarda-roupas da TV | 05. The Knick

Em The Knick, as roupas criadas por Ellen Mirojnick são uma componente essencial da peculiar e formidável atmosfera da série originalmente edificada por Steven Soderbergh.

 

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Desde o primeiro episódio estreado em 2014, que The Knick se tem provado como uma série de época completamente diferente de todas as outras que ocupam os ecrãs televisivos da atualidade. Longe de procurar qualquer tipo de requinte ou doce nostalgia, Steven Soderbergh concebeu em The Knick uma visão vivida, contemporânea e imediata de um passado que não é visto a partir da pátina do conforto histórico mas sim com a intensidade violenta do imediato presente. Isso é visível tanto na abordagem narrativa como formal, sendo que a banda sonora eletrónica de Clift Martinez é o seu elemento estilístico de mais gritada modernidade.

O génio do trabalho de Mirojnick devém, aliás, do modo como, a partir da dedicada reconstrução histórica, a figurinista encontra a modernidade nos ambientes de época. Em The Knick, nunca duvidamos da veracidade dos seus visuais, nunca olhamos os atores e vemos pessoas da nossa contemporaneidade em vistosas máscaras. Há uma autenticidade que transcende a distância temporal da narrativa e que dá a toda a série uma atmosfera de formidável poder e intensidade.

Juliet-Rylance-The-Knick

The-Knick-Andre-Holland

The-Knick-Cara-Seymour

The-Knick-Cinemax

The-Knick-Cornelia

Apesar da sua espiral de descontrolo e desgraça apenas se tornar mais agressivamente catastrófica na segunda temporada, Thackery, o protagonista interpretado por Clive Owen, continua sempre a ser uma visão de irreverente estilo, mesmo quando limitado pelas opções das sóbrias modas de 1901. Há sempre um certo ar de estrela de rock dos teatros cirúrgicos na sua postura e apresentação, como que um David Bowie cirurgião, em casacos de veludo e botas brancas usadas mesmo fora do contexto de trabalho.

A personagem mais glamourosa da série, se excluirmos o charme de rock star dos palcos de cirurgia que é Thackery, é Cornelia. Interessantemente, o seu guarda-roupa, longe de ser um exemplo de invejável elegância e sonhador luxo do passado, funciona mais como uma rígida armadura, complicadamente colocada de modo a proteger e simultaneamente aprisionar a mulher que a veste. Tal como os restantes figurinos da série, as elaboradas vestimentas de Cornelia são um cuidado uniforme, neste caso um símbolo do conformismo social imposto a esta personagem devido ao seu sexo.

The-Knick-Edwards

The-Knick-Eve-Hewson

The-Knick-Gemeas

The-Knick-Harriett

The-Knick-Hewson

Outra importante personagem é o Dr. Algernon Edwards (Andre Holland), um cirurgião afro-americano que se vê limitado pelos preconceitos regentes na sociedade da época. Os seus figurinos, sempre impecáveis, demonstram sempre uma formidável ambição e desejo por legitimidade, nunca descurando qualquer detalhe e sendo sempre um exemplo de perfeita e sóbria elegância, com alguns toques de cor que o distanciam e separam da multidão de injustamente poderosos homens brancos que detêm a influência e capacidade de bloquear qualquer inovação ou ambição de Edwards. Quando uma inesperada familiar aparece a meio da temporada, o desejo de legitimidade torna-se ainda mais intenso nas suas roupas e da sua companheira, cujo aparecimento surpreendeu muitos dos fãs da série.

É claro que, desde a primeira temporada, os uniformes do hospital e aliás de toda a sociedade da época, são os principais focos do guarda-roupa da série, visualizando de modo inescapável a estratificação social e rígida hierarquia profissional dentro das paredes do hospital. Por vezes, como no caso de Harriett, a freira que praticava abortos na primeira temporada, a perda desse uniforme e símbolo do seu rígido lugar na sociedade é uma tragédia e nunca uma libertação.

The-Knick-Juliet-Rylance

The-Knick-Not-Well-At-All

The-Knick-Owen-Holland

The-Knick-Temporada-2

The-Knick-Wonderful-Surprises


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The Knick tem um visual bastante sóbrio em comparação com os outros guarda-roupas nesta listagem, mas é imensamente merecedor de admiração.


 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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