Top MHD: As 20 Melhores Personagens de Séries 2013 | Parte III

Se abriram este artigo, então já sabem que chegámos ao Top 10. Grandes personagens, algumas delas também dignas de estarem entre as 10 melhores de 2013, já ficaram para trás. Esta parte marca a chegada dos “Pesos Pesados” deste último ano, na perspectiva da MHD.

Sabemos que vai haver polémica, mas é isso mesmo que torna os Tops mais interessantes, não concordam? De qualquer forma, quisemos dar o tratamento merecido às personagens que se seguem, compondo textos que reflectissem a sua verdadeira qualidade. Ainda para mais, quando há os casos de nunca mais voltarmos a ver algumas delas, nas séries que lhes deram um lugar de destaque nas nossas escolhas, e de outras pelas quais mal podemos esperar para ver se continuam a surpreender-nos com a sua qualidade. Por isso, não nos “censurem”, se nos tivermos alongado um pouco em personagens que realmente merecem tudo o que escrevemos acerca delas, se não mais.

Vamos ao que interessa? Pois claro que sim…

 

 

10º – Hannibal Lecter (Mads Mikkelsen) *

Hannibal| 2013| NBC (EUA)| AXN (Portugal) 

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No 10º lugar deste top, encontra-se o psiquiatra mais conhecido do mundo dos serial killers, Dr. Hannibal Lecter, um bom punhado de anos antes de ter chegado às condições que fizeram Anthony Hopkins encarnar um dos mais fantásticos, viscerais e inesquecíveis vilões (ou será anti-herói?) da história do cinema.

Numa reformulação que o coloca, temporalmente, ali algures na transição da irreverência da idade de jovem adulto para a maturidade e sapiência que vêm com 3 ou 4 décadas de existência, o Dr. Lecter de Mads Mikkelsen é, no fundo, semelhante a um dos seus pratos gourmet: não sabemos se havemos de bajular o seu aspecto ou comê-lo desenfreadamente sem pensar duas vezes na experiência gastronómica avançada a que estamos expostos. Um olhar mais selvagem, um toque mais delicado, uma expressão mais intrigante. Tudo conduz para uma composição perturbadora e refinada de um serial killer que nos leva a adorar a sua malícia e a venerar todas as suas ações, mesmo sabendo que estão longe do padrão ético.

A série tem um aura vincadamente sinistra, servindo-nos um prato escaldado pela desumanidade da personagem que lhe dá o nome, que, com o desenrolar da temporada, vai mostrando o seu perfeccionismo, a sua capacidade manipulativa e o fingimento automático, só alcançáveis por alguém tão cerebral e teatral como Hannibal Lecter. No final de contas, Mikkelsen é um actor a fazer o papel de um homem que, face à sua “rotina”, acaba por ser outro grande actor. É disto que se fazem as grandes personagens. E Mikkelsen não só honra o legado de Hopkins, como contribui para que o nome Hannibal ressoe por muitos mais anos no imaginário cultural de milhões de pessoas.

 

9º – Jaime Lannister (Nikolaj Coster-Waldau)

Game of Thrones| 2011| HBO (EUA)| SyFy (Portugal)

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Dispensa apresentações e merece o lugar em que se encontra, no mínimo, por toda a história de sobrevivência e não subserviência que protagonizou ao longo da terceira temporada de Game of Thrones.  E foi intensa a jornada do Kingslayer, começando pela famigerada escolta de Brienne, desencadeando a captura e “corte sem costura” às mãos de Locke (numa das melhores cenas de toda a temporada) , um exímio caçador e nobre com vassalagem à Casa Bolton, por sua vez apoiante dos Stark, até ao momento em que soldados leais a essa mesma casa o protegessem até à sua chegada, sem incidentes, à capital dos Sete Reinos. E pelo meio, entre os delírios abruptos, os momentos de corajosa lucidez, e profundas confissões sobre a incompreensão que muitos têm do seu passado, ficámos a conhecer um Jaime que, porventura, nem sequer tínhamos ponderado que pudesse existir; é que há momentos em que a representação de Coster-Waldau se torna uma transmutação metafísica, alternando o natural manipulador amoral que há em Jaime, com um dos seres mais altruístas, de maior força mental e emblemática bravura que pudemos ver em situações de incessante risco.

O filho varão de Tywin Lannister é, efectivamente, um dos pontos mais interessantes de toda a story line que se desenrola nesta última temporada, em termos de desenvolvimento de personagem, já que é aquela que sofreu uma volta de 180º, deixando-nos finalmente atravessar a sua máscara social e entrar nas suas verdadeiras motivações, nos seus mais sinceros pensamentos, na raíz dos seus medos e frustrações. É uma jornada de enriquecimento psicológico, que nos transporta para os confins da complexidade de alguém muito mais perturbado pela sua história, muito menos transparente do que o soldado infame e arrogante que julgávamos ter diagnosticado logo de imediato. A sua confidência a Brienne, sobre o reinado de terror de Aerys Targaryen, e o sentido moral de justiça que o munia quando assassinou o Rei Louco, são cenas que mostram um homem exausto, cujos limites, do que o corpo e a mente conseguem suportar na maior adversidade, foram há já muito ultrapassados.

E não fossem as provações que Jaime teve de passar, o descobrimento que as mesmas nos trouxeram da sua relativa rectidão nunca teria acontecido. Logo, não torceríamos tão avidamente por alguém que faz questão de ter uma fama tão carniceira quanto desprezível. Mas um manto que encobre a sua verdadeira personalidade, descobrimos alguém despretensioso e com uma ambição desenquadrada do nome de família que carrega e gostámos de nos ter enganado tão redondamente quanto a isso. O Jaime que regressa a King’s Landing é infinitamente mais maduro e esclarecido do o que de lá partiu, e, sendo membro da Guarda Real, o desfecho do seu arco narrativo só não é previsível, porque sabemos que ele não resistiu tão ferozmente às vicissitudes do clima e cativeiro no Norte, para chegar à hipocrisia do mundo que tão bem conhece e desistir de si como o soldado ímpar de Westeros. Como irá ele ultrapassar isso? Ora, é esse mesmo um dos principais temas pelos quais existe uma ânsia a ser explorada; por enquanto, só leitores da saga de Martin é que sabem o ainda está reservado para Jaime Lannister. Por enquanto…

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8º – Walter White (Bryan Cranston)

Breaking Bad| 2008| AMC (EUA)| TVSéries (Portugal)

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Guess who’s knocking? Pois é, exacto. É ele. O subvalorizado e sobredotado professor de química, cuja catarse trouxe um dos cientistas mais narcisistas e vilanescos que, vilipendiando a moral e os bons costumes ao longo de 5 temporadas, elevou o nome Walter White ao lote superior do repertório da cultura e entretenimento. É já uma referência e sê-lo-á, em tudo o que seja ligado ao crime, pelos próximos 20 anos.

Muitos irão achar que Heisenberg, o nome pelo qual é conhecido na desértica e fatal auto-estrada da droga que junta os Méxicos, merecia um posto mais cimeiro neste top. Não tenham dúvidas de que assim o seria, se este top dissesse respeito às melhores personagens de sempre em séries. Contudo, cingimo-nos a temporadas que tenham tido episódios exibidos em 2013, e por muito que continuemos a admirar as metástases psicológicas que pontificam no confronto incessante entre Walter White, pai de família e vítima de cancro, e Heisenberg, o cozinheiro perfeccionista e barão da droga selvaticamente truculento, não há volta a dar numa questão: Vince Gilligan, criador de Breaking Bad, soube, ao longo de toda a 5ª temporada (iniciada ainda em 2012), como captar a decadência que advém da ganância desmesurada e do calculismo facínora, ilustrando como as decisões de Walter, no Breaking Bad pós-Gus Fring, em nada se prendem com o instinto legítimo da sobrevivência mas sim com a consolidação arrogante de um império, movido pela veemência orgulhosa na eternidade; porque é isso que Walter sente após ter ocupado ocupado o lugar de Fring no topo da cadeia alimentar – que está a um passo da eternidade.

Se o mundo à margem da lei foi aquilo que mais o fez sentir vivo em toda a sua existência, então indubitavelmente que a promessa de eternidade, embalada no seu produto, foi o cume transcendente da montanha que Walter nunca conseguiu escalar enquanto homem respeitador e cumpridor da lei. E ele escalou-o. Ele conquistou-o. E ele domou-o. Mas nunca se apercebeu que nunca o conseguiria controlar, ao ponto de sair incólume, sem que o seu caminho se intersectasse vorazmente com o rasto de corrupção e destruição por si intencionalmente iniciados e o fizesse violentamente cair na amargura impotente da sua própria malvadez. E, possivelmente, é essa convicção que Walt tem nas suas capacidades de gerir, controlar e minimizar estragos, sendo ostensivo na sua superiorização ante os que o rodeiam, que o tornam no Tony Montana pelo qual nós deixámos convictamente de torcer.

Não há que entrar em spoilers, mas jogando com a larga probabilidade dos leitores deste artigo terem já todos visto a série toda, será suficiente referir que Walt ultrapassa, nesta última temporada, qualquer justificação que pudesse existir para os mind games que faz com Jesse, prova, no acerbo da relação com Mike, que a sua palavra não tem nem um décimo da pureza e qualidade da sua blue meth e desiste deliberadamente de qualquer resquício de decência que ainda pudesse ter, na forma como se tenta libertar de um Hank que já conhece a face de quem tanto perseguiu. Todavia, não existe aqui qualquer demérito na concepção de Walter White, muito pelo contrário. Com vista ao encerramento do ciclo Heisenberg, sentimentos que ainda não tinham sido clara e unilateralmente despertados por este na audiência, como o desprezo, indignação, talvez até ódio, tinham de aparecer nestas últimas etapas da sua jornada. E a prova de que a concepção de Walter White é tão corajosa quanto sublime, prende-se com o facto de embora emocionalmente a nossa resposta àquilo em que ele se transformou não seja a mais positiva, racionalmente não conseguimos deixar de apreciar a genialidade da sua mente em contexto criminal, nem a frialdade com que desempenha ou ordena que sejam levados a cabo os actos mais atrozes de toda a série.

O Walter por quem torcemos só volta a aparecer nos últimos episódios, quando, inundado no desespero, solidão e remorso, resolve fechar pelas próprias mãos, qual León, o profissional, o ciclo do homem-bom-tornado-mau, dando lugar à personagem comprovativa da existência dual de todos nós, humanos. E não pode haver maior honra para uma personagem e o actor que a interpreta, do que perder o apoio incondicional e respeito de quem o acompanha desde o início, e voltar a recuperá-los com uma força e lampejo mais sufocantes que qualquer dose de ricina, uma derradeira vez, pela última vez. E as futuras gerações irão dizer o seu nome, já que o mínimo que nos “pediram” foi para o lembrar. O máximo a que nos podemos propor? Não esquecer quem era o homem por trás do nome.

 

7º – Norma Bates (Vera Farmiga)

Bates Motel| 2013| A&E (EUA)| TVSéries (Portugal)

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Vera Farmiga traz-nos mais uma prova de que a alternância entre televisão e cinema é, cada vez mais, um caminho de oportunidades a explorar pelos actores, e não um desterro para onde estes vão quando desprovidos de trabalho na 7ª Arte. Aliás, indo ainda mais longe que Freddie Highmore (Norman Bates), Farmiga recupera um estandarte psicótico da cultura popular ocidental, dando corpo, passado e profundidade a uma das melhores “personagens-atmosfera” – daquelas que não precisamos ver para reconhecermos o imenso poder que desencadeiam na narrativa – da história do Cinema.

Inteligente, com uma cândida beleza, existe uma certa sedução na forma paranóica como Norma Bates tenta encobrir a sua fragilidade emocional, parecendo muitas vezes que estamos a ver uma personagem com camadas de mistério que a transportam para lá da fronteira da bipolaridade. A dissimulada calma e frieza com que se relaciona com as autoridades de White Pine Bay, nunca se comprometendo com o crime que a acompanha desde o primeiro episódio, parecem impermeáveis à compulsão inveterada que tem de dramatizar todos os actos protagonizados pelo seu filho, que destoem da bolha familiar em que os dois vivem desde que este nasceu. A carência incessante de Norma é o motor de todo esse desajustamento emocional que caracteriza a relação com o seu filho; e  se é verdade que este era um dos pontos que a maior parte dos fãs de Psycho quereria ver abordado, então há que aplaudir Farmiga por executar um papel que permite explorar, não só a sua própria densidade, como as memórias, motivações e crescimento do perturbado Norman que acabou por se tornar no ícone que não carece de mais referências.

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Mesmo que não simpatizemos com Norma, seguindo a lógica e quase automática tentação de demonizá-la pelo futuro de Norman, não dá para não admirar a concepção enigmática com que os argumentistas impregnaram alguém que, à primeira vista, parece padecer de um dos males que já vemos, actualmente, como natural: a depressão. A diferença, é que Norma alterna os seus sentimentos de impotência, histeria e desistência, com momentos autenticamente banhados pela indignação típica que polvilha nos “pobres e oprimidos”, persistindo na ideia de um futuro para si e Norman, com um certo nível de calculismo que, mesmo não sendo perfeito e infalível, denota uma mulher que não deve ser subestimada de ânimo leve. Por isso é que nos momentos em que aparenta uma credulidade e ingenuidade face às circunstâncias, é que não sabemos se tudo aquilo é realmente genuíno, ou se não extravasa por completo a duplicidade engenhosa de Norma. E enquanto formos cavando pelas profundezas dos seus intuitos, compreendendo e resolvendo os mistérios da sua pessoa, não há vivalma que consiga desferir mortais facadas e abandonar num pântano o real interesse de Bates Motel.

 

6º – Mike Ehrmantraut (Jonathan Banks)

Breaking Bad| 2008| AMC (EUA)| TVSéries (Portugal)

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E a sexta posição do top é ocupada pelo grande Mike, o mais mortífero hitman de Breaking Bad – o que não é dizer pouca coisa-, e aquela que consideramos ser uma das maiores surpresas deste top. Das maiores surpresas porque Mike Ehrmantraut é bem capaz de ser um dos elementos mais underrated do poderoso e visceral episcopado televisivo criado por Vince Gilligan.

Embora nos tenhamos apercebido, desde o início, que a sua entrada na série iria proporcionar um outro nível de profundidade nos meandros do império do narcotráfico sedeado em Albuquerque, foi surpreendente e gratificante ver como o desenvolvimento progressivo de Mike, face ao crescendo de violência e perigo que contaminam a nova experiência de vida de Walter White, conseguiu justificar indubitavelmente a sua existência na série, fugindo aos rigorosos estereótipos e arcos narrativos de linearidade previsível do qual padecem muitos enforcers de relevo secundário, em filmes e séries deste género. Mas não basta afirmar que a qualidade desta personagem se resume ao facto de não ter ficado sob jugo de fáceis automatismos hollywoodescos, pois acima de tudo, um dos maiores feitos da mesma foi causar alterações nas dinâmicas existentes, não só entre Jesse e Walt, como também nas que se tinham desenvolvido entre espectadores e este último, o protagonista. Para suportar este argumento é preciso aludir a uma situação fulcral, considerada game-changing por muitos dos que já viram a série toda, portanto não podemos fazer mais do que incitar quem não tiver visto a 5ª temporada a cessar imediatamente a leitura, sob pena de ficar inflamado pelo spoiler e corroído por não ter tido o prazer de assistir à cena referida sem saber nada de antemão. Feito o aviso, continuemos.

Quem tiver terminado Breaking Bad já terá adivinhado, certamente, qual a situação envolta em tão fraco mistério e saberá que o desenlace de Mike foi das maiores frustrações que um fã da série teve de suportar. Passando de contacto de Saul Goodman, a hitman de Gus Fring, a evolução meticulosa e plausível da dimensão do seu papel trouxe-nos muito mais que um soldado ou segurança; trouxe-nos um homem que apesar de feito de violência, tem uma inteligência tão intrigante equiparável à primeira. A partir daí, foi impossível não apreciar verdadeiramente a postura do ponderado consigliere para guerra e paz de Gus Fring, do ex-polícia com conhecimentos e sabedoria suficientes para ter a sua própria operação de tráfico, se quisesse, do avô devoto que vê nessa condição a justificação dos seus ganhos financeiros, do sócio e colega com mais princípios e sentido de ética que nos foi dado a conhecer na série inteira, do homem que agiu como tal, reconhecendo os seus erros, tornando-se temporariamente no melhor amigo, conselheiro e referência que Jesse podia ter (e se ele precisava de alguém assim…).

Muitos dos traços tornaram-se dados adquiridos apenas na 5ª temporada, que nos mostrou igualmente o melhor do carácter de Mike, na frontalidade com que enfrentava Walt, depois de ter sido o que mais rápida e certamente ficou consciente dos motivos egoístas da ganância deste. Ao traçar uma linha moral na gratuitidade da violência, Mike superiorizou-se, em certa medida, a Walt, que já há muito a tinha ultrapassado. Mas não conseguiu ser superior ao génio receoso e rancoroso de Heisenberg; daí que a sua morte desnecessária às mãos de Walt tenha sido um grande golpe na popularidade deste último e, provavelmente, aquilo que mais nos fez querer desprezar a monstruosidade da sua personalidade. Mike foi uma personagem secundária de especial importância, pois fez-nos mudar, parcial e limitadamente, a visão que tínhamos de Walt como anti-herói, fazendo-nos ver e sentir também a malvadez e sordidez que só um vilão poderia ter. Foi a que o fez com mais classe e distinção, algo que o acompanha até aquando da sua morte, momento que inocentemente desejávamos poder ter sido natural e pacífico.

 

* Texto escrito por Daniel Rodrigues e Tiago Mourão

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