"Tumbbad" | © MOTELX

MOTELx ’19 | Tumbbad, em análise

Tumbbad” é um pesadelo indiano e um dos melhores filmes em destaque na secção Serviço de Quarto do MOTELx de 2019.

Em 2018, “Tumbbad” tornou-se no primeiro filme indiano a abrir a prestigiada Semana dos Críticos do Festival de Veneza. A importância deste evento é ainda maior quando consideramos que se trata de um filme de terror, um género tradicionalmente menosprezado em círculos críticos. Mesmo antes de considerar a qualidade do filme em si, somente a sua história de produção inspira algum respeito e mais do que justifica e explica a sua presença em tão áureo lugar de prestígio. “Tumbbad” é uma produção marcada, desde a sua génese, por uma enorme ambição cinematográfica. Rahi Anil Barve, um de três realizadores creditados, escreveu o primeiro esboço do argumento em 1997 e chegou a começar uma filmagem inicial antes de os seus produtores desistirem do investimento em 2008.

Entre 2009 e 2010, Barve dedicou-se a criar um storyboard enorme para assim tentar garantir financiamento fidedigno do seu extravagante projeto. O que começou por ser uma antologia de três contos fantásticos, acabou por ganhar a forma de uma só história com três capítulos e mais dois realizadores se juntaram ao projeto, Anand Gandhi e Adesh Prasad. Mesmo assim, quando as filmagens finalmente começaram, poucos podiam antecipar as dificuldades que a produção viria a sofrer. Ao todo, a rodagem de “Tumbbad” durou seis anos, com várias pausas pelo meio. Parte do problema derivava de uma necessidade de chuva, pelo que o filme só podia ser rodado durante a época de monção. O efeito inesperado das mudanças climáticas resultando em períodos imprevistos de pouca pluviosidade só atrasaram mais a rodagem.

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Um erro comum em crítica cinematográfica é uma preocupação demasiado enfática na história de rodagem de um filme em detrimento de uma apreciação da obra de arte final. No caso de “Tumbbad”, contudo, é impossível divorciar a experiência do filme das ambições e dificuldades dos cineastas que o trouxeram ao grande ecrã. A atenção ao detalhe que tanto atrasou a produção está patente em todas as imagens da obra, cada momento uma pequena joia de esforço coletivo, muito suor e incontáveis lágrimas. A chuva, por exemplo, não foi uma vácua indulgência, acabando por ser um dos mais importantes elementos da estética e tom de “Tumbbad”, um conto infernal de um mundo fustigado pela cólera divina.

“Tumbbad” é uma história cheia de magia e perversões da mitologia hindu, um retrato fantasioso do passado da Índia, quando os britânicos ainda impunham seu domínio sobre a nação. Nessas alturas, sussurrava-se uma lenda sobre como, em tempos longínquos, a Deusa da Prosperidade deu à luz milhares de deuses. Hastar, seu primogénito e mais adorado filho era ganancioso e tentou roubar aos irmãos, tendo conseguido conquistar-lhes o ouro. Contudo, eles pararam-no antes de Hastar roubar o seu alimento e, furiosos, os outros deuses exigiram a morte do ladrão. Sua mãe foi mais piedosa, poupando-lhe a vida sob a condição que ninguém jamais o veneraria. Muito tempo depois, na região de Tumbbad, a população construiu um templo para Hastar, pois, para eles, o castigo divino era uma bênção – a chuva que nunca cessa.

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Quando o filme começa, no crepúsculo do século XIX, encontramos o nosso protagonista nestas terras lamacentas. Vinayak Rao é um menino que anseia por riqueza, mas vive na miséria. Ele e o irmão são cuidados por uma mãe que é praticamente escrava do senhor feudal de Tumbbad, o pai ilegítimo dos meninos. A mãe do aristocrata também está aos cuidados da mãe de Vinayak, presa num quarto escuro e acorrentada às paredes. Uma noite, depois do aristocrata morrer e do seu irmão magoar a cabeça, o nosso protagonista é deixado sozinho com a idosa assustadora. Ela revela ser um monstro perpetuamente faminto, cuja vida infindável é um crime contra a Natureza. A avó de Vinayak anseia pela morte que lhe dará fim ao sofrimento e está disposta a trocar um segredo por esse precioso presente.

Esse segredo, o fruto das riquezas dos senhores de Tumbbad, define a vida do jovem ambicioso que assim se torna no homem de posses que sempre sonhou ser. Ele rouba ao ladrão, descendo às profundezas, à prisão de Hastar que é um ventre carnudo dentro do coração da terra. Não revelaremos aqui o ritual concreto que Vinayak usa para ludibriar o deus castigado, mas é importante mencionar que o método é limitado e tem de ser repetido sempre que o ladrão humano deseja mais ouro. Patologicamente ganancioso como os seus ancestrais que arriscaram tudo pelo dinheiro, Vinayak nunca para e, mesmo depois de ter um filho, passa a sua sede por ouro à criança. Em “Tumbbad” a ganância é uma doença congénita.

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A estrutura necessariamente repetitiva do filme, seu uso de arquétipos e mensagens morais simples dão-lhe a aparência de um antiquíssimo objeto de folclore. “Tumbbad” tem o sabor de uma grande história de fantasmas contada junto a uma fogueira, tem o cheiro de terra húmida e a textura de paredes que não são tocadas pela mão humana há séculos. Esta é uma Índia perdida no tempo, um lugar que nunca existiu fora dos pesadelos e mitos sussurrados. A chuva perpétua sugere de imediato um universo errado, doente e putrefacto, uma sensação que os restantes elementos formais do filme intensificam. Veja-se os edifícios cobertos de musgo e degredo, a riqueza faustosa, mas feia, de salões saturados de fumo e sedas manchadas por suor. Não fosse o uso um tanto ou quanto exagerado de passagens musicais, “Tumbbad” seria uma experiência de imersão sensorial quase sufocante.

Uma das grandes decisões criativas que possibilitaram tal sensação foi a de somente usar fontes luminosas presentes em cena. Quando uma casa escura é só iluminada pelo sol que entra pelas frechas na janela, o filme não tenta criar ilusões. Quando pai e filho descem a um inferno subterrâneo, só o brilho de fósforos e uma lanterna de óleo rompem as trevas. Os efeitos especiais ganham assim um toque de realismo acrescido, o que é quase nauseante visto que os designs de monstros e feridas de “Tumbbad” são hediondos espetáculos de grotesco e vísceras. Tal brutalidade acaba por dar charme a este mito filmado que, ocasionalmente, faz lembrar as histórias metafóricas de fantasmas e faunos de Guillermo del Toro. Não que “Tumbbad” tenha as mesmas ambições de comentário sociopolítico e histórico desse autor mexicano. Pelo contrário, este é um filme simples que se contenta em ser uma história mítica e primordial sem complexidade psicológica. Nessa simplicidade, o filme indiano quase encontra o caminho para a perfeição.

Tumbbad, em análise
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Movie title: Tumbbad

Date published: 12 de September de 2019

Director(s): Rahi Anil Barve, Anand Gandhi, Adesh Prasad

Actor(s): Sohum Shah, Jyoti Malshe, Anita Date, Ronjini Chakraborty, Deepak Damle, Cameron Anderson, Dhundiraj Prabhakar Jogalekar, Madhav Hari Joshi, Piyush Kaushik

Genre: Drama, Fantasia, Terror, 2018, 104 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

“Tumbbad” é um tenebroso conto de deuses monstruosos e ganância humana que, com uma moral simples e história arquetípica, tem a aparência de um mito antigo. Formalmente, o filme é um triunfo que merece aplausos.

O MELHOR: A cenografia é maravilhosa, desde um casebre consumido por uma árvore humana até ao ventre sangrento em que Hastar habita.

O PIOR: Tirando a canção titular à la Bollywood que só aparece em montagens de luxo desmedido, a banda-sonora do filme parece estranhamente divorciada das imagens que acompanha.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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