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Um Herói, em análise

A Alambique Filmes fez chegar ao nosso país “Um Herói”, a nova obra cinematográfica de Asghar Farhadi, vencedor do Grand Prix do Festival de Cannes em 2021.

O VERSO E O REVERSO DE UM HERÓI…!

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Nos dias que passam, muitas vezes encontramos as mais grosseiras mentiras apresentadas como verdades absolutas. Em algumas redes sociais deparamos com uma série canalha de factos manipulados que poucos, mesmo os que podiam ou deviam fazê-lo, não se dão ao cuidado de investigar de forma a impedir que se ampliem e multipliquem de forma sistemática e intencional. Numa altura em que até a imprensa séria e responsável não está a salvo de ser contaminada pelos ecos das notícias falsas, muito contente fico, e por isso mesmo aplaudo com entusiasmo a estreia de GHAHREMAN (UM HERÓI), realizado por Asghar Farhadi, projecto fílmico que nos propõe uma visão multifacetada da realidade, uma obra poderosa e de grande impacto emocional onde se evita o relato de acontecimentos num quadro de valores pintados a preto e branco e, mais do que isso, onde os seus autores recusam dividir o mundo entre bons e maus, Deus e o Diabo e, naturalmente, entre os heróis autênticos e os heróis fabricados, muitas vezes alimentados pela hipocrisia reinante que, sobretudo ao nível de certas margens do poder e de instituições de fachada, os usam para seu próprio prestígio e benefício. Os mesmos que não hesitam em descartá-los sempre que não acertam o passo pela agenda ou cartilha previstas, passando a ser activos ou passivos particularmente incómodos.

Um Herói
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Asghar Farhadi, um dos mais conhecidos veteranos do cinema iraniano, possui um considerável histórico de prémios obtidos nos principais circuitos cinematográficos internacionais. Entre outros, foi galardoado com dois Óscares na categoria, como na altura era designada, Melhor Filme em Língua Estrangeira, o primeiro para JODAEIYE NADER AZ SIMIN (UMA SEPARAÇÃO), 2011, e o outro para FORUSANDE (O VENDEDOR), 2016. Na minha opinião, foi no país natal que realizou os seus melhores filmes mas, lá por causa disso, não retiro valor ao seu desvio estratégico por França, onde realizou LE PASSÉ (O PASSADO), 2013, e por Espanha, onde realizou Penélope Cruz e Javier Bardem em EVERYBODY KNOWS (TODOS SABEM), 2018. Para a co-produção franco-iraniana intitulada UM HERÓI, 2021, que recebeu no ano de produção o Grande Prémio do Júri no Festival de Cannes, o realizador regressou ao Irão e ao encontro de pessoas e matérias que ele bem conhece, assim como a ambientes que lhe são familiares e onde o cidadão comum circula como um peão, um cavalo, um bispo, uma rainha ou um rei num imenso e complexo xadrez, como se fosse uma peça de um jogo vital cujas regras nem sempre são claras, e mesmo quando o são, nem sempre se apresentam fáceis de penetrar, evitar ou superar, apesar de fazerem parte indelével da especificidade política, religiosa, social e cultural do país.

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Mas vamos ao filme, ao encontro das suas histórias e do seu protagonista, Rahim (Amir Jadidi), homem comum embrulhado numa situação excepcional que ele espoleta ao jogar a cartada da sua vida, ou seja, o futuro herói de quem se fala. De início vemos o homem, ainda jovem, que sai da prisão rumo a casa onde se irá encontrar com a família, nomeadamente a irmã e o filho de um casamento recentemente desfeito. Mas não o faz directamente porque antes vai passar por um magnífico sítio arqueológico, o Naqsh-e Rustam, onde irá encontrar o cunhado que ali está como operário nas obras de restauro dos chamados Túmulos de Pedra dos Reis dos Reis. Neste segmento de UM HERÓI, o filme sublinha o lado material e as preocupações existenciais do presente no preciso local onde se cruza a presença majestática e simbólica do passado, a História da antiga Pérsia, assim como o espaço geográfico onde a acção irá decorrer, a província de Fars e a cidade de Shiraz.

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Todavia, Rahim não saiu em liberdade. Foi-lhe apenas concedida uma licença de dois dias, durante os quais deveria regularizar uma avultada dívida que não pagara ao irmão da sua antiga mulher. Facto, aliás, que o levou a ser preso. Entretanto, a namorada com quem agora mantém uma relação mais discreta do que secreta entrega-lhe uma carteira de mulher que encontrara perdida numa paragem de autocarro, “recheada” com uma boa quantidade de moedas de ouro. Moedas que procuram vender, para obter o dinheiro em falta. Mas o valor daquele ouro, de acordo com as contas dos especuladores, não chega para liquidar a dívida nem apaziguar a má vontade do credor. Rahim procura então outros expedientes para resolver o assunto, mas nada parece resultar e, finalmente, num momento em que uma boa dose de desespero e uma pitada de má consciência se misturam, decide colar uma série de avisos na área próxima onde a carteira fora perdida, com o objectivo de a devolver a quem provasse ser a sua legítima proprietária. Esta decisão, que na altura nos parece algo estranha embora natural e louvável, podia colocar um ponto final no assunto com a pura e simples devolução que realmente acaba por acontecer. Mas, pelo contrário, em vez do caso ficar encerrado no círculo familiar, esta boa acção irá ser aproveitada para erguer junto da opinião pública um movimento de simpatia pela sua atitude, atribuindo-lhe rapidamente o estatuto de herói. Mesmo na cadeia, para onde regressa depois de expirada a licença, será saudado como alguém que merece a melhor atenção pelo superior exemplo de civilidade e altruísmo, e serão mesmo as autoridades prisionais a promoverem o seu nome, convocando os órgãos de comunicação e incitando Rahim a contar a sua história aos sete ventos. De súbito, Rahim vê-se obrigado a repetir uma e outra vez a narrativa do seu feito apelidado de heróico, com o detalhe que a imprensa em busca de emoções gosta de polarizar. Disponibiliza-se assim para as reconstituições do que sucedera, para a explicação do modo como fora encontrada a carteira e para as razões que o levaram a optar pela devolução, ou seja, mil e um elogios acompanhados de mil e uma entrevistas… só que essas não se resumem apenas ao contributo de Rahim, mas igualmente aos que pelos quatro cantos da cidade o promoviam. No meio deste circo mediático, o improvável herói, não obstante a agitação gerada pelos acontecimentos, irá manter um certo low-profile nas relações que estabelece com os outros, mesmo quando algumas personagens se mostram agressivas ou intolerantes, sobretudo quando se apercebem que ele não consegue reunir o montante que o podia salvar da prisão. Mas, para dificultar o que já se perfilava difícil, começam a surgir nas redes sociais dúvidas sobre a idoneidade de Rahim, algumas com fundamento e outras que não passam de provocações. Deste modo, a narrativa que inicialmente defendera vai ser retocada e objecto de voltas e reviravoltas de forma a adaptar-se a um conjunto de situações impostas por aqueles que, em vez de o louvarem, o condenam com base em preconceitos, procedimentos de natureza burocrática sem um mínimo de compaixão humana, pressões assumidas com o mais devastador cinismo, atitudes especialmente alimentadas por aqueles que prometeram ajudar Rahim e no fundo acabaram por encosta-lo contra as cordas de um combate viciado onde os interesses privados rapidamente se sobrepõem aos valores humanos da solidariedade. Mesmo o auxílio monetário obtido num grande evento de caridade acaba por lhe ser retirado por o considerarem agora um anjo caído. No final, Asghar Farhadi filma o regresso de Rahim a uma reclusão que sentimos ainda mais brutal do que antes, por não corresponder a qualquer perspectiva real de redenção ou justiça. Regressa um homem derrotado, fisionomicamente mudado. E não deixa de ser perturbador que o faça numa aparente resignação de alguém pacificado consigo próprio e o mundo, o que não soube ver ou não quis ver o verso e o reverso da sua personalidade, a razão de ser dos seus anseios, dos seus sonhos e pesadelos e, sim, de algumas das suas falhas, ou seja, a verdadeira natureza do homem face ao que acabou por ser uma redutora manipulação de aparências.

Um Herói
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Para esta narrativa se manter forte e credível ao longo dos seus vibrantes 127 minutos, o argumento fez com que a construção do herói se faça sempre contra a sombra que paira sobre Rahim, uma sombra desenhada pela presença cíclica do seu antagonista, o cunhado a quem deve o dinheiro. Deste modo, aquela personagem meio odiosa mas igualmente coerente e realista, nomeadamente quando questiona se faz algum sentido dar valor a alguém por este fazer apenas e só o que lhe competia, permite ao realizador desenhar para Rahim um percurso de cambiantes ambivalentes. Sem dúvida, uma das componentes maiores deste filme encontra-se na meticulosa filigrana da planificação e no modo como esta corresponde a um conjunto de sequências onde a Direcção de Fotografia cumpre na perfeição a multiplicação dos espaços que os actores, magníficos actores, preenchem com a exacta noção da sua importância no plano e respectivo enquadramento, proporcionando ao espectador múltiplas leituras e diferentes interpretações do que se vê e do que fica oculto fora de campo. Nesse aspecto, a sequência final devia ser estudada uma e outra vez em qualquer escola de cinema digna dos seus pergaminhos. Mais, o rigor da encenação permite dar-nos a ver nas movimentações do protagonista aquilo que se adivinha na crueza do seu verdadeiro rosto de homem acossado. Por isso, será com surpresa mitigada que damos conta da reacção violenta de Rahim quando decide não autorizar a exploração da imagem do filho surdo numa publicação destinada, mais uma vez, a gerar nas redes sociais uma meia verdade e uma meia mentira de que ele e a sua família seriam os menos beneficiados.

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E permitam-me só mais um parágrafo para destacar a prestação exemplar de Amir Jadidi. Não posso deixar de sublinhar a prestação deste grande actor na complexa gestão da personagem protagonista. No seu corpo frágil sentimos as cicatrizes existenciais de um homem do povo e, quase que aposto, o realizador escolheu-o para subliminarmente falar de outras coisas que o atormentam enquanto cidadão iraniano e do mundo. No seu rosto sentimos claramente o misto de inocência e bondade que saberemos não ser imune ao jogo de máscaras que se vê obrigado a jogar. Reparem bem nos seus sorrisos velados, no seu olhar de cabeça ligeiramente descaída, no ritmo das palavras que usa com precisão cirúrgica, nos seus silêncios que gritam por socorro. E vejam como ele consegue ser uma coisa e o seu contrário, por exemplo, na cena de pancadaria na loja do cunhado. Magnífico actor e magnífica Direcção de Actores.

Um Herói, em análise
Um herói Poster

Movie title: Um Herói

Date published: 2 de March de 2022

Director(s): Asghar Farhadi

Actor(s): Amir Jadidi, Mohsen Tanabandeh, Sahar Goldust, Fereshteh Sadre Orafaiy, Sarina Farhadi, Ehsan Goodarzi

Genre: Drama, 2021, 127 min

  • João Garção Borges - 90
  • Maggie Silva - 90
  • José Vieira Mendes - 80
87

Conclusão:

PRÓS: Excelente planificação, protagonistas e secundários magistralmente realizados, Direcção de Fotografia compatível com o perfeito domínio da realização e escrita do argumento e, claro está, uma matéria fascinante em que homens e mulheres não se apresentam como simples bonecos unidimensionais, sem alma ou razão de ser. Este herói improvável e multifacetado será vítima da exposição deliberada e manipuladora que o catapultou para um falso patamar de figura pública, mas não está igualmente isento de culpas no cartório e no destino que deu para a sua vida. Seja como for, o seu momento de glória, o que faz dele, mais do que um herói, um super-herói, acaba por ser o gesto maior que assume ao defender o filho e a família com o sacrifício da sua liberdade.

CONTRA: Nada. Pena não aparecerem filmes assim com mais frequência.

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