"Um Passado em Segredo" | © NOS Audiovisuais

Um Passado em Segredo, em análise

Michelle Williams e Julianne Moore protagonizam “Um Passado em Segredo”, um remake americano de um filme dinamarquês de 2006 que foi nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro.

O termo melodrama não é necessariamente associado a significados pejorativos, por muito que a crítica atual possa sugerir tais realidades. Na esfera do cinema, inúmeros são os triunfos artísticos a que se pode inequivocamente chamar de melodrama. De facto, há autores que dedicaram toda a sua carreira a esse tipo de narrativa, edificando um subgénero onde a emoção pura se sobrepõe à tirania do enredo e onde o espaço doméstico se torna num campo de batalha. Douglas Sirk tipificou os excessos do género num ambiente suburbano e, mais tarde, Rainer Werner Fassbinder viria subverter os seus códigos numa série de filmes a que se poderia justamente chamar de melodramas revisionistas. Esses são apenas dois exemplos entre muitos outros.

Até as audiências contemporâneas parecem continuar sedentas por bons melodramas, mas os gostos modernos impedem-nos de classificar assim alguns sucessos, não vão as pessoas pensar que os denegrimos. Por exemplo, veja-se o triunfo melodramático que é o “Assim Nasceu Uma Estrela” de Bradley Cooper. Tudo isto para dizer que o melodrama é algo precioso e que os seus excessos lacrimosos não têm necessariamente de ser associados a uma falta de qualidade. “Um Passado em Segredo” é um desavergonhado melodrama e, para muitos, isso será um terrível pecado do qual o filme nunca recupera. Por aqui, contudo, diríamos que o brio melodramático é a maior qualidade de todo o projeto.

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“Um Passado em Segredo” é um remake de “Efter brylluppet”, uma obra da dinamarquesa Susanne Bier que, em 2006, conquistou a nomeação para o Óscar de Melhor Filme numa Língua Estrangeira. Além de as identidades nacionais se terem transfigurado para este remake americano, muitos outros detalhes da narrativa sofreram iguais mutações. Talvez o elemento mais notório seja mesmo a mudança de género que ocorreu com as três personagens principais. Quem era homem tornou-se mulher e a grande figura feminina do filme anterior virou homem nesta trama americanizada.

Michelle Williams interpreta Isabel, um papel outrora dado a Mads Mikkelsen. Quando a conhecemos, ela é uma idealista que tem vindo a dedicar a última década da sua vida ao trabalho caridoso num orfanato indiano. Nessa mesma instituição ela tem vindo a ser a principal figura maternal para muitas crianças, incluindo para o pequeno Jai que ela vê como seu filho. Apesar da dedicação de muitos voluntários como Isabel, o orfanato precisa de fundos e a bonança parece estar no horizonte quando se ouvem notícias de Nova Iorque. Parece que uma milionária da indústria da publicidade planeia doar milhões à causa. A sua única exigência é que Isabel viaje até à capital económica norte-americana para lhe apresentar o projeto em pessoa.

Relutante, mas empenhada, Isabel lá viaja até Nova-Iorque, onde planeia reunir-se com a afortunada Theresa e assim garantir a doação. Julianne Moore dá vida a esta filantropa que, em 2006, foi interpretada por Rolf Lassgård. Ela é uma pessoa jovial e rigorosa, uma mãe extremosa que está a organizar o matrimónio da filha mais velha e uma empresária de sucesso que conquistou a admiração de muitos. Para Isabel, contudo, Theresa é boa demais para ser verdade e estabelecem-se logo os parâmetros para uma relação de desconfiança entre as duas protagonistas do filme, cujo desequilíbrio de poder é sentido desde o primeiro momento em que as duas partilham a cena. Apesar de sorridente e amistosa, Theresa detém em si a capacidade para arruinar ou salvar a vida de centenas de crianças necessitadas.

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Tirando géneros e identidades nacionais, tudo isto se assemelha muito ao filme dinamarquês. Tal como a obra de Bier, o remake de Bart Freundlich vê a milionária a convidar a voluntária para o casamento da filha, onde o drama começa a desabrochar em toda a sua complicada glória. Na primeira de muitas reviravoltas, Isabel apercebe-se que conhece o marido de Theresa e que é bem possível que mais do que o acaso a ligue à noiva das festividades. Mais não revelaremos, mas fica a promessa que a situação em que as personagens se encontram é de inimaginável complicação emocional e os sentimentos explodem em lágrimas e raiva, em confusão e loucura.

É uma explosão contida, no entanto. De facto, um dos aspetos mais admiráveis de “Um Passado em Segredo” é o modo como a sua narrativa sentimental é encarada com rigoroso realismo por parte dos atores. São poucos os acessos de gritos e quando ocorrem, fazem-no depois de muitas cenas de contenção estoica. Bart Freundlich efetivamente desafia o seu elenco a encarar uma premissa sensacional com humanismo e respeito, examinando o modo como adultos inteligentes lidariam com situações impossíveis. O resultado emociona e faz pensar, brota lágrimas, mas também exige aplausos para o feito extraordinário do elenco.

O que Michelle Williams consegue fazer com o tremer do lábio e o cerrar dos olhos é certamente digno de uma valente salva de palmas. A atriz sempre brilhou em propostas minimalistas que se focam mais em reações humanas que em propulsão narrativa, mas o seu trabalho neste filme consegue surpreender mesmo assim. Longe de fazer do melodrama uma explosão, Williams decide implodir e a sua subtileza paga dividendos quando chegamos ao final da história e nos apercebemos do quanto conhecemos Isabel, suas dores e angústias, seus valores e seus arrependimentos. Moore, que também produziu o filme e é casada com o realizador e argumentista, é estupenda também, mas o seu papel é necessariamente mais ambíguo que o de Williams. Tirando um golpe final de dor lacerante, a atriz tem poucas oportunidades para brilhar em todo o seu esplendor.

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O trabalho de todo o elenco é notável e mais notável ainda é o modo como o remake americano limpa o aspeto de thriller que o original dinamarquês ocasionalmente exibia. Esta é a história de pessoas intrinsecamente boas a lidarem com dramas terríveis e terrivelmente dolorosos. Não há vilões e não há heróis, só há dor que afeta todos. Infelizmente, também não há grande aprumo formalista, sendo que, com exceção de alguns gestos sagazes de montagem, “Um Passado em Segredo” é pouco mais que uma montra para o talento dos atores. Mesmo assim, não obstante as limitações evidentes, trata-se de um belo melodrama, do tipo que gostaríamos de ver com mais regularidade nos cinemas.

Um Passado em Segredo, em análise
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Movie title: After the Wedding

Date published: 2019-10-20

Director(s): Bart Freundlich

Actor(s): Michelle Williams, Julianne Moore, Billy Crudup, Abby Quinn, Will Chase, Susan Blackwell, Vir Pachisia

Genre: Drama, 2019, 112 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

“Um Passado em Segredo” é um desavergonhado melodrama que funciona melhor como uma montra para o talento do elenco, do que como um grande feito de arte audiovisual. Bart Freundlich não é Douglas Sirk, mas, mesmo assim, admiramos o seu trabalho neste remake que quase consegue superar o original.

O MELHOR: A prestação de Michelle Williams.

O PIOR: A displicência formal.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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