United States of Love, em análise

Em United States of Love, o desespero de quatro mulheres atormentadas pelas angústias do amor e do desejo erótico serve como sinédoque para o estado da Polónia pós-soviética.

united states of love critica

Não é muito difícil imaginar um assíduo espetador de cinema europeu que, vendo a primeira cena de United States of Love, conclua que está a assistir a um filme romeno e não uma obra polaca. Aliás, a maneira como este momento de refeição está composto e gravado, num só plano geral, parece ser uma direta cópia do que o realizador Cristian Mungiu fez em 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, uma das mais famosas obras do movimento do Novo Cinema Romeno.

A proximidade formal entre os dois projetos não é nenhum mero acaso pois, para filmar United States of Love, o realizador polaco Tomasz Wasilewski contratou o diretor de fotografia Oleg Mutu que, entre muitos outros filmes romenos, foi responsável pela já referida obra-prima de Mungiu. A sua técnica e abordagem são aqui quase idênticas, a não ser no registo cromático pois, ao invés de almejar a um aspeto naturalista, United States of Love é um filme de tons irrealisticamente gélidos que fazem com que todos os seres humanos em cena pareçam corpos acinzentados, exangues e sem vida.

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Por muito feias e desconcertantes que estas escolhas visuais possam ser, é fácil perceber a intencionalidade do realizador que está a tentar representar a Polónia no início dos anos 90 não como um país cheio de esperança depois da dissolução da União Soviética, mas sim uma nação congelada na angústia da mudança incerta. Para ilustrar isto, United States of Love escolhe quatro figuras femininas presentes na cena de refeição inicial. Todas elas vivem no mesmo bloco de apartamentos, mas o entrelaçamento das suas vidas vai muito além de simples coincidências residenciais. Estas são mulheres que vivem num crónico estado de desapontamento existencial, estando também afogadas no desespero alimentado pelo amor, ou melhor pela obsessão que parece germinar de impulsos eróticos reprimidos.

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A primeira destas mulheres a ser explorada pelo filme é Agata, que é casada com Jacek e tem uma filha adolescente. Nesta secção do filme a face severa da atriz Julia Kijowska é quase tão examinada pela câmara como o seu corpo, sendo que corpos nus e despidos de qualquer erotismo enchem esta passagem, desde casuais cenas na casa-de-banho a interações sexuais entre Agata e Jacek que são desprovidas de paixão e tornadas em espetáculos de grotesca copulação pela perspetiva clínica do realizador. Neste aspeto, United States of Love é tão reacionário que parece estar a transformar-se numa paródia do cinema realista europeu e sua tendência para representar sexo sem nenhuma sensualidade, mas o tom é demasiado sério para tais possibilidades satíricas. Aqui, o sexo é uma expressão do desespero infindável de Agata que nutre uma obsessão debilitante por um padre, sufocando-se a si mesmo com os seus desejos proibidos.

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A segunda mulher a dominar a narrativa é Iza, a diretora da escola local que é interpretada com imaculada sobriedade por Magdalena Cielecka. Para além do seu trabalho, a vida dela parece centrar-se numa relação amorosa com um médico que, para além de ser o pai de uma das estudantes de Iza, ficou recentemente enviuvado. O caso já dura há anos e as chamas da paixão há muito se extinguiram, pelo menos do lado do homem que olha com desprezo para os afetos obsessivos da mulher. Numa das cenas mais dolorosas do filme, depois de Iza dizer que faria tudo pelo amante, este abre a janela do apartamento da reitora e diz-lhe para se atirar da janela se tanto o ama.

Depois temos Renata, uma professora na escola de Iza que foi recentemente demitida. Sem o seu emprego, ela está mais sozinha que nunca, sendo que a sua única companhia parecem ser os pássaros que ela deixa voarem livres pelo interior do seu encafuado apartamento. Eventualmente, a atenção da antiga professora começa a prender-se a Marzena, a irmã de Iza que em tempos foi uma rainha de concursos de beleza mas que agora é uma instrutora de dança que vive sozinha e tem o marido a viver no estrangeiro.

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Eventualmente, a história destas duas mulheres tem um final trágico e doloroso, mas antes disso o filme mostra-nos alguns dos seus mais belos momentos, incluindo uma cena em que Renata observa Marzena a ensinar a valsa e acaba por se juntar a ela. Quando as duas dançam no meio dos outros casais em fatos formais e vestidos de noiva, há algo de reticente na expressão de Renata que parece estar mais feliz do que alguma vez a vimos antes da sua expressão cair como que em antecipação do fim do momento e da efemeridade da sua alegria.

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Mais momentos como a valsa e a sua modulação tonal seriam muito apreciados, tendo em consideração quão constante e entediante todo o registo emocional do filme acaba por ser. De certo modo, isto é justificável pelas ideias que o realizador quer transmitir sobre o seu país, mas, noutra perspetiva, esta invariabilidade resulta em personagens que são mais símbolos que pessoas. O quarteto de mulheres torna-se assim num grupo de sacos de carne que existem somente para sofrer e serem manipuladas pelas exigências concetuais do argumento sem qualquer tipo de natureza orgânica latente ao seu desenvolvimento. Apesar de ser um filme parcialmente sobre o poder arrebatador e destrutivo de desejos e paixões subvertidas, United States of Love é um exercício frígido e demasiado calculado para o seu próprio bem, tanto a nível textual como formal.

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Pior ainda é o modo como o filme desenrola as narrativas paralelas através de desconexões temporais que nos roubam a oportunidade de testemunhar as consequências dos momentos mais chocantes do enredo. Assim, parece que o objetivo de Wasilewski é simplesmente chocar o espetador burguês e nunca o fazer refletir, traindo o que quer que o próprio realizador quisesse revelar sobre a sociedade e a história do seu país. O efeito final desta obra é a insatisfação epicúria e intelectual. Por muito que tente emular o seu estilo, Wasilewski não é Mungiu e United States of Love, apesar de ter ganho um prémio na Berlinale de 2016, está longe de ser um filme tão bom como o vencedor da Palme d’Or de 2007.

 

United States of Love, em análise

Movie title: Zjednoczone stany milosci

Date published: 4 de June de 2017

Director(s): Tomasz Wasilewski

Actor(s): Julia Kijowska, Magdalena Cielecka, Dorota Kolak, Marta Nieradkiewicz, Lukasz Simlat, Tomasz Tyndyk

Genre: Drama, 2016, 106 min

  • Claudio Alves - 55
  • José Vieira Mendes - 70
63

CONCLUSÃO

United States of Love é um projeto com mérito, especialmente no que se refere à sua examinação da Polónia durante a alvorada de uma nova realidade pós-soviética, mas, no final, é um filme demasiado reacionário e preso a fórmulas e estéticas que esvaem a vitalidade humana da narrativa trágica no centro desta obra.


O MELHOR:
Para além do impecável trabalho de figurinos, cenografia e maquilhagem, as quatro atrizes principais também se saem muito bem, mesmo que não consigam, por completo, redimir as lacunas e natureza esboçada das personagens presentes no texto.


O PIOR:
A fotografia glacial, desconfortável e demasiado apática para uma narrativa assombrada por emoções tão voláteis e violentas como esta.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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