O Ilustre Cidadão, em análise

O Ilustre Cidadão, uma deliciosa comédia negra argentina, ganhou o prémio para Melhor Ator no Festival de Veneza do ano passado e agora chega aos cinemas portugueses.

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O Ilustre Cidadão, o mais recente filme dos argentinos Gastón Duprat e Mariano Cohn, começa de forma eletrizante. Mais especificamente, tem início com o seu protagonista, um celebrado escritor argentino chamado Daniel Mantovini, a receber o prémio Nobel da Literatura em Estocolmo. Nada disto implica uma abertura de grande valor cinemático ou de entretenimento, mas então Mantovini começa a falar e, ao invés de se mostrar grato e humilde como é costume neste tipo de cerimónia, as suas palavras estão cheias de desprezo e condescendência mal disfarçada. Para o escritor, o reconhecimento que a Academia Sueca lhe deu trata-se de uma incontestável prova de que o seu trabalho já não tem valor artístico, é uma confirmação do seu declínio enquanto criador.

A cereja no topo deste delicioso bolo de intransigência provocatória é o que Mantovini faz a seguir a terminar o seu discurso: ele coloca-se em frente aos membros da Academia e olha expectante para a audiência, até que estes começam a aplaudir e ele fica em pé sorridente e a banhar-se na adoração do seu público. A rebeldia antissistema deste artista é nada mais que uma comodidade para o jogo de fama e validação pública do protagonista. Assim termina o prólogo, a que se seguem cinco capítulos, o primeiro dos quais tem lugar cinco anos após o incendiário discurso do Nobel, em Barcelona onde Mantovini vive há décadas. Aí, encontramos o escritor laureado que, depois de recusar uma série de convites de inúmeras organizações internacionais, diz à sua fiel assistente que vai aceitar um pedido feito pela sua terra natal de Salas, cujo município o quer condecorar com a medalha de “Ilustre Cidadão”.

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Apesar de Mantovini ter usado a localidade que o viu nascer como fonte de inspiração e cenário para todos os seus romances, desde a sua juventude que ele não lá põe os pés. Mesmo quando os seus pais morreram, o escritor recusou-se a regressar à Argentina, permanecendo no continente europeu, onde todo o seu sucesso literário foi obtido. Refletindo sobre essa mesma realidade, o autor confessa à assistente que as suas personagens nunca puderam escapar de Salas, e ele, pelo contrário, nunca foi capaz de regressar. Pelo menos, foi assim durante décadas, até que um impulso passageiro o levou de volta, talvez em busca da receção de um herói local e da adoração popular que, como vimos na primeira cena do filme, tanto alimenta o seu ego.

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Quaisquer ideias de glória heroica são logo postas à prova quando, ao invés de uma escolta imponente, Mantovini encontra uma carripana a cair aos bocados para o levar a Salas e, como não podia deixar de ser, a meio do caminho o automóvel para de trabalhar. O facto do autor ter recusado qualquer presença de imprensa ou a companhia da sua assistente apenas piora a situação e ele e o seu companheiro de viagem são eventualmente obrigados a queimar os próprios livros do escritor para se aquecerem e a usá-los como papel higiénico. Chegado à localidade com um dia de atraso, Daniel acaba por ter a sua receção heroica, mesmo que o glamour possivelmente idealizado pelo espectador nada tem que ver com a miséria e ridículo saloio que marca todos os festejos à volta do escritor celebridade.

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O Ilustre Cidadão vai-se assim revelando como uma história de choque cultural entre o escritor cosmopolita e os crescentes ridículos e absurdos com que ele se depara em Salas. O estilo realista, quase documental na sua crua filmagem digital, que os cineastas habituados a projetos televisivos empregam apenas sublinha o potencial cómico do guião e o mesmo acontece com as prestações de quase todo o elenco que se mantêm na precária corda bamba entre o naturalismo e a caricatura. Pelo menos esse é o equilíbrio que orienta o filme até uma hostil confrontação durante o julgamento de um concurso de pintura local, em que finalmente o filme traça claras linhas de batalha entre o seu protagonista intelectual e a comunidade regida por favores, cunhas, costumes antiquados, gostos conservadores, conformismo cultural e outros tantos vícios e defeitos que Mantovini observa com indignação elitista.

Desse modo, O Ilustre Cidadão deixa de ser uma comédia ligeira para se assumir como uma sátira fortemente política da sociedade argentina, aqui representada no microcosmos de Salas. Mais do que uma paródia da Hollywood dos anos 30, a narrativa do filme vai-se aproximando de modelos dramáticos como, por exemplo, A Visita de Friedrich Dürrenmatt e suas venenosas observações sociais sobre mesquinhez comunitária, a incapacidade de pessoas aceitarem o conceito de mudança e até sobre a corrupção que floresce entre locais como este. Mas o argumento desta obra não deixa que o seu olhar crítico incida somente sobre o povo provincial, também vendo com algum moralismo a figura indulgente de Mantovini que se está sempre a contradizer e cujas obras efetivamente minam Salas e sua comunidade como inspiração para obras aparentemente focadas em vícios humanos.

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A certa altura, durante uma das palestras do escritor, uma senhora pergunta por que razão ele não escreve coisas bonitas. Podemo-nos rir da questão e nela encontrar provas de modos de vida conformistas e gostos filistinos, mas também há nessas palavras a implícita crítica este autor que delicia os académicos europeus com os seus relatos de miséria nas distantes comunidades rurais da Argentina.

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Muitos críticos internacionais parecem ter ignorado quão o filme é uma espada de dois gumes, vendo nele somente uma comédia feita ao custo da dignidade do povo provinciano de Salas. No entanto, é difícil de ignorar quão o epílogo do filme paralela o seu prólogo, mostrando-nos, mais uma vez, como Daniel Mantovini está pronto a explorar polémica e denegrir Salas se isso lhe garantir fama, respeito e a notoriedade visualmente sintetizada nos flashes frenéticos de câmaras fotográficas.

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Nem que fosse só pelo seu sorriso ambivalente aquando destes últimos instantes de O Ilustre Cidadão, o famoso Oscar Martinez teria plenamente merecido o prémio de Melhor Ator que ganhou no Festival de Veneza do ano passado. Mas, para além disso, a sua gloriosa prestação engloba todo os momentos do filme, servindo de âncora à mirabolante sátira que orbita à volta deste escritor honrado com o Nobel.

O Ilustre Cidadão, em análise
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Movie title: El ciudadano ilustre

Date published: 4 de June de 2017

Director(s): Gastón Duprat, Mariano Cohn

Actor(s): Oscar Martínez, Dady Brieva, Andrea Frigerio, Nora Navas, Manuel Vicente, Marcelo D'Andrea

Genre: Comédia, Drama, 2016, 118 min

  • Claudio Alves - 80
  • José Vieira Mendes - 85
83

CONCLUSÃO

O Ilustre Cidadão é uma deliciosa comédia negra e fortemente satírica que nos oferece uma visão muito crítica da sociedade argentina contemporânea ao mesmo tempo que nos exibe um dos grandes guiões e desempenhos cómicos do ano passado.

O MELHOR: A prestação de Oscar Martinez.

O PIOR: Uma coincidência terrivelmente convoluta em relação ao inesperado encontro sexual com uma rapariga muito mais jovem que o escritor e a figura do seu namorado que é, sem sombra de dúvida, a figura mais estupidamente caricaturada do filme.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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