Laetitia Tamko, Vagabon (foto de Tonje Thilesen)

Vagabon anuncia novo álbum e lança “Flood Hands”

Laetitia Tamko vai finalmente lançar o sucessor de seu grande disco de estreia. All the Women in Me nasceu de “Flood Hands”, que vem apropriadamente na sua dianteira.

All the Women in Me segue-se ao álbum de estreia Infinite Worlds (2017) de Laetitia Tamko, mais conhecida pelo nome do seu projecto Vagabon. Vai ser lançado no dia 27 de Setembro por meio da Nonesuch Records, de cujo catálogo consta agora esta nova-iorquina de Brooklyn, originária dos Camarões. O anúncio de All the Women in Me vem acompanhado do seu single principal, que podes ouvir abaixo e não só exemplifica paradigmaticamente a direcção sonora do novo álbum como desempenhou um papel importante na sua criação.

Depois da sua revelação ao mundo com o criticamente aclamado (incluindo por nós) Infinte Worlds, álbum onde intimismo e guitarras salientes se fundem na melhor tradição do indie, Vagabon sentiu toda a pressão de abandonar o seu trabalho como engenheira elétrica e informática, passar a viver da música, ter o olhar do mundo sobre si e um contrato para cumprir com uma nova e maior discográfica. Seguiu-se um bloqueio de escritor: “Estava orgulhosa de me ter tornado música a tempo inteiro e reconhecia quão raro isso é, mas estava também debilitada por esse mesmo facto. O medo apoderou-se de mim e não conseguia compor. Senti-me a estagnar e insegura do que fazer a seguir.” Laetitia Tamko explica o contributo dado pelo single principal “Flood Hands” para desfazer este bloqueio.

“Flood Hands” é um tema cujos arranjos e produção comecei por fazer para o álbum de um duo pop muito conhecido. Saber que estava a compor esta canção para músicos que admiro aliviou o meu bloqueio de escritor. Usei esta tarefa como uma oportunidade para exercitar os músculos de produtora e compor uma coisa que não teria escrito enquanto Vagabon, há uns anos atrás. De tal maneira senti o resultado como um triunfo na minha evolução como artista que, pura e simplesmente, não me consegui separar da canção quando a terminei.

A ansiedade acabou por se desvanecer e foi substituída por um recém-conquistado sentido de liberdade, com Vagabon a pensar menos na pressão da indústria e mais no aperfeiçoamento da sua arte de compositora e produtora. O novo álbum All the Women in Me vê Laetitia Tamko seguir a pista aberta por “Flood Hands”, afastando-se das melodias à base de guitarra que caracterizavam o disco de estreia e criando agora canções que fundem arranjos analógicos e digitais. No novo álbum esboroam-se as fronteiras bem delimitadas do indie rock original, com inflexões pop e R&B ou da música africana ocidental do Mali, por exemplo, a expandir a sua sonoridade até impossibilitar qualquer rotulação.

Por um lado, esta nova direcção deve-se a Tamko só ter tido acesso, durante o tempo de digressão, ao computador e ao programa Logic, que a levaram a “compor canções eletronicamente com o que tinha à mão”. Por outro lado, sente-se o peso de certas influências sonoras: “A preponderância da bateria e da voz em All the Women in Me vem da minha estima pelo rap e pela produção hip-hop, bem como por R&B e a narração folk de histórias. Foi essa a música que me levou de novo a entusiasmar pela composição”.

Vagabon - All the Women in Me - Flood Hands
Capa de All the Women in Me

A faixa que dá o título ao álbum inspirou-se num poema de Nayyirah Waheed, “All the women in me are tired”, e, apesar de situada já quase no final do álbum, funciona como uma declaração de intenções, um hino por todos os marginalizados: “Neste caso, “mulheres” não tem a ver com o género, mas é uma variável para todos os que nem sempre são bem-vindos ou protegidos. A canção existe para que todos nos vejamos e encontremos uns aos outros.”

E Laetitia Tamko recorda a intenção de fundo que atravessa o seu projecto: “O lar foi sempre um grande tema da minha música e, quando digo que faço música para os ostracizados, também estou a falar dos que se sentem longe de casa ou desconfortáveis onde se encontram. Para mim, o lar não é tanto um espaço físico quanto um estado mental. Estou a escrever sobre sentir-me segura e em casa no meu corpo e na minha mente, e na comunidade para a qual migrei. Quero que Vagabon seja um projecto com o qual as pessoas que procuram o mesmo se possam relacionar.”

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Não há dúvida de que “Flood Hands” nos devolve uma Vagabon mais uma vez desterrada da sua zona de conforto, a viajar por territórios estranhos que a sua personalidade intensa e inconfundível transfigura até converter em novo lar: “I know, even if I run from it I’m still in it”. É impossível escapar de nós próprios e, para onde quer que vá, este pequeno peixe sempre fora de água que é Laetitia Tamko levará consigo aquilo à luz do qual tudo será reconfigurado.

Mas o contrário também é verdade e vemos a nossa viajante absorver, até à familiaridade, as novas paisagens por onde deambula. Se os graves continuam a marcar presença no projecto Vagabon, como acontecia em “Cold Apartment”, estes chegam agora já não por via do pós-punk mas do dub e hip-hop. Em “Flood Hands”, a potente voz de contralto de Tamko ressoa melódica por todo o espaço sonoro, primeiro apenas sublinhada por uma suave produção. Até ao momento em que a percussão entra ribombante e cavernosa e a textura dos sintetizadores se adensa, envolvendo e dando corpo ao desejo que vibra exasperado na voz e nos versos.

VAGABON | “FLOOD HANDS”

ALL THE WOMEN IN ME | Alinhamento do álbum

  1. “Full Moon In Gemini”
  2. “Flood Hands”
  3. “Secret Medicine”
  4. “Water Me Down”
  5. “In A Bind”
  6. “Wits About You”
  7. “Please Don’t Leave The Table”
  8. “Home Soon”
  9. “All The Women”
  10. “Full Moon In Gemini (Monako Reprise)”

Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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