Os 25 Melhores Álbuns de 2017 | 25 – 11

Em tempos difíceis vem ao de cima a boa música que há em nós. Estes são os 25 Melhores Álbuns de 2017, que nos ajudaram, aqui na MHD, a ver como há sempre vida a latejar. 

Não há dúvida que chegamos ao fim deste ano mais exigentes do que começámos. Por todo o lado, fizeram-se ouvir grandes vozes, novas e antigas, todas elas com alguma coisa a dizer num mundo que parece estar (ou esteve mesmo) a arder. Daqui não se volta atrás e, por isso, à altura destes nomes com que fechamos 2017, só mesmo esses nomes a abrir os festivais de 2018.

Começamos hoje a contagem decrescente dos melhores álbuns de 2017, que, subitamente ou sem que disso nos apercebêssemos, se apoderaram do nosso coração. Sem mais delongas, eis os primeiros conquistadores.

 

Melhores Álbuns 2017
Jay Som, Everybody Works

25. Jay Som, Everybody Works (Polyvinyl, 10 Março 2017)

Melina Duterte termina cantando “I’ll be right on time / Open blinds for light / Won’t forget to climb”. Tinha toda a razão. Aqui está a sua obra a iluminar-nos, discreta mas galhardamente, o ano que passou, a partir do cume a que chegou. Entremos no espaço íntimo de onde, divertindo-se entre os instrumentos, nos fala. Com a dócil segurança de uma mulher. (MPA)

Incontornáveis: “The Bus Song”, “1 Billion Dogs” e “Everybody Works”

 

Do May Say Think, Stubborn Persistent Illusions

24. Do Make Say Think, Stubborn Persistent Illusions (Constellation, 19 Maio 2017)

Uma das mais lendárias bandas de pós-rock, associada à igualmente lendária editora canadiana Constellation, regressou com uma versão da sua sonoridade, felizmente familiar (para quê mexer no que está bem?), mas com uma urgência nova. Uma perene mobilidade agita-se no fundo, impelindo-nos para diante, num percurso operático feito de temor, espanto e inquieta serenidade. Para quem aceita fazer a viagem. (MPA)

Incontornáveis: “Horripilation”, “Bound”/”And Boundless”, “Her Eyes on the Horizon”

 

melhores álbuns de 2017
Jlin, Black Origami

23. Jlin, Black Origami (Planet Mu, 19 Maio 2017)

Toda a força deste disco, e da sua autora, está na personalidade única dos polirritmos que dão identidade às canções. Poderiam falar daquela África de que primitivamente vieram (e falam), se não falassem sobretudo da Chicago industrial de onde veio Jlin e do mundo futuro para onde caminhamos. Ou será dançamos? A questão é só mesmo como. (MPA)

Incontornáveis: “Holy Child”, “Nyakinyua Rise” e “Challenge (To Be Continued)”

 

Alvvays, Antisocialites

22. Alvvays, Antisocialites (Polyvinyl / Transgressive, 8 Setembro 2017)

Os Alvvays expandiram a sua complexidade sonora para um outro nível neste follow-up do seu primeiro álbum, com título homónimo. Em “Antisocialities”, a voz Molly Rankin voa sempre mais alto, alicerçada em ritmos dignos de serem ouvidos numa intensa roadtrip ou numa ruidosa pista de dança. E tudo isso é possível, mesmo que os poemas que se escondem nas melodias estejam envolvos num negrume pouco habitual no género. “Antisocialites” situa-se algures entre o shoegaze romântico e o pop luminoso, e tem também lugar na nossa seleção de melhores álbuns do ano. (DR)

Incontornáveis: “Dreams Tonite”, “In Undertow”e “Forget About Life”

 

Julien Baker, Turn Out the Lights

21. Julien Baker, Turn Out the Lights (Matador, 27 Outubro 2017)

A jovem Julien Baker escreve sobre as suas dependências e doenças mentais, sobre as suas crises de fé, sobre a sua sexualidade e sobre o seu papel no mundo cruel que habita. E o pathos de Baker está bem marcado no seu segundo registo discográfico, “Turn Out the Lights”, um disco que aparenta ser melodicamente monocórdico, mas que nos transporta para uma espiral de incomensuráveis sentimentos de que dificilmente nos conseguimos desatar. Em “Turn Out the Lights”, o que se sente é muito mais do que aquilo que se escuta. Não é essa a definição de música, afinal de contas? (DR)

Incontornáveis: “Appointments”, “Turn Out the Lights”, “Sour Breath” e “Happy to Be Here”

 

Emma Russack, Permanent Vacation

20. Emma Russack, Permanent Vacation (Deaf Ambitions, 25 Agosto 2017)

Adorada por alguns e injustiçada pela maioria, a australiana (Narooma) Emma Russack repete com este seu segundo longa duração aquele paradoxo reservado aos melhores – um pleno de espontaneidade lírica e simplicidade instrumental, transforma-se numa obra altamente sensorial e riquíssima do ponto de vista musical. Servido por uma produção certa, adequada e nada sofisticada, Permanent Vacation resulta num produto gourmet, de sabor requintado, da melhor colheita de 2017. (RR)

Incontornaveis: “Migration”, “Free Things”, “All My Dreaming”

 

melhores álbuns de 2017
Laurel, Halo Dust

19. Laurel Halo, Dust (Hyperdub, 23 Junho 2017)

Sediada em Berlim (em que outro sítio poderia estar?), a britânica Laurel Halo funde orgânico e digital numa colagem sonora estranhamente dançável, estranhamente emotiva. Este é um dos melhores álbuns de 2017, não porque tenha subjugado os corações dos contemporâneos, mas porque haverá corações em 2020 a descobri-lo quando já for tarde demais para lhe dar o prémio. Justiça seja feita. (MPA)

Incontornáveis: “Jelly”, “Moontalk”, “Syzygy” e “Do U Ever Happen”

 

Dirty Projectors, Dirty Projectors

18. Dirty Projectors, Dirty Projectors (Domino, 21 Fevereiro 2017)

Da mesma Brooklin que os National, mas dum quarteirão mais à frente, mais experimental, David Longstreth troca Amber Coffman, seu ex-guitarrista e vocalista, por Tyondai Braxton dos Battles e quase toca nas estrelas com as suas inconfundíveis harmonias vocais, ao serviço dum soul a capella, desafiado por um musculado drum and bass elegantemente pontuado por sintetizadores vintage, ou deliciosas evocações históricas. Éramos realmente tão mais felizes se este fosse o caminho do hip hop. (RR)

Incontornáveis: “Up In Hudson”, “Keep Your Name”, “Little Bubble”

 

Four Tet, New Energy

17. Four Tet, New Energy (Text Records, 29 Setembro 2017)

Contrariamente à sua tendência para desbravar sempre novos territórios na música ambiente e electrónica, Kieran Hebden revisita neste disco vários dos sons explorados em álbuns anteriores. Desde o tecno ambiental, o deep house, o neo-clássico abstracto e a música do mundo, a abrangência da sua palete sonora revela-se. E gera um universo auditivo que oscila entre faixas de disco dançáveis e temas introspectivos, ritmos infecciosos e melodias nostálgicas, ornamentados por amostras vocais espiraladas, drones, gravações de campo transfiguradas, que contribuem para a atmosfera expansiva deste disco. Um álbum que não pode senão sedimentar (como se fosse preciso) a reputação deste músico de pós-rock e produtor de culto. (MPA)

Incontornáveis: “Lush”, “You are Loved”, “SW9 9SL”, “10 Midi” e “Daughter”

 

Melhores Álbuns 2017
Kendrick Lamar, DAMN.

16. Kendrick Lamar, DAMN. (Interscope / Top Dawg Entertainment, 14 Abril 2017)

Quando Kendrick Lamar definiu o conceito por detrás de DAMN. como a impossibilidade de mudar o mundo sem se mudar a si próprio não podia saber (ou podia?) que este álbum mudaria pelo menos o nosso ano. 2017 não teria sido o mesmo sem a história que o rapaz de Compton aqui nos conta, cospe e canta. E que a sonoridade esparsa das batidas e linhas de baixo (desaparecida que é toda a ornamentação jazz) só faz ecoar mais sincera. (MPA)

Incontornáveis: “DNA”, “HUMBLE”, “LOVE. FEAT. ZACARI.” e “DUCKWORTH”

 

Vagabon, Infinite Worlds

15. Vagabon, Infinite Worlds (Father/Daughter Records, 24 Fevereiro 2017)

“I feel so small”, diz Laetitia Tamko. Não há razão para isso, bem pelo contrário. Estes só podem ser tempos de letícia para a jovem cantautora nova-iorquina, que assim se lança com um disco de debute discreto, mas onde o temor dá lugar à força. De uma personalidade que transparece em cada nota e em cada inflexão. Impossível não ouvir o futuro a vibrar, na intimidade de um interior que é tudo menos frio. (MPA)

Incontornáveis: “Fear & Force”, “Cleaning House” e “Cold Apartment”

 

The XX, I See You

14. The XX, I See You (Young Turks, 13 Janeiro 2017)

“Coexist” acabou por ser uma iteração atrás para a banda londrina, que em “I See You”, editado este ano, viaja pela primeira vez por sonoridades menos densas, mais expansivas e românticas. Neste terceiro registo, nomeado ao Mercury Prize, os The XX fogem do minimalismo e dos silêncios ensurdecedores que tanto os caracterizavam, e abraçam a luz, o amor e a juventude inquieta. “I See You” é a mensagem que os The XX querem transmitir ao seu público e a si mesmos: que depois de três álbuns, eles estão cá para ficar, que se observam mutuamente e que estão recetivos a que nós os vejamos a eles. (DR)

Incontornáveis: “I Dare You”, “Replica”, “On Hold” e “Seasons Run” (versão deluxe)

 

The Weather Station, The Weather Station

13. The Weather Station, The Weather Station (Paradise of Bachelors, 6 Outubro 2017)

Tamara Lindeman arriscou produzir ela este seu quarto álbum, e bem, porque as melodias dedilhadas da sua guitarra recebem aqui arranjos que as revestem robustamente. Abandonada a antiga delicadeza sonhadora, assumem agora uma assertividade e urgência novas, sublinhadas pela secção rítmica propulsiva e pela cadência veloz e impetuosa com que o material poético é imparável, fluidamente silabado. Paradoxalmente, o assunto é agora bem mais íntimo e doméstico, a relação com aquele que entretanto se tornou seu marido. E é aqui que Tamara se revela a notável narradora das mil e uma histórias que se escondem em cada gesto banal do quotidiano de quem ama. (MPA)

Incontornáveis: “Thirty”, “Kept It All to Myself”, “Impossible” e “The Most Dangerous Thing About You”

 

Novos Melhores Albuns 2017
Grizzly Bear, Painted Ruins

12. Grizzly Bear, Painted Ruins (Columbia, 18 Agosto 2017)

Decorridos cinco anos sobre o belo Shields, eis um quinto álbum num crescendo de criatividade e arrojo, entre um eminente caos e a mais bela das harmonias vocais coletivas, a sua eterna e inconfundível marca de água. Temas mais maduros e uma percussão por vezes próxima do jazz, mas sempre a mesma consistência, vigor, grande sentido de ritmo e beleza harmónica. (RR)

Incontornáveis: “Mourning Sound”, “Four Cypresses”, “Neighbors”

 

Father John Misty, Pure Comedy

11. Father John Misty, Pure Comedy (Sub Pop, 7 Abril 2017)

Em “Pure Comedy”, Josh Tillman conta a História do Homem, do princípio até ao horroroso ponto a que chegamos hoje. É, no fundo, uma visão inteligente e clínica sobre a sociedade, política, sexismo, religião, humanidade e existencialismo. Uma longa e palavrosa viagem pós-Trump que, entre uma ou outra tirada esperançosa, nos faz sentir quase sempre na pior porcaria que há à face da Terra. Father John Misty vê o Mundo e nós, através dos seu lirismo cínico, implacável e genial, vêmo-lo também. Um álbum que define a Humanidade do tempo presente e que será recordado mais tarde como tal. (DR)

Incontornáveis: “Pure Comedy”, “So I’m a Growing Old on Magic Mountain”, “Leaving LA” e “Total Entertainment Forever”

 


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Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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