Vaiana, em análise

Vaiana encanta-nos pelas suas expressões de cor e som e por apresentar uma princesa tão singular, que parte numa viagem de auto-descoberta. 

Desde que o brilhante (e provavelmente o mais encantador filme de animação de 2016) Zootrópolis estreou em fevereiro, que a Walt Disney Pictures não se cansou de divulgar imagens do seu mais recente projeto, Vaiana (Moana no título original). Com vários trailers e teasers, percebíamos que esta seria uma aventura sinónimo de espectáculo sensorial, além de ser a primeira vez que a Walt Disney navegava longe, para contar uma história desenrolada nas terras e mares da Polinésia há mais de dois mil anos (excepção clara para Lilo & Stitch, que já misturava de algo modo esses elementos).

De facto, não fomos enganados e Vaiana  comprova-se como uma longa-metragem exuberante em imagens digitalmente concebidas, aliando-se ao recente e eloquente grupo de filmes do estúdio como Força-Ralph (2012), Frozen: O Reino de Gelo (2013) e Big Hero 6 – Os Novos Heróis (2014). Desde logo, vale a pena referir que a proximidade de Vaiana a essas aventuras deve-se pela sua narrativa não estar prioritariamente orientada pelos caminhos dos interesses românticos entre uma dada protagonista e o seu príncipe encantado. Aliás, todos esses filmes são sobre o poder inigualável das amizades e que obstáculos as mesmas atravessam, sempre numa fórmula ‘mágica’ de apresentar as relações humanas às crianças.

Vaiana

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Com a voz da estreante Auli’i Cravalho (adolescente de 16 anos nascida no Havai, cujo nome tem origens portuguesas), Vaiana conta uma história dos povos da Polinésia dos seus hábitos quotidianos, além de cantar. O seu foco incide sobre uma princesa adolescente, filha do chefe de uma das ilhas paradisíacas, que sonha navegar pelos Mares do Sul e descobrir o que se encontra para lá da linha do horizonte, ou melhor, para lá da barreira do recife. No entanto, o seu pai proibi-a de se aproximar do mar, com receio de perder a única herdeira ao trono. Vaiana não deixa de ter o apoio da sua avó, a instigar-lhe recorrentemente auto-confiança na persistência pelos seus sonhos, prestes a tornarem-se realidade, no momento que a ilha é ameaçada por uma força misteriosamente obscura que consome os bens alimentares dos seus residentes. A heroína desta aventura é então levada para além da lagoa que circunda a ilha, a fim de recuperar a sua casa e com o objetivo de devolver o equilíbrio à Mãe Natureza.

Efetivamente, Vaiana aproveitar-se-á de grande parte dos elementos da Mitologia Māori, com a presença de monstros de todos os tamanhos e feitios, que perseguem a personagem principal para onde quer que navegue. Ademais, junta-se a presença do poderoso semideus Maui (voz de Dwayne Johnson a.k.a. The Rock), um fanfarrão arrogante com o corpo totalmente tatuado, que pode metamorfosear-se nas mais extraordinárias criaturas, cujos feitos são aclamados por multidões de humanos. Juntos e na companhia de Heihei, um galo francamente muito tolo, arriscam aquela jornada para salvar a ilha de Vaiana. Os dois, com uma química a prender os olhos do espetador ao grande ecrã, irão também trocar aprendizagens, e o que de técnico tem Vaiana a aprender, também muito de teoricamente humano e emocional tem Maui a controlar. Os contrapontos nesta amizade, que se constrói aos poucos, fazem-se nos momentos em que ambos correm riscos, como nas cenas de batalha e de escape face aos carismáticos vilões.

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Vaiana é uma aventura maioritamente gerada por CGI, com admiráveis paisagens que acarretam para consigo uma forte simbologia. Os momentos em que a personagem sonha, até aos minutos em que se pergunta interiormente ‘quem sou eu?’ ou ‘onde estou e para onde vou?’, Vaiana reenvia a aspetos que já haviam sido explorados pelo drama visceral e profundamente filosófico A Vida de Pi (preste atenção, por exemplo, ao momento em que durante a noite, uma raia surge brilhante por baixo da embarcação de Vaiana, como na sequência da baleia do filme de Ang Lee). Vaiana dispõe eficazmente de momentos alucinados de perseguição à la Mad Max: Estrada da Fúria (os sons dos tambores não enganam ninguém!) com a extravagante presença de piratas encapuzados com cocos. Outras partes do enredo não prescindem da animação tradicional como vemos através do Oceano – desenhado à mão com especial cuidado – ou ainda nas tatuagens que se movem pelo corpo robusto de Maui, contado a sua história de vida e também de um povo.

Tal acontece porque os realizadores de Vaiana, Ron Clements e John Musker (a animação é co-realizada por Don Hall e Chris Williams) são herdeiros da tradição na Disney. Aliás são eles os responsáveis por alguns dos icónicos projetos da casa como A Pequena Sereia (1989), Aladdin (1992), Hercules (1997) ou A Princesa e o Sapo (2009), decidindo claramente preservar a subtileza de alguns elementos, onde o digital poderia ser certamente mais arriscado. Vaiana merece ainda ovações por fugir a estereótipos, muito pelo contacto direto que a equipa técnica teve com os povos polinésios e pelo elenco ser nascido ou ter ascendência nesse povo tão vinculado às tradições. Verdade seja dita, estamos muito além de um filme sobre bonecos, que teriam somente um propósito comercial de merchandising, encontrando um especificidade dos corpos, todos eles com características muitos próprias, sempre em estado de fusão com os quatro elementos da natureza: água, terra, fogo e ar.

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Embora nessas manifestações de cor, luz, mar, praia, floresta, ambientes tipicamente idílicos, Vaiana sente-se num local estranho, face a muitas das adversidades que enfrenta no seu crescimento. Vaiana é uma protagonista feita à altura das raparigas (e porque não dos rapazes?) cujos sonhos têm muitas vezes de ser reduzidos ao tamanho de uma ilha, polarizados por forças exteriores pouco compreensíveis. Vaiana é por essa razão com filme moralmente interessante, posto que permite compreender que é necessário arriscar, e só depois fazer o balanço das ações passadas. A voz interior da protagonista não tem nada de errado, ela apenas quer viajar por uma linha que não tem fim. Por isso, Vaiana é um filme com os habituais temas de auto-descoberta do estúdio e aproveita-se da narrativa de Frozen – O Reino de Gelo, nomeadamente por ambas as suas protagonistas tentarem descobrir quem sejam, mesmo que em pólos terrestres completamente opostos. Aí, um paradoxo pode instaura-se porque o que de Vaiana tem tanto de triunfante para alguns, terá de enfadonho para outros, ao envolver-nos estilisticamente numa trama familiar.

No que diz respeito à banda-sonora, não há necessariamente um momento alto próximo a “Let It Go”, mas Lin-Manuel Miranda, o protagonista do agora mundialmente conhecido musical da Broadway “Hamilton”, ao lado do compositor Mark Mancina e do músico Opetaia Foa’i, nascido Estado Independente da Samoa, criam um conjunto de canções que facilmente ficarão no ouvido dos pais e das crianças e que ficaríamos surpresos que se não alcancem uma nomeação ao Óscar de Melhor Canção Original, aproveitando-se da polémica de diversidade que assombrou a edição do início deste ano. Destaque para “We Know the Way”, “Where You Are”, e “How Far I’ll Go”, que conseguem arrebatar as nossas emoções.

Vaiana é claramente um ponto alto da cinematografia da Walt Disney, nomeadamente por ser um desvio em relação às outras princesas do estúdio, mas também não não esquecer aquilo que torna a Disney um povo de magia, com mensagens que não só nos fazem sentir bem, mas também que nos deixam a pensar sobre que futuro irão embarcar as crianças e os adolescentes de hoje e que atitudes terão os adultos para não as deixar desistir.

Consulta também: Guia das Estreias de Cinema | Novembro 2016


Título Original: Moana
Realizador:  Ron Clements e John Musker
Elenco: Auli’i Cravalho, Dwayne Johnson, Rachel House, Nicole Scherzinger Alan Tudyk
NOS | Animação, Aventura, Comédia | 2016 | 103 min

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VJ

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