Vedações, em análise

Como realizador e ator principal, Denzel Washington traz aos cinemas o drama de Vedações, a grande obra-prima teatral do dramaturgo americano August Wilson.

vedações fences denzel washington

Desde a sua estreia mundial que Vedações tem sido alvo de uma crítica recorrente e aborrecidamente previsível. Referimo-nos ao eterno cliché que é acusar um filme de ser demasiado teatral. Com efeito, Vedações é uma adaptação fiel da mais famosa peça do já falecido dramaturgo August Wilson e tem no elenco muitas das caras que, há uns anos, levaram o espetáculo aos palcos da Broadway. Continuando esta linha de pensamento, há que mencionar como o filme vive de longas cenas de diálogo ou monólogo e se centra quase única e exclusivamente na casa do protagonista. Apesar de tudo isso, acusar Vedações de ser um filme demasiado teatral é, por um lado, uma terrível mostra de ignorância a respeito dos desenvolvimentos do teatro moderno, e, por outro, é uma errónea caracterização dos aspetos mais problemáticos do filme como uma herança dos palcos. Seria mais correto acusar Vedações de ser excessivamente televisivo.

Para alguém habituado a consumir filmes de prestígio até ao ponto de overdose cinematográfica, Vedações pertence claramente a esse grupo de obras que são realizados por atores que apenas se preocupam com o trabalho de ator. Por outras palavras, Vedações é um filme infetado com a terrível noção de que a melhor forma de visualizar a sua trama é a partir de uma série de enfadonhos closeups e planos médios. Infelizmente, esta desleixada escolha formal pouco faz para realmente valorizar o trabalho dos intérpretes e, no final, acabamos por ver cenas em que a linguagem corporal é obscurecida, tanto pela composição como pela catastrófica montagem que parece ter sido concebida por um desastrado principiante com um grave défice de atenção. Por exemplo, um momento incrivelmente tenso entre um casal numa cozinha é completamente dilacerado e esvaziado de potência dramática por esta incompetência formal.

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Enfim, já chega de negativismos. Tirando essas escolhas formais muito duvidosas, Vedações é um bom filme, em parte porque é adaptado de uma grande peça assinada pelo fantástico dramaturgo americano August Wilson. Parte integrante de uma série de obras sobre a vida de comunidades afro-americanas em Pittsburgh ao longo do século XX, Vedações é um retrato de Troy Maxson, um antigo jogador profissional de basebol que, quando o encontramos na década de 50, trabalha como homem do lixo. Ao mesmo tempo e sem chamar muita atenção para o seu logro, Wilson tece, nas margens da narrativa principal, uma dimensão política que nunca vemos diretamente mas que influencia as atitudes das personagens, nomeadamente de Cory, o filho mais novo de Troy.

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Não querendo empregar desnecessários eufemismos, Troy é uma pessoa deplorável que, não obstante algum carisma, é uma presença tão irritante como abrasiva. Sempre a desdobrar-se em enormes discursos de agressiva verbosidade típicos do pseudo naturalismo do teatro americano, Troy é alguém que adora ouvir o som da sua própria voz, que impõe a sua vontade sobre todos os seus entes queridos com a mão de ferro de um tirano, mas que está sempre pronto a fazer-se de vítima quando alguém o critica. Para Troy, se ele não conseguiu sucesso na sua carreira desportiva, ora pela cor da sua pele ou pela sua idade, então mais ninguém tem o direito de alcançar sucesso e, se ele está infeliz, amaldiçoado seja o Judas que ouse esboçar um sorriso. Tal toxicidade é particularmente evidente na relação com Rose, sua segunda esposa que, apesar de ser fiel e devota, Troy já anda a trair com outra mulher.

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Denzel Washington, que também é o realizador e produtor do projeto, é absolutamente magnífico no papel de Troy. Há quem possa olhar com desdém para os seus esforços e ver neles um exemplo de “overacting”, mas Troy é uma personagem para a qual o exagero dramático não é só apropriado, mas é necessário. Quando o amargurado protagonista de Vedações começa mais uma das suas sessões de bruta pontificação, Washington não faz vãs tentativas de modular a torrente de diarreia verbal. Sem inflexão inteligível, estes monólogos, que Troy usa como um objeto rombo com o qual ataca as pessoas em seu redor, permitem a Denzel Washington criar a magistral ilusão que nem a personagem sabe bem o argumento que está a fazer e que o seu discurso é pouco mais que uma febril improvisação alimentada por um desespero interior que arde como o sol. Washington é, em suma, soberbo, e os seus rasgos de exagero desproporcionado são organicamente integrados na lógica do filme.

Ainda melhor que ele, contudo, é a espetacular Viola Davis como Rose, uma mulher que há muito concluiu que a sua ligação a Troy nunca lhe irá trazer grande felicidade mas que continua a enfrentar cada dia como uma esposa respeitosa. Mesmo nas suas cenas iniciais, superficialmente pontuadas por uma sensualidade casual, David e Washington dão a impressão que a sua felicidade é uma performance, feita tanto para a apreciação dos seus amigos como para se convencerem a si mesmos. Essas cenas, tal como mais de metade do filme, apenas dão a Davis a oportunidade de esboçar a sua personagem em reações meio silenciosas, mas isso muda quando anos de ressentimentos reprimidos explodem com uma violência vulcânica capaz de calar até Troy. Essa explosão emocional e o delicado epílogo cheio de resignação pacífica, já praticamente garantiram o Óscar à atriz. Ela bem merece.

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Menos abençoados com discursos titânicos estão o resto dos atores do filme que, mesmo assim, conseguem exibir impecáveis desempenhos. Como Cory, Jovan Adepo é particularmente maravilhoso, expondo as suas emoções não moduladas com a gestualidade precisa de um adolescente a ser lentamente asfixiado pela sua indignação face à figura paternal. Como já dissemos antes, Vedações é um filme apoiado no trabalho de ator e, enquanto a câmara de Denzel Washington pouco faz para valorizar isso, o elenco tem a capacidade de aguentar o peso do projeto sem qualquer mostra de esforço ou um único passo em falso.

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Relativamente a outros aspetos, excetuando a fotografia enfadonha e a montagem desastrada, Vedações é um perfeito exemplo de um sólido filme de prestígio bem feito mas sem grandes mostras de primor audiovisual. Por exemplo, a cenografia é impecável na sua reprodução histórica e os figurinos diferenciam as personagens de modo credível, mas não transcendem a modesta eficiência funcional. Se não fosse o texto, que é espetacular, nem os atores provavelmente teriam capacidade de vitalizar o projeto pelo que, como obra final, este filme deve todo o seu sucesso ao trabalho de August Wilson. Enfim, não se trata de inspirado cinema, mas Vedações é uma boa maneira de dar a conhecer ao mundo inteiro o génio deste dramaturgo e a lacerante complexidade das suas personagens.

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O MELHOR: Todas as confrontações entre Denzel e Viola, especialmente a primeira grande discussão em que a reação de Davis é sísmica na sua intensidade mas perfeitamente justificável, entendível e em orgânica harmonia com o registo dramático de Vedações.

O PIOR: A montagem, que seria uma boa candidata a pior do ano, pelo menos em termos do detrimento que causa ao filme como experiência cinematográfica, não fosse a existência de Esquadrão Suicida.



Título Original:
 Fences
Realizador: Denzel Washington
Elenco:
Denzel Washington, Viola Davis, Stephen Henderson, Jovan Adepo

NOS | Drama | 2016 | 139 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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