"Vem e Vê" | © Midas Filmes

Vem e Vê, em análise

Vem e Vê” o inferno na Terra, “Vem e Vê” aquilo de que somos capazes, “Vem e Vê” e assusta-te. Em 1985, Elem Klimov olhou para as partes mais horrendas do ser humano e gravou-as a ferro e fogo em celulóide. Em 2019, esse pesadelo cinematográfico volta aos cinemas, numa versão restaurada.

O que é o inferno? Indo buscar respostas a algumas crenças religiosas, entendemos que o inferno será o reino do Diabo, o lugar onde as almas dos malvados vão ser castigadas para a eternidade. Para os sumérios seria uma caverna escura, para os antigos gregos um abismo profundo. Segundo Jean-Paul Sartre, o inferno são as outras pessoas. Deixando para trás questões teológicas, a ideia do dramaturgo e filósofo francês tem o seu mérito. É uma ideia com sabor a verdade, aquele tipo de verdade universal que gere a ordem do cosmos sem que ninguém repare nela. O inferno é o Mal e, afinal, o limite do Mal é a imaginação humana.

O Mal repugna-nos e fascina também. O inferno é algo de que fugimos, mas que nos seduz e enfeitiça em igual medida, que nos captura a mente e torna curiosos. Há inúmeras séries televisivas sobre assassinos odiosos e suas motivações misteriosas. Quanto mais hediondos são os crimes de alguém, mais esse alguém esculpe o seu lugar no panteão da imaginação coletiva. Há um certo ponto, em que o Mal é tão grande que o indivíduo se torna num mito que só as páginas dos livros de História podem adequadamente conter. E mesmo aí, o asqueroso veneno tende a transbordar dessas páginas e ciclicamente envenenar a mente daqueles que veem nesse Mal uma validação da sua suposta superioridade em relação a outros.

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Sim, o inferno são as outras pessoas. É mais fácil viver na ignorância de tais leis cósmicas, mas talvez fosse bom confrontarmos, de vez em quando, a feiura da nossa espécie. A ignorância é o campo fértil onde o Mal tende a florescer e a renovar-se, o conhecimento e a empatia são o seu mais poderoso inimigo. No cinema, muitos são aqueles que, no seu fascínio pelo Mal e pelo inferno, tentam abordá-los na sua Arte. No entanto, raros são os cineastas que conseguem fazê-lo sem caírem no cliché, sem caírem no erro de tornar o horror numa comodidade de fácil consumo. Muitos são os filmes que colocam uma barreira de abstração entre o espectador e aquilo que o ser humano é capaz de fazer nos epítetos da sua malvadez.

Em 1985, Elem Klimov conseguiu abordar o tema sem cair em tais erros. Seu objeto de estudo foi um dos mais negros capítulos da História Humana – a 2º Guerra Mundial. Mais especificamente, o artista soviético propôs-se a retratar a invasão nazi da Bielorrússia, onde mais de 600 comunidades foram assoladas pelos invasores germânicos e sua população foi chacinada sem piedade. Só que Klimov rejeitou a frieza, ou a arrogância, de uma abordagem distante, removida da realidade das vítimas. “Vem e Vê” não é um documento sobre movimentos bélicos em mapas ou estatísticas exangues.

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“Vem e Vê” não é uma história contada da perspetiva divina de um Deus ou de um historiador a olhar para o passado. Klimov relata-nos a história de Florya, um humilde rapaz com pouco mais de treze anos que, um dia, desenterra uma espingarda. Tal ação, chama a atenção das tropas bielorrussas que veem na criança um novo soldado e dos alemães que sobrevoam o território e veem na sua aldeia um novo alvo a abater. No esquema geral da guerra, Florya é um zé-ninguém, uma pessoa sem importância condenada a ser mais um número sem cara em documentação futura sobre as vítimas do conflito. Klimov, indo contra tais destinos de insignificância, coloca o espectador na pele de Florya, coloca-nos dentro da sua cabeça e deixa que os nossos olhos e os nossos ouvidos percecionem o horror da guerra através do prisma de um miúdo traumatizado. Parte do seu triunfo deveio do modo como o cineasta entendeu que nem o realismo puro ou o romantismo clássico eram abordagens eficazes para contar tal história ou produzir essa experiência monstruosamente subjetiva.

Klimov vai para além do real, encontrando o ponto médio entre a hiper-realidade e o surrealismo. Há uma ênfase nas texturas do inferno bélico, na lama e no sangue seco, nas rugas em volta dos olhos de um miúdo prematuramente envelhecido e em lábios abertos pelo vento gélido. Há também a textura granulosa da película que, ocasionalmente, parece fazer com que a imagem se desintegre em imaterialidade perante os nossos olhos. A câmara está sempre a flutuar etereamente, solta de quaisquer limites físicos. Também ela se põe entre as pessoas que dialogam. Os atores olham assim diretamente para a objetiva, fitando os espectadores, tanto quando se perdem em espirais de loucura como quando parecem implorar pela salvação que nunca vem.

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Esses mecanismos visuais conjuram um cinema onírico e odioso que imerge e sequestra o espectador. No entanto, acima de qualquer imagem, é o som de “Vem e Vê” que mais transtorna. Klimov e o seu sonoplasta Viktor Mors concebem um filme em que os ouvidos do espectador estão sob constante ataque. Amorfias metálicas, o fulgor de aviões altos e bombas distantes, gritos que vêm de todas as direções e o pestilento zumbido de moscas que se encontram em todos os cantos deste mundo apodrecido, tudo isto nos asfixia com sua intensidade sónica e nunca para, nem por um piedoso minuto. O som oprime e é ensurdecedor. Quando emparelhado com as imagens horrendas, todas estas violações da ordem cinematográfica dão a impressão de estarmos presos dentro de um pesadelo sensorial.

“Vem e Vê” é um filme que pune e castiga. Trata-se de uma obra mestra sobre a Humanidade que, na orla do precipício da loucura, há muito se deixou cair e quer arrastar consigo o espectador. A Morte está em todo o lado, o Mal também e para onde quer que os olhos se voltem, só veem horror. Queremos tapar os ouvidos e os olhos, queremos fazer como Florya e enterrar a cabeça na lama na esperança que isso cesse o assalto aos nossos sentidos e à nossa alma. Na esperança que asfixiemos e sejamos assim libertados do sofrimento deste Mundo em que todos nós somos monstros. “Vem e Vê” é um filme que choca e enlouquece, um filme que todos deviam ver, mas que não ousamos recomendar. O inferno são outras pessoas, o inferno é o que vemos no espelho que “Vem e Vê” ergue ao espectador e a empatia e a piedade podem não nos abrir caminho para fora deste inferno, mas são a única forma de não nos tornarmos parte do edifício infernal. Não acreditas no que te dizemos? Vem e vê.

Vem e Vê, em análise
Vem e Vê

Movie title: Idi i smotri

Date published: 2019-09-01

Director(s): Elem Klimov

Actor(s): Aleksey Kravchenko, Olga Mironova, Liubomiras Laucevicius, Vladas Bagdonas, Jüri Lumiste, Viktor Lorencs, Kazimir Rabetsky, Evgeniy Tilicheev, Aleksandr Berda, Vasiliy Domrachyov, Evgeniy Kryzhanovskiy, Tayana Shestakova

Genre: Drama, Ação, Guerra, 1985, 162 min

  • Cláudio Alves - 100
  • José Vieira Mendes - 80
90

CONCLUSÃO:

“Vem e Vê” é a obra-prima de Elem Klimov, um dos mais impiedosos filmes alguma vez feitos sobre o inferno da guerra e a capacidade humana para o Mal. O filme é um castigo e um alerta, um espelho e um grito de suplício. O filme é trauma e sofrimento em forma de cinema.

O MELHOR: O modo como o filme nos mostra o horror do mundo em que vivemos e a malvadez da Humanidade.

O PIOR: O mundo em que vivemos e a natureza monstruosa que a Humanidade pode ter.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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