A Vitória do Shoegaze

Queremos celebrar a vitória dos Slowdive, o melhor disco de 2017 aqui para nós, na MHD, regressando à “cena que se celebra a si própria” e aos discretos heróis do shoegaze .

Com o lançamento em 2017 de Slowdive, um dos álbuns criticamente aclamados do ano, e de Weather Diaries, onde se divisa um novo futuro para os Ride, culmina a reabilitação de um género que há muito merecia ser vindicado. A ressurreição da cena musical (maioritariamente britânica) do início da década de 90, a que se deu depreciativamente o nome de shoegaze, começou com o regresso aos palcos dos My Bloody Valentine em 2008 e o lançamento, em 2013, daquele terceiro longa-duração em que já ninguém acreditava, mbv. O regresso ao activo, entre 2014 e 2016, dos Swervedriver e (ainda que por pouco tempo) dos Lush continuou o movimento de retorno dos principais actos da cena original. O apogeu deu-se com a reunião dos Slowdive e dos Ride, as outras duas bandas que, juntamente com os MBV, compõem a tríade criadora do género. Esta é a sua história e a melhor forma de a viajar é mesmo à boleia do Spotify. Mantenham-no à distância de um clique, embrenhando-se nas (ainda hoje) surpreendentes paisagens sonoras que vão surgindo a cada curva.

A CRIAÇÃO DA NEBULOSA DE RUÍDO

Os Ride comunicaram o regresso numa nota de imprensa que incluía duas citações. Uma, de David Crosby, comparava a primeira banda ao primeiro amor. Nunca se esquece nem se sente por outra o mesmo que por ela. A segunda, do economista Jacques Attali, era uma apologia do ruído, visto como paradigmático das relações entre os homens, na sua fusão de clamor, melodia, dissonância e harmonia. Embora peculiar, a defesa do barulho não é nova. No início do clássico The Sound of the City, Charlie Gillett observa que os sons urbanos podem ser brutais e opressivos, impondo-se a todos os que andam pelas ruas. Muitos dos que, por causa do trabalho, são obrigados a viver nas grandes cidades sentem-se livres só quando conseguem sair dela, nem que seja por alguns dias.

O rock & roll foi talvez a primeira forma de cultura popular a celebrar, sem reservas, características da existência urbana que estavam entre as mais criticadas. No rock & roll, os sons estridentes e repetitivos da vida da cidade foram, de facto, reproduzidos como melodia e ritmo. (p. xviii)

A Creation Records

Se o shoegaze fascina é por este uso do ruído como reconciliação com a vida urbana e comunicação de si enquanto habitante da modernidade. Se floresceu foi pela discográfica independente fundada pelo carismático Alan McGee. A sua inexplicável habilidade para ocupar a capa dos jornais e atrair a atenção para as bandas só era superada pela perspicácia em entrever nelas o seu talento artístico ou, pelo menos, o seu potencial mediático. Entusiasmado pela revolução punk, Alan McGee montara uma rede de projectos avulsos, desde editar uma revista até tocar numa banda e gerir um clube nocturno, que desembocou na fundação da Creation Records, em 1983.

Alan McGee

A discográfica viria a ser conhecida pelo estilo de vida de McGee e pelas festas nos seus escritórios, bem mais aparatosos do que o discreto grupo de bandas que contratara e, sem o saber, viriam a fazer história. Na altura, embora reconhecesse publicamente o valor de Loveless, o difícil parto de um disco que levaria dois anos a gravar e a produtora (reza a lenda) quase à falência não ajudava a que os MBV fossem a banda de eleição de McGee. Sempre volúvel e provavelmente por despeito, apoucou-os há anos atrás no The Guardian, considerando-os um engodo. Mesmo os Ride, mais propensos à cobertura da imprensa e liderança dos festivais e tendo embora trazido à produtora o capital inicial com que financiar a maior parte do seu catálogo subsequente, não conseguiam competir, na estima de McGee, com os animais de palco, da rádio e da MTV que eram os Primal Scream, Teenage Fanclub e, mais tarde, já por altura da venda parcial da Creation à Sony, os Oasis.

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O perfil inconspícuo das bandas de shoegaze, com os seus membros escondidos na escuridão e por detrás da densa nuvem de distorção, não lhes granjeava grande afeição junto de McGee. Este dedicava-se sobretudo às bandas capazes de obter alguma notoriedade junto do público, dos meios de comunicação e dos promotores de concertos. Mas, crédito lhe seja dado, concedeu total liberdade criativa às bandas mais experimentais como The House of Love, MBV, Ride, Swervedriver, Slowdive, Medicine ou Moonshake, e o apoio que, dentro da constante falta de saúde financeira, era possível dar à gravação dos discos.

Por um lado, sabe-se bem quanto o shoegaze deve a sua origem ao dream pop dos Cocteau Twins, à voz melódica e indecifrável de Elizabeth Fraser a flutuar sobre as notas de guitarra de Robin Guthrie, ora afogadas em feedback (Treasure, 1984), ora a reverberar límpidas no contexto de um baixo melódico e encorpado (Heaven or Las Vegas, 1990). Por outro lado, pode ser que nunca chegasse a existir sem o encontro de Alan McGeee com os Jesus & The Mary Chain. Enquanto lutavam por conseguir, num difícil início de carreira, marcações para tocar ao vivo, o baterista (também vocalista dos Primal Scream) Bobby Gillespie entregou uma cassete demo a McGee. Percebendo-lhe o potencial, McGee tornou-se o seu gerente e contratou-os para editarem um single na Creation, Upside Down (1984), o primeiro grande sucesso da produtora. Este granjeou aos Jesus & Mary Chain um contrato com uma subsidiária da Warner, onde editaram o seu álbum de debute, Psychocandy (1985). Na sua sonoridade muitos vêem desenhada já a principal característica do shoegaze. Senão, ouçam a “Just Like Honey” e tirem as vossas próprias conclusões.

My Bloody Valentine

Mas aquilo a que propriamente chamamos shoegaze foi inventado por Kevin Shields. E talvez, quem sabe, nunca tenha propriamente existido para lá da sua banda. Os primeiros EPs dos My Bloody Valentine revelam uma banda à procura de um som, desde o pós-punk gótico dos Birthday Party e dos Cramps a uma versão de tweepop resultante da fusão de melodias pop da década de 1960 com a nuvem de distorção de Psychocandy. A grande viragem aconteceu com You Made Me Realise (1988), disco que deu à luz o género.

Kevin Shields, Bilinda Butcher, Debbie Googe e Colm Ó Cíosóig

Desde o tempo em que ouvia os Cramps, em 1984, que Kevin Shields se interrogava sobre o que aconteceria se usasse constantemente a alavanca de tremolo enquanto tocava guitarra. Segundo conta ao The Quietus, a oportunidade de o fazer surgiu durante os ensaios de “Slow”. Estava a tocá-la depressa, contra a batida lenta da bateria e aplicando-lhe o efeito de reverberação reversa, descoberto numa entrevista a Bob Mould. Um amigo emprestara-lhe entretanto uma Fender Jazzmaster, cuja alavanca, ao contrário das Bigsbys, podia ser usada o tempo todo, sem desafinar a guitarra. Shields introduziu algumas modificações na ponte e na alavanca, para que esta se tornasse mais parte da mão do que da guitarra. Ao ensaiar a canção, ficou maravilhado com o efeito obtido.

Ainda assim, quando tentou pela primeira vez, pensou que era bom mas não funcionava realmente, parecendo apenas uma velha coisa de rock & roll, à maneira do que já fazia, por exemplo, o guitarrista dos Cramps. Lembrou-se do uso que os produtores de hip-hop faziam das amostras sonoras, enterrando-as e emudecendo-as parcialmente na mistura, dando a “sensação de sons a serem decompostos e destruídos e depois reutilizados”. Baixou então o botão de controlo de tom, tornando mais grave o timbre, para ver o que acontecia: “E, de repente, soava fantástico. De repente, tinha este… som derretido”. Shields acabara de inventar a primeira metade da sonoridade shoegaze ou aquilo a que se veio a dar o nome de “glide guitar”: alterar ligeira e continuamente a frequência das notas, afinando-as e desafinando-as, por meio do uso ininterrupto da alavanca de tremolo, no seio da reverberação reversa.

Sentia este fascínio pela torção da frequência. Por isso, quando consegui aquela guitarra que o meu amigo me emprestou […] foi como descobrir a distorção pela primeira vez, ou o eco: Oh, meu Deus, isto é espantoso, posso-me finalmente exprimir. (Kevin Shields)

Em You Made Me Realise esta nova técnica é usada para tocar malhas agressivas, revelando as influências do momento, como os Hüsker Dü, Dinosaur Jr., Sonic Youth. Mas aparece nele também, pela primeira vez, a outra metade do som shoegaze. Bilinda Butcher juntara-se à banda no ano anterior, trazendo consigo o estilo de canto suave, onírico e impenetrável de Elizabeth Fraser, que contrastava com a nebulosa de ruído da guitarra de Shields ao mesmo tempo que sublinhava o arrastamento da reverberação reversa. Em Loveless (1991) atingiu a perfeição, como se pode ver no clássico imortal que abre o disco,”Only Shallow”.

Paradigma nunca imitado, porque isto não são só pedais e neblinas de feedback, a perfeição custou dois anos de calvário para ver a luz do dia. “Um grito em câmara lenta” é ao que soa mas é também como saiu. A Creation estava perto da falência, a fintar os credores, incapaz de pagar as contas dos estúdios onde os MBV gravavam, obrigando-os a migrar por dezanove estúdios, as cassetes várias vezes confiscadas. Uma vez foi preciso tirá-las a meio da noite, de um estúdio qualquer em Ladbroke Grove, para não as perder. Como a produtora não tinha dinheiro para pagar aos músicos, estes viam-se obrigados a ocupar ilegalmente apartamentos desabitados. Expulso de um destes edifícios, o baterista Colm Ó Cíosóig encontrou-se a dormir, no gelo de Outubro, em sofás emprestados, apanhando um vírus que lhe arruinou a saúde, já debilitada pela tensão, fadiga e problemas pessoais.

Colm participou em apenas duas das canções, “Only Shallow” e “Touched”, tendo a percussão nas restantes faixas resultado de uma morosíssima montagem de diversas amostras sonoras de Colm a tocar, replicadas e colocadas em sequência, de modo a soarem o mais naturalmente possível, porque Shields não conseguia tocar com uma máquina de ritmos. Apesar do uso abundante de amostras sonoras, estas são acima de tudo do feedback das próprias guitarras e das vozes de Bilinda e Shields, com a maior parte das canções a ter apenas uma pista de guitarra. Shields podia, por causa do seu perfeccionismo, demorar-se muito em certos pormenores (a pandeireta duma das canções ocupou uma semana de estúdio) e o disco custou cerca de 250.000 libras. No entanto, não é a elaboradíssima produção de estúdio que muitos julgam. A sua força reside mesmo na composição das canções e na sonoridade ao vivo da banda.

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Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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