Frankenstein, vikings, nuvens e Faithfull: sermões, identidades e monstros | Festival de Veneza 2025 (Dia 4)
Quando Del Toro no Festival de Veneza 2025 troca o terror por catequese, Mikkelsen reaprende a ser viking, Rosi cava ruínas no Vesúvio e Marianne Faithfull despede-se do mundo em grande estilo
O quarto dia do Festival de Veneza 2025 foi daqueles em que se entra em quatro sessões diferentes e sai-se sempre com a mesma sensação: o cinema anda obcecado em fazer catequese às vezes alguma mais bem conseguida do que outra.
Sermões com monstros domesticados, vikings em busca da identidade perdida, vulcões que nos recordam que a história não morre e uma lenda rock’n’roll a narrar a sua própria saída de cena. Tudo tão diverso e, no entanto, tão cúmplice nessa mania contemporânea de às vezes transformar a tragédia em espetáculo e o espetáculo em lição de moral.
Guillermo del Toro (“Pinóquio”) tinha prometido devolver o terror gótico ao avô dos monstros, mas trouxe-nos ao Festival de Veneza 2025 uma criatura que, em vez de aterrorizar aldeias, parece pronta para apresentar o Telejornal da noite ou participar num retiro espiritual em Sintra.
Mas afinal vai estar na Netflix, o que há partida agora já não é pecado é essencial. O seu “Frankenstein” divide-se em três atos: o prólogo de luxo, cheio de sangue e névoa gótica; a versão de Viktor Frankenstein, quase professor universitário arrependido; e a da criatura, um emo melancólico do século XIX.
Del Toro e o Frankenstein fofinho
O problema é simples: este monstro já não assusta ninguém. Mete pena, faz discursos sobre preconceito e solidão, e até parece pedir desculpa por existir. Christopher Waltz interpreta — surpresa das surpresas — Christopher Waltz outra vez, como vinil riscado que já não dá para desentupir.
E a deslocação para o Ártico, com capitães de navio que parecem vender filetes congelados, só acentua a ideia de que o filme é mais catequese ilustrada do que terror. É bonito de ver, sim. Mas é um “Frankenstein” fofinho, domesticado, digno de missa gótica de domingo à tarde.
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Da catequese passamos no Festival de Veneza 2025 para uma farsa nórdica, apresentada fora da competição. “The Last Viking,” de Anders Thomas Jensen (“Loucos por Justiça”), é aquilo que só um dinamarquês conseguiria fazer: uma comédia negra sobre identidade, memória e o peso de carregar demasiadas versões de nós próprios.
Mads Mikkelsen e Nikolaj Lie Kaas são dois irmãos: um regressa da prisão, o outro perdeu a memória e o mapa do tesouro. O que poderia ser um simples filme de caça ao dinheiro transforma-se numa viagem absurda e existencial, onde cada piada deixa um travo amargo.
O último viking que afinal é vários
Mikkelsen, claro, é várias personagens num só corpo, um verdadeiro camaleão viking que tanto mete medo como ternura. Jensen escreve e realiza como quem nos lembra que, por trás de qualquer barbaridade, há sempre humanidade e vice-versa. É hilariante e inquietante. No fim, o ‘último viking’ tanto pode ser o protagonista como cada espectador, a tentar manter-se inteiro num mundo que insiste em nos fragmentar. Os excertos de animação representam mitos ou melhor anedotas nórdicas de humor negro absolutamente geniais.
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Se os dinamarqueses riem de nós, Gianfranco Rosi (“Fogo no Mar”) no Festival de Veneza 2025 obriga-nos a olhar para baixo, literalmente, para a terra que treme. “Below the Clouds” em italiano “Sotto le Nuvole” leva-nos até Nápoles, entre o Vesúvio e o Golfo, onde a vida é vivida sobre camadas de história soterrada. Filmado a preto e branco, o documentário é ao mesmo tempo poesia visual e crónica social.
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Rosi entre nuvens e cinzas
Arqueólogos japoneses escavam ruínas romanas, crianças aprendem em escolas improvisadas, bombeiros atendem telefonemas aflitos, turistas vagueiam por Pompeia, e devotos rezam diante da Madonna dell’Arco. Tudo isto com as fumarolas dos Campos Flégreos a lembrar que nada é estável, que a qualquer momento o passado pode rebentar no presente. Rosi filma como quem escava: com paciência, rigor e espanto. O resultado é hipnótico, quase meditativo, mas com a tensão de sabermos que estamos sempre em cima de um vulcão.
E quando parecia que o dia e a noites não podiam ser mais soturnos, eis que surge fora da competição do Festival de Veneza 2025 documentário nada convencional “Broken English”. Jane Pollard e Iain Forsyth (“20.000 Dias na Terra”) dão a Marianne Faithfull (falecida em Janeiro passado) a despedida que ela merecia: não com homenagens piegas, mas com a sua própria voz, na última entrevista antes da morte. O filme é o canto do cisne de uma mulher que nunca aceitou ser reduzida a musa dos Rolling Stones ou à ‘garota de Jagger’.
Marianne Faithfull, última canção
Faithfull foi tudo: cantora, atriz, ícone de estilo, viciada, sobrevivente, dama decadente e mulher renascida. Aqui, conta-nos a sua vida com humor, dor e uma honestidade desarmante. Entre clips de arquivo, performances finais e aparições de Tilda Swinton, George MacKay, Courtney Love e Nick Cave, o documentário é uma sessão espírita punk, que invoca todos os fantasmas de Marianne para nos lembrar que ela nunca foi apenas uma coisa. Sempre foi mais. Sempre quis ser mais.
Sermões, vikings e vulcões
O quarto dia do Festival de Veneza 2025 foi efectivamente um cardápio improvável: um “Frankenstein” domesticado em versão catequese sangrenta, vikings à procura de si próprios entre gargalhadas negras, um documentário napolitano que nos obriga a viver com a memória do tempo, e a despedida rock’n’roll de Marianne Faithfull.
Quatro filmes, quatro mundos, uma ideia em comum: ninguém é só uma coisa. Nem monstros, nem vikings, nem cidades, nem lendas. Del Toro quis santificar o terror, Jensen quis rir-se da identidade, Rosi quis escavar o presente no passado, e Pollard/Forsyth quiseram deixar Marianne falar. O resultado é um festival que, entre bocejos e arrepios, continua a provar que o cinema é o melhor espelho das nossas contradições, mesmo quando insiste em transformá-las em sermão.
JVM