"O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford" | © Warner Bros.

Veneza em Casa | O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford

Andrew Dominik vem eletrificar o Festival de Veneza com “Blonde,” sua adaptação de um romance de Joyce Carol Oates livremente inspirado na vida de Marilyn Monroe. Já há muitos anos que o realizador não estreava uma obra não-documental. Um dos seus últimos trabalhos nesse género estreou em 2007, protagonizado por Brad Pitt e Casey Affleck. “O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford” é um neo-western que também competiu em Veneza, onde ganhou a taça Volpi para Melhor Ator (Pitt). Fora do circuito dos festivais, o filme arrecadou outras altas honras, incluindo nomeações para os Óscares de Melhor Fotografia (Roger Deakins) e Melhor Ator Secundário (Affleck).

“O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford” é um título fantástico, mas também pode ser interpretado como algo enganador. Ao contrário do que se pode pensar, o filme de Andrew Dominik está longe de ser uma dramatização seca do facto histórico, ou um gesto sensacionalista que dá prioridade ao espetáculo sanguinário. O filme não é nem uma coisa nem outra, servindo mais como um estudo de identidade masculina, quiçá toda uma meditação sobre o género western e sua mitologia. É claro que, para se entenderem estes pontos, há que se considerar como Dominik contextualiza o evento titular.

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A ação principal do filme começa em 1881, um pouco mais de meio ano antes da morte de Jesse James. A ideia de um Oeste longínquo e antigo, cheio de aventura e terra por descobrir, estava a cessar e com ela morria também a figura do cowboy enquanto lenda viva. Nesse aspeto, o filme de Dominik vai buscar algumas das suas tonalidades aos filmes mais elegíacos de John Ford, como “Os Dominadores” de 1949. Só que, ao invés de apreciar esse período de transição em luto Technicolor e matizes outonais, “O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford” é mais frio e abertamente contra sentimentalismos.

Ou seja, a fronteira já era o que tinha sido em 1881 e os ventos de mudança vieram alterar os paradigmas de poder na região. Não só o poder político e económico, como a força iconográfica dominante na cultura Americana. Em nome de um mundo dito civilizado, as terras sem lei foram domadas, processo que Dominik encara numa forma de autópsia post-mortem. O mundo do western visto neste filme já é um cadáver pronto a apodrecer assim que o gelo invernal der lugar ao calor do Verão. Mas essa mesma dissecação não apaga o mito. Se possível, com o corte do bisturi sobre a carne sem vida, as entranhas mitológicas são libertas. Na ficção retrospetiva, descobrem-se as verdades primordiais.

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Um dos pontos de interesse nesta oscilação de esforços, entre a crítica e a homenagem, é o uso de narração em voz-off. Estamos sempre cientes da ação enquanto História e enquanto estória, facto passado transformado num conto que se passa de boca em boca. O narrador não é personagem e não é divino, sendo algo mais próximo de um avatar para Dominik que assim cria um bloqueio ao investimento do espetador. Para este mito ciente de si funcionar, alguma alienação tem que haver e o apelo ao arcaísmo linguístico é o truque perfeito para se obter o resultado pretendido.

Estamos sempre cientes que os cineastas não pretendem criar um docudrama, mas sim uma ficção no celuloide – aí está um cordão umbilical que liga este western ao filme sobre Marilyn Monroe. Não é só a narração manifesta em sonoplastias sonhadoras que nos dá esta ideia. Toda a banda-sonora, composta por Nick Cave e Warren Ellis, vacila entre a fantasia historicista e o estilo moderno, uma interpretação do passado que sempre sublinha a sua contemporaneidade. A fotografia deslumbrante de Roger Deakins é um milagre para o qual não há palavras, embalsamando a história deste ícone e seu assassino em tons de neve suja e luminosidades teatrais.

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Poder-se-ia escrever todo um livro sobre o modo como Deakins e Dominik evocam a ideia de mitologia, desde o uso de distorções óticas até ao leitmotiv de câmaras antigas mirando as personagens. Acima desses aspetos técnicos, esta história de forças primitivas tem algo de bíblico, de universal – um rapaz quer conhecer o seu herói, quer ser o seu herói, e mata o seu herói. Esse ato é sancionado pela justiça humana, mas as marés narrativas retorcem-lhe a alma. O Jesse James heroico é assim desconstruído até que emerge como uma figura complicada, interpretado por Brad Pitt com distância, com antipatia aberta. Robert Ford, por outro lado é figura trágica, encarnado por Casey Affleck naquela que é a prestação da sua vida. Dito isso, todo o elenco é brilhante. De facto, não há elemento que vacile neste edifício fílmico, resultando numa obra polida e reluzente, como um diamante de celuloide.

“O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford” está disponível na HBO Max. Também podes alugar o filme noutros serviços como Apple iTunes, Google Play, Youtube, e a Rakuten TV.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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