Veneza em Casa | Babel

Este ano, Alejandro González Iñárritu levou a Veneza um dos seus filmes mais pessoais, o épico “Bardo.” Enquanto esperamos pela estreia dessa obra em território português, relembremos alguma da glória passada deste realizador mexicano. Em 2006, “Babel” valeu ao cineasta o prémio para Melhor Realização do Festival de Cannes e viria a conquistar várias nomeações para os Óscares, inclusive nas categorias para Melhor Filme, Realização e Atriz Secundária.

Depois de algum trabalho televisivo e em curtas-metragens, Alejandro González Iñárritu fez a sua grande estreia cinematográfica com “Amor Cão” em 2000. Escrito por Guillermo Arriaga, o filme desenrolava uma complicada trama através de estrutura em mosaico, usando a coincidência e o acontecimento insólito para ligar várias histórias num grande mural de miséria urbana. O sucesso da fita catapultou o realizador para a fama internacional e não demorou muito para que Iñárritu visse as portas de Hollywood abrirem-se para ele.

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© MEO

Quiçá outros cineastas abordariam esta aceitação instantânea do mainstream como uma oportunidade para cair no classicismo e na convenção. Este mestre mexicano, contudo, decidiu perdurar seu amor pelo mosaico cinematográfico, explorando as permutações mais bizantinas do modelo. Em certas medidas, Iñárritu arriscou o absurdo com suas tramas Dickensianas, levando a interligação narrativa a píncaros de convoluta complexidade sem comparação no cinema moderno. Entre os seus muitos exercícios do género, “Babel” afirma-se como o projeto mais ambicioso.

Desta vez, a tapeçaria de encruzilhadas expandiu-se à escala global, apanhando vidas entrelaçadas aos quatro cantos do mundo. O enredo mais famoso situa-se no deserto de Marrocos, por onde dois turistas Americanos viajam e veem o seu matrimónio dissolver-se perante o stress acumulado. Contudo, as arrelias pessoais de Richard e Susan são interrompidas quando, um dia, o percurso de autocarro chega ao fim com um tiro solitário vindo de parte incerta. A bala atinge Susan e, em desespero, Richard toma refúgio com a esposa na vila mais próxima, Tazarine, enquanto esperam por auxílio médico.

Ainda em Marrocos, testemunhamos a origem daquele tiro. Abdullah é um pastor de cabras que, face a ataques de chacais, decide comprar uma espingarda para defender o rebanho. No dia destes acontecimentos tristes, ele dá a arma aos seus filhos, irmãos encarregues de tomar conta das cabras enquanto elas pastam na paisagem esquálida. Aborrecidos e tolos como os miúdos que são, Yussef e Ahmed decidem praticar o tiro quando um autocarro se avista longínquo. Sem intenções de acertar em ninguém, os rapazes alvejam Susan e veem-se perseguidos pelas autoridades através do deserto.

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Do outro lado do mundo, no Japão, o dono original da espingarda, um executivo nipónico chamado Yasujiro. No entanto, não é ele o protagonista desta quarta-parte de “Babel,” mas sim a sua filha. Chieko é uma adolescente rebelde que sofre de surdez e comunica exclusivamente por linguagem gestual. Assolada pelas hormonas típicas da idade e sentindo-se indesejável devido à sua condição, a jovem solitária engendra-se numa série de comportamentos sexuais, tentando provocar os homens em seu redor. Quando dois polícias aparecem a fazer perguntas sobre o pai, ela nem se lembra da espingarda, assumindo que eles investigam o suicídio suspeito da mãe.

Entretanto, o tormento de Richard e Susan leva a que a ama-seca dos filhos seja obrigada a cuidar das crianças mais tempo do que era previsto. Amelia é uma imigrante mexicana ilegal que, desejosa por participar no casamento do filho que pouco vê devido às barreiras geopolíticas, leva os meninos a Tijuana sem a permissão dos pais. Pela calada da noite, quando tentam voltar aos EUA, uma série de tristes eventos acaba com Amelia e as crianças perdidas no deserto. Com medo que todos eles morram sob o sol escaldante, a senhora separa-se dos outros e tenta procurar ajuda sozinha antes que seja tarde demais.

Entrecortando estas quatro histórias, Iñárritu muito depende do seu elenco. Felizmente, o cineasta reuniu uma equipa de luxo encabeçada por Brad Pitt e Cate Blanchett que, numa reviravolta surpreendente, são os intérpretes menos interessantes do projeto. Muito melhores são Adriana Barraza e Rinko Kikuchi, como Amelia e Chieko, exibindo desempenhos que, enquanto agrilhoados ao miserabilismo do filme, conseguem transcender as suas limitações. Os atores mais novos na porção Marroquina deste épico de tristeza também são exemplares – uma salva de palmas para Boubker Ait El Caid e Said Tarchani.

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© MEO

Dito isso, as verdadeiras estrelas de “Babel” trabalham atrás das câmaras. Por um lado, temos uma assombrosa banda-sonora que valeu a Gustavo Santaolalla um segundo Óscar depois da sua vitória pelo “Segredo de Brokeback Mountain.” Composições adicionais do lendário Ryuichi Sakamoto para as porções japonesas da intriga resultam numa densa conceção musical, tão multifacetada quando as vidas retratadas. Por fim, há que se fazer o elogio ao diretor de fotografia Rodrigo Prieto, cuja genialidade está aqui em presente em máxima plenitude. Desde planos de baloiço que vão buscar inspiração a Jean Renoir até aos contrastes cromáticos das deambulações pelo deserto, “Babel” está repleto de imagens inesquecíveis que negoceiam o realismo que Iñárritu tanto ama com a beleza do poema em celuloide.

Para ver “Babel,” tanto podes comprar o filme em DVD e BluRay, ou aluga-lo através do serviço da MEO.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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