"Nous" | © MUBI

Veneza em Casa | Nous

Mesmo antes do festival começar, já alguns prognosticadores apontavam Alice Diop como candidata forte ao Leão de Ouro. Na 79ª edição do Festival de Veneza, a realizadora francesa de ascendência senegalesa apresenta a sua primeira obra narrativa, “Saint Omer,” depois de uma carreira caracterizada pelo documentário. Um dos seus trabalhos de não-ficção mais aclamados é “Nous,” também conhecido como “We.” Depois de estrear na Berlinale em 2021, o filme também passou pelo IndieLisboa, antes de chegar à plataforma online MUBI.

Quem somos nós? Esta é a questão transversal ao documentário mais recente de Alice Diop. Não se trata de uma pergunta sobre identidade individual, mas sim sobre o coletivo – o “nós” e não o “eu.” O trabalho da realizadora inspira-se nos escritos de François Maspeto e nos transtornos que abalam a sociedade francesa contemporânea. Muito do impulso para levar a obra à frente deveio dos ataques terroristas que assolaram Paris em 2015, quando imigrantes num mundo pós-colonialista se viram identificados com os criminosos ao mesmo tempo que os media promoviam uma ideia de vitimização geral que, não obstante a boa intenção, se mostrava exclusiva, segregada. Numa sociedade feita de tantas identidades díspares, o “nós” é um conceito complicado.

nous we critica veneza em casa
© IMDB

Em jeito estrutural, “Nous” orienta-se em torno do RER B, uma linha ferroviária que transporta pessoas desde o centro de Paris até aos confins suburbanos de Mitry-Mory e as extremidades sul de Saint-Rémy de Provence. A capital em si, sua iconografia de metrópole histórica está notavelmente ausente. O filme não é, afinal, sobre os espaços geográficos nem sobre aquela Paris que o cinema há muito imortalizou. Pelo contrário, Diop estuda as fragmentações sociais que levam a experiências tão distintas e distantes num espaço limitado. Sua câmara procura assim uma variedade de experiências, algumas bem conhecidas da cineasta, outras pertencentes a demografias que sempre observou de fora.

O estudo de separatismo em contraposição a uma unidade utópica que muitas afirmam já existir, começa num cenário campestre. Abre tudo em tempo de caça, uma matina fria enregelando uma família branca de binóculos em mão. Precisam deles para procurar o veado sua presa, sendo que, no meio do mato, é difícil avistar movimento longínquo. Imediatamente, somos ensinados a considerar o ato de olhar e o modo como a paisagem pode refletir quem a habita. “Nous” não é mais que um exercício em pintura paisagística, só que Diop usa a câmara ao invés do pincel e seu sujeito é a paisagem humana.

A imagética da caça regressará no fim da fita, quando o ritual ancestral se sublinha enquanto perpetuação de um passado partilhado. Em traje historicista, homens ricos e seus descendentes mantêm viva a memória dos seus antepassados, imitando seus afazeres em gesto de tradição continuada. Nem todos têm essa sorte ou os recursos para tão abertamente explorar a História que lhes corre nas veias. Diop não está aqui a julgar os caçadores. De facto, há uma considerável paixão pelo tradicional no olhar da realizadora, comungando uma visão progressista com ideias facilmente descartadas como retrógradas. Só que há uma enorme diferença de meios e memórias – alguns têm todo o privilégio para lembrar o passado, outros veem-se separados à força dos seus antepassados, seu passado enquanto povo e coletivo.

Lê Também:
A Volta ao Mundo em 80 Filmes

Tais ideias são exploradas através dos contrastes estabelecidos, tanto através de entrevistas como devaneios pelos mundos museológicos e do home video, pelo passado de outros e também pela recordação pessoal. Dos caçadores corta-se para arrumadores de carros e mecânicos que tentam fazer a vida através de francês rudimentar com sotaque carregado. São imigrantes vindos do continente africano, muitos deles oriundos de antigas colónias francesas. Alguns partilham as raízes senegalesas com a cineasta, alguns são parte da sua família até. Movendo a câmara ao longo do caminho-de-ferro, Diop vê um reflexo da mãe numa enfermeira que acorda de madrugada para ir cuidar de uma idosa noutra parte da cidade.

Filmagens domésticas são caracterizadas pela ausência daqueles atrás da câmara e, num momento de desconcertante tragicomédia, parte do vídeo perdeu-se por baixo de uma gravação televisiva – um Marlon Brando jovem sobrepõe-se aos fantasmas de outros tempos. Revisitando cenários da juventude, a realizadora contrasta o agora com o antes, a imagem do patriarca em vida com uma composição semelhante, mas desprovida da sua presença. São estes sentimentos de perda que caracterizam muito do filme – estas tentativas de recordar o passado sabotadas pela própria passagem do tempo, pela idade, pela falta de recursos, pelo filme de Marlon Brando.

Para quem julgue criticar Diop por posicionar a sua família em jeito tão central, fica a garantia que “Nous” é um documentário multifacetado capaz de explorar os seus temas numa variedade de contextos. Veja-se a passagem por uma instalação vídeo na qual são lidas cartas perdidas em tempos de Holocausto. São esses os últimos testemunhos de judeus e outros marginalizados que atiravam as missivas pelas janelas dos comboios em direção aos campos de concentração e extermínio. Outra divagação encontra a efemeridade de comunicação por telemóvel, enquanto uma outra vira os olhos para o esplendor da monarquia absolutista cuja marca se sente por toda a França, tanto ao nível físico como cultural.

nous we critica veneza em casa
© MUBI

Alice Diop é uma realizadora cheia de ideias e hábil com forma cinematográfica. Seu rigor formalista faz lembrar a obra de Chantal Akerman, enquanto a flexibilidade de tom e meio inspiram comparações com os grandes ases da Nouvelle Vague – talvez mais Varda que Godard. Cheia de empatia e criatividade, esta realizadora afigura-se como um dos grandes nomes no futuro do Cinema Francês. Aqui filmando as bases ideológicas do que é a sociedade moderna, ela tanto provoca como transborda empatia, fechando a fita num tom deliberadamente inconclusivo que deixa ao espetador a tarefa de averiguar o que, para si, significa o “Nós.”

“Nous” ou “We” está disponível para streaming em exclusivo na MUBI.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

Cláudio Alves has 1693 posts and counting. See all posts by Cláudio Alves

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.