Veneza 73 | La La Land, ao fundo do coração

Contras as incertezas e agonias do mundo actual, a Mostra de Veneza abriu a sua competição oficial com ‘La La Land’, de Damien Chazelle (‘Whiplash’), um filme lindo e feliz, que revive o musical em cinemascoope, com Ryan Goslin e Emma Stone como protagonistas, e sobretudo inaugurou com uma bela fantasia romântica, que nos inspira a dançar e a correr atrás dos sonhos.

A 73ª edição da Mostra de Veneza, abre oficialmente daqui a pouco (quarta-feira) ao final da tarde com La La Land de Damien Chazelle, um filme a concurso, com Ryan Gosling e Emma Stone, lindos, numa química perfeita e numa verdadeira sintonia interpretativa, que leva a música e a dança para as ruas, a fazerem recordar Fred Astaire e Ginger Rogers e outros pares famosos dos grandes musicais de Hollywood. 

La La Land

Cinco anos depois de Guy and Madeline on a Park Beach, outra história de amor bem ao tom ‘jazzístico’, depois da revelação de Whiplash (2014), que equivaleu a cinco nomeações, três Óscares e uns inesperados cinquenta milhões de dólares de receita para um filme independente estreado em Sundance e no Panorama da Berlinale, Damien Chazelle, chega aqui ao Lido de Veneza, agora com este sonho maravilhoso chamado La La Land. Um filme que poderia chamar-se ‘LA, I Love You!’, tal é a forma como se torna também roteiro turístico de alguns dos lugares mais belos da cidade — (o alto das colinas de Mulholland Drive, do Griffith Observatory, cenário de A Fúria de Viver, o funicular de Bunker Hill — e como se nota na estrofe do principal tema musical da excelente banda sonora: ‘City of stars, are shining just for me?’, que põe entre outras, Gosling e Stone a dançar e a cantar as músicas de Justin Hurwitz, amigo e colega da universidade do realizador, um compositor pouco reconhecido em Hollywood.

Vê Trailer de La La Land 

No brilhante ‘cinemascoope’ estão Sebastian (Gosling), interpretando um nostálgico músico de jazz, e Mia (Stone), numa bela e talentosa aspirante a actriz. Ambos os jovens sonham com o sucesso, mas o talento e a carreira parecem não combinar com o amor e o casamento, como aliás é recorrente em muito sucessos românticos do melhor cinema de Hollywood: Do Fundo do Coração (1981), de Francis Ford Coppola, New York, New York (1977), de Martin Scorcese, ou mesmo Nasceu uma Estrela (1954), de George Cukor. Evasão, música, sentimentos, entretenimento puro marcaram enfim esta abertura arriscada  com La La Land, de Damien Chazelle, que soa quase como um acto de rebelião contra o presente e formatado cinema de Hollywood, (que insiste nos remakes e nas adaptações de comics e muitas banalidades) e contra decerto modo o olhar lúcido de um certo cinema sobre a realidade actual, aqui mostrado. Mas sobretudo La La Land é um filme necessário que nos faz sonhar, contra as imagens violentas das catástrofes e do terrorismo que insistentemente repetidas nos media e que nos angustiam e atormentam no nosso dia-a-dia, cada vez mais cheio de incertezas.

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No elenco, além do par romântico Goslin e Stone, está o notável J.K. Simmons  — o actor que interpretou o feroz professor de jazz em Whiplash —, no seu terceiro filme com o realizador, o cantor-pop John Legend e Anna Chazelle, irmã do realizador e que o segue desde Guy and Madeline on Park Beach. De facto Não é por acaso que La La Land estreia aqui pois seguirá certamente como outros a tradição do Festival de Veneza de estrear filmes que vão estar na corrida aos Óscares, de 2017.

Sem Ryan Gosling na passadeira vermelha do Lido, devido a outros compromissos laborais, mas com a bela Emma Stone a representar La La Land, vão estar ainda até 10 de setembro muitas estrelas a desfilar, como Natalie Portman, Alicia Vikander, Michael Fassebender, Amy Adams, Jeremy Reiner, Lily Rose Depp (a filha de Johnny Depp e Vanessa Paradis), Guy Pearce e, as estrelas de Guerra dos Tronos: Carice Von Houten, Kit Harington e Jason Mamoa, entre outros. Estes actores representam cerca de vinte filmes concorrentes ao Leão de Ouro, de realizadores como: Emir Kusturica, Stéphane Brizé, Lav Diaz, Amat Escalante, Tom Ford, Andrei Konchalovsky, Pablo Larraín, Terrence Malick, François Ozon, Wim Wenders e mais uns tantos da longa lista de cineastas do mundo. O júri é presidido pelo realizador britânico Sam Mendes e conta ainda com a cantora e artista visual Laurie Anderson, as actrizes Gemma Arterton, Nina Hoss, Chiara Mastroianni e Zhao Wei, os realizadores Joshua Oppenheimer, Lorenzo Vigas (vencedor do ano passado com Desde Allá), e o argumentista italiano Giancarlo De Cataldo.

São Jorge

Logo mais à noite estreia aqui igualmente mas na secção Horizonte, São Jorge, o novo do realizador Marco Martins (Alice), com Nuno Lopes, no papel de um lutador de boxe, desempregado e posteriormente contratado por uma empresa de cobranças difíceis, o único filme português presente nesta Veneza 73.


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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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