Wildling critica

Wildling – A Última Criatura, em análise

Wildling – A Última Criatura” é um conto fantástico de libertação adolescente cheio de transformações sobre-humanas, situações sangrentas e engenhosos efeitos especiais.

A adolescência é a pior fase de vida possível para personagens de um filme de terror. Em slashers, todos os grandes assassinos parecem ter uma predileção enigmática por jovens acabados de sair da puberdade. Em body horror, as mudanças físicas dessa idade tendem a chegar a extremos monstruosos que tanto vitimam o adolescente como as pessoas ao seu redor. Pelo menos, nas narrativas de Stephen King ou histórias feitas ao estilo do seu trabalho, há sempre a forte hipótese de a juventude vir acompanhada de poderes sobrenaturais ou algum valor humano que suplanta os males hediondos do universo.

“Wildling – A Última Criatura” vai buscar um pouco de inspiração ao body horror e ao modelo tipificado por “Carrie”, contando a conturbada história de uma rapariga que se calhar tem mais de animal selvagem que de humano no seu ADN. Nesse sentido, o filme inclui-se numa série de recentes esforços do cinema de terror que posicionam a maturação sexual feminina com condutor de forças sobrenaturais e fomes infernais. São metáforas sanguinárias, onde a confusão da adolescência é explodida através do canibalismo, da licantropia, do vampirismo e, por vezes, até de uma herança genética de origens subaquáticas. Para bem e mal, a primeira longa-metragem de Fritz Böhm assume esta dinâmica de modo curiosamente literal.

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Um conto-de-fadas subvertido.

A heroína do filme, assim como o seu monstro, é Anna, uma menina que passou toda a vida numa cabana isolada na floresta. O pai foi sempre seu solo companheiro e é através das suas histórias que ela vem a saber que o mundo lá fora é perigoso, que bestas selvagens mataram todas as outras crianças e que só o patriarca a pode proteger. Quando Anna tem o seu primeiro período, o pai começa a injetar-lhe algo que diz ser um medicamente pois, afinal, ela está muito doente. Esse medicamento é uma desesperada tentativa de suprimir o estrogénio que ameaça tornar o corpo infantil de Anna no físico de uma mulher.

Essa é só uma das muitas mentiras e traições passadas de pai para filha, algo que ela vem a descobrir quando, anos depois das injeções começarem, seu protetor tenta suicidar-se com uma caçadeira. O som do tiro desperta a atenção dos vizinhos distantes e, de repente, todo o universo de Anna se vira de pernas para o ar e ela descobre que, afinal, o mundo fora da cabana é muito diferente das histórias contadas pelo pai. No hospital, onde o patriarca suicida está em estado crítico, Anna conhece a xerife local, uma mulher paciente e preocupada, que leva a jovem assustada para a casa que partilha com o irmão mais novo, enquanto se esperam pelos resultados de ADN da menor.

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Tais procedimentos legais não sobrevivem a muito escrutínio tal como grande parte dos outros detalhes do enredo de “Wildling”. Este é um conto-de-fadas e sua lógica interna é feita de fórmulas narrativas e racionalidade fabulística. Anna começa por viver numa história fantasiosa no meio da floresta, mas acaba por ser atirada de cabeça para um típico filme americano sobre adolescentes e hierarquias sociais do secundário. Pelo menos, assim é antes de elementos body horror se apoderarem do filme, até que consequentemente dão lugar a um thriller de ação e perseguição entre uma jovem animalesca e os caçadores que veem a sua existência como uma abominação.

Por outras palavras, Böhm e o seu coargumentista Florian Eder não vão ganhar nenhuns prémios ou admiração pela história que aqui edificaram. Contudo, há valor na execução de tais premissas, especialmente no que diz respeito à figura de Anna. Por exemplo, ao contrário do que acontece na maioria destes casos, a transformação que a heroína sofre não é uma fonte de terror existencial. De facto, à medida que ela descobre a sua verdadeira natureza e origens, mais parece segura de si e confortável na pele que habita. Mesmo quando o seu corpo começa a perder as características humanas, nem ela nem o filme reagem com repulsa ou ansiedade, preferindo ver aí glória e libertação.

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Bel Powley é a chave para o sucesso de todo o projeto.

Melhor ainda que tais elementos de caracterização textual ou os efeitos de maquilhagem surpreendentemente convincentes é a prestação de Bel Powley como a adolescente no centro de todo o drama. A atriz inglesa é uma maravilha de fisicalidade expressiva complementada por um olhar que tão rapidamente telegrafa a vulnerabilidade de uma rapariga confusa como a fúria esfomeada de um predador. Powley humaniza Anna, ao mesmo tempo que sublinha a sua especificidade sobre-humana. Ela não se distancia do espectador, mas consegue ilustrar o seu distanciamento das outras personagens. Este desempenho é um passeio pela corda bamba que oscila com cada contradição da personagem, mas a atriz nunca mostra sinais de esforço.

O mesmo não se pode dizer de Brad Dourif, no papel do pai tirano e potencialmente homicida de Anna. Tal como a protagonista, este é um papel cheio de motivações contraditórias que devem tanto a uma tentativa de complexidade psicológica como às fórmulas inerentes aos modelos narrativos do filme. Só que Powley tudo maneja com elegância e claridade, enquanto Dourif tudo indefine e obscura, criando um miasma de incompreensão humana mesmo no centro dramático do filme. Nem mesmo os esforços do resto do elenco, que inclui Liv Tyler num dos melhores desempenhos da sua carreira, conseguem curar as feridas deixadas pela figura do pai no organismo da história.

As políticas sexuais do filme também têm o seu quê de confuso e contraditório, mas, pelo final, há uma linha ideológica que dá estabilidade à obra. Esta é a história de uma jovem cuja existência, sexualidade e identidade são constantemente subjugadas aos ditames de um patriarca ou de uma sociedade incapaz de a compreender. Ela foge e na liberdade deixa para trás a humanidade que toda a vida não foi mais que uma crisálida à espera de ser quebrada. Para Böhm, um realizador que aqui mostra ter bom olho para espetacularidade visual e aproveitamento de recursos limitados, “Wildling” também poderá ser uma crisálida, um filme cheio de fragilidades cujo potencial poderá vir a dar origem a obras muito melhores no futuro. Se o cineasta desejar continuar a arriscar em contos de terror protagonizados pela sublime Bel Poweley, tanto melhor para a sua audiência.

Raiva, em análise
Wilding: A Última Criatura

Movie title: Raiva

Date published: 2018-10-31

Director(s): Fritz Böhm

Actor(s): Bel Powley, Brad Dourif, Liv Tyler, James Le Gros, Mike Faist, Frank Deal, Collin Kelly-Sordelet, Keenan Jolliff, Charlotte Ubben

Genre: Drama, Fantasia, Terror, 2018, 92 min

  • Cláudio Alves - 65
65

CONCLUSÃO

Como primeira longa-metragem do seu realizador, “Wildling – A Última Criatura” é uma admirável tentativa de dar nova vida a uma série de fórmulas narrativas e clichés do género do terror. Nem sempre consegue fazer isso e algumas das suas personagens sofrem sob o peso da ambição textual, mas a performance central de Bel Powley ancora todo o projeto. Considerando que quase todo o filme foi filmado em Nova Iorque, a ilusão de vastos cenários florestais e cavernas ominosas é particularmente brilhante.

O MELHOR: A metamorfose de Anna, tanto ao nível de performance como de execução formal.

O PIOR: A indefinição problemática do patriarca vilanesco, especialmente no que diz respeito ao seu instinto parental em conflito com um sentido de dever caçador.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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