Wonderstruck

Wonderstruck – O Museu das Maravilhas, em análise

Levado à competição no Festival de Cannes do ano passado, “Wonderstruck – O Museu das Maravilhas” é o mais recente triunfo de Todd Haynes, um realizador que raramente se mostrou tão formalmente ambicioso como neste híbrido entre cinema mudo, animação com dioramas e fantasia urbana.

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Em 1991, Todd Haynes estreou-se no panorama das longas-metragens com o audacioso “Veneno”, um tríptico homoerótico que devia tanto ao cinema experimental da época como ao legado de Jean Genet. De imediato, o americano, já relativamente conhecido pela sua controversa curta-metragem animada sobre Karen Carpenter, tornou-se num nome sonante entre a crítica. A sua segunda longa-metragem, “Seguro”, estreada quatro anos mais tarde veio atiçar as labaredas do sucesso, e, chegado o advento do século XXI, a adição de “Velvet Goldmine” à sua filmografia havia tornado Todd Haynes num dos cineastas mais importantes da sua geração. Em 2002, “Longe do Paraíso”, uma desconstrução temática e homenagem estética ao cinema de Douglas Sirk e Rainer Werner Fassbinder, valeu-lhe entrada no círculo restrito do cinema de prestígio, o tipo de cinema que recebe generosas nomeações para Óscares.

A isto seguiu-se a insana biografia fragmentada de Bob Dylan intitulada “I’m Not There”, uma adaptação glacial de “Mildred Pierce” para a HBO e aquele que é provavelmente o seu filme mais bem-recebido e aclamado de sempre, “Carol”. Esse romance LGBT protagonizado por Cate Blanchett e Rooney Mara foi o segundo filme do cineasta a competir no Festival de Cannes e, talvez se não fosse a pressão odiosa de Xavier Dolan entre os jurados desse ano, Haynes teria saído da Croisette com a Palme d’Or. Tudo isto é importante para estabelecer o tipo de antecipação em volta de “Wonderstruck – O Museu das Maravilhas”, a terceira longa-metragem de Haynes a estrear em competição no Festival de Cannes e que, no ano passado, foi recebida com algo tragicamente perto da indiferença crítica e popular. Devido à arriscada ambição formal e narrativa do projeto, é difícil não olhar para tal reação com um módico de surpresa.

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Será que as expetativas do mundo cinéfilo estavam demasiado altas, esperando que Haynes tivesse instantaneamente produzido mais uma obra-prima intemporal ao estilo de “Seguro”, “Velvet Goldmine” ou “Carol”? Será que o problema está no tema, sendo esta uma adaptação de um livro infantil de Brian Selznick e, portanto, o primeiro filme do realizador para um público jovem? Será que o problema se tratou, pelo contrário, de um cansaço generalizado para com a frieza formalista de Haynes? Será até que a sinceridade melosa da narrativa e sua perspetiva indissociavelmente infantil se provaram demasiado anti irónicas para um público habituado a distanciamentos emocionais com pitadas generosas de intelectualismo sardónico? No final, tudo isto são justificações legítimas, se um pouco redutoras, para a receção tépida do filme. No entanto, nada disto implica qualquer inerente falta de qualidade da obra em questão.

Adaptado fielmente do livro ilustrado de Selznick, o mesmo autor responsável pela história original de “A Invenção de Hugo”, “Wonderstruck – O Museu das Maravilhas” segue duas narrativas separadas por 50 anos. A primeira, passada em 1927, representa a aventura da pequena Rose, uma rapariga surda que vive em Nova Jersey e cuja relação com o pai ríspido e a mãe ausente dificilmente poderia ser mais infeliz. Um dia, decidida a encontrar-se com a sua estrela de cinema preferida, ela foge de casa e descobre as maravilhas da Nova Iorque pré-Depressão. Em 1977, Ben é um rapaz do Michigan que recentemente perdeu a mãe e que nunca conheceu o pai. Uma noite, no decurso de uma tempestade violenta, o rapaz é vítima de um acidente bizarro e perde a audição. Desesperado e tendo como única pista para o paradeiro do pai uma mensagem de amor escondida no catálogo de uma exposição do Museu de História Natural de Nova Iorque, o rapaz parte numa peregrinação rumo à Grande Maçã, onde, tal como Rose, passa um dia inesquecível que lhe irá mudar a vida.

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Por esta descrição, é fácil entender quão juvenil esta narrativa pode parecer a fãs de Haynes mais habituados a explorações de desejo reprimido e mitificações complexas de cultura popular. Com isso dito, seria ingénuo presumir que a infantilidade da premissa se traduz numa falta de complexidade concetual ou em qualquer tipo de displicência estética. Este é um filme de Todd Haynes e as suas preocupações do costume estão aqui presentes se bem que de modo menos visível do que é costume. Mais do que patentes no texto, a massa ideológica de “Wonderstruck – O Museu das Maravilhas” vive na sua forma e nos seus silêncios, especialmente no silêncio literal em que o cineasta mergulhou a história de Rose que, aqui, é um filme mudo a preto-e-branco.

Apesar de estar fluidamente entrecortada com essa pantomima silenciosa do passado, a aventura de Ben não é nem muda nem monocromática, sendo rica em sons urbanos, ecos fantasmagóricos de naturezas empalhadas, e em tons de laranja e castanho evocativos de uma Nova Iorque sonhada por alguém que viu muitos filmes dos anos 70. O trabalho de Affonso Gonçalves na montagem e Carter Burwell na música unem as duas metades do filme com estonteante eficácia, tornando a interação das narrativas numa dança sem passos falsos. Ben vive num eco de Rose, e as sementes narrativas dos anos 20 florescem ao som de David Bowie na Nova Iorque pintada de ocre pela fotografia de Ed Lachman.

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Como que dando manifestação cinematográfica à frieza parental que a atormenta, a trama de Rose é marcada por uma tentativa demarcada de Haynes ilustrar o distanciamento entre a protagonista e o mundo que ela habita. Isto resulta numa abordagem um tanto ou quanto fria que depende da expressividade da jovem atriz Millicent Simmonds para não cair na alienação glacial. Tal abordagem complementa e é complementada pelo filme de Ben, onde um enredo improvavelmente bizantino sufoca os impulsos mais sensoriais de Haynes. A harmonia entre estas duas faces da mesma moeda atinge o seu apogeu no fim, quando uma torrente de exposição força o filme a explodir numa loucura de animação e miniaturas que recorda as controversas curtas-metragens que Haynes filmou no início da sua carreira com bonecas Barbies e maquetas rudimentares.

Também da obra passada de Haynes vêm os temas manifestos neste virtuosismo técnico. Referimo-nos à solidão sensorial e emocional dos dois protagonistas, a maravilha da arte e cultura enquanto cristalizadores da imaginação humana, a música popular e o cinema enquanto janelas e espelhos passados de geração em geração, permitindo o vislumbre de realidades distantes ao mesmo tempo que nos forçam a olhar para nós mesmos. Esta arte cristalizada, estes testemunhos intergeracionais tornam-se também em documentos da mudança, essa invariável constante da História que instituições como o Museu de História Natural tentam expor aos olhos dos seus visitantes.

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Mudança constante e almas perdidas, isoladas do mundo que tanto muda em seu redor, desta realidade nasce a melancolia que tantos críticos vêem ora como sentimentalismo meloso ou como frieza inapropriada. “Wonderstruck – O Museu das Maravilhas” vive da inocência infantil, pintada pela mão de tristeza adulta, uma união cinematográfica que assim desabrocha num tipo de presença permanentemente encantada pelo simples ato de observar e ouvir. Observar a arquitetura nova-iorquina, ouvir a harmonia entre os sons do caos urbano e as composições de Burwell, ver os meticulosos cenários e figurinos de Mark Friedberg e Sandy Powell, ouvir alegria maternal no “Space Oddity” de Bowie, ver a ternura trágica na face de Julianne Moore. Ver e ouvir e ficar-se maravilhado, isso é cinema e isso é “Wonderstruck – O Museu das Maravilhas”, o triunfo mais subvalorizado da carreira de Todd Haynes.

Wonderstruck - O Museu das Maravilhas, em análise
Wonderstruck : O Museu das Maravilhas

Movie title: Wonderstruck

Date published: 2018-03-25

Director(s): Todd Haynes

Actor(s): Millicent Simmonds, Oakes Fegley, Jaden Michael, Julianne Moore, Michelle Williams, Tom Noonan, Cory Michael Smith, James Urbaniak

Genre: Drama, Família, Mistério, 2017, 116 min

  • Cláudio Alves - 85
  • José Vieira Mendes - 70
78

CONCLUSÃO

“Wonderstruck – O Museu das Maravilhas” é uma maravilhosa elegia de Todd Haynes ao cinema e à arte, ao ato de tentar preservar o nosso tempo e cristalizar os encantos da imaginação humana de modo a que esta possa ser partilhada em comunhão. É também uma aventura infantil comovente que, nos seus últimos minutos, parece quase desafiar abertamente o espetador a chorar perante o seu melodrama familiar.

O MELHOR: A concretização formal do filme, especialmente o que diz respeito a montagem e música.

O PIOR: A prestação de Oakes Fegley, um pequeno desastre que ameaça descarrilar todo o filme, especialmente quando Haynes apoia no rapaz o peso emocional de qualquer cena.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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