A Bela e o Monstro, em análise

Chega finalmente às salas de cinema A Bela e o Monstro, um dos filmes mais aguardados da Walt Disney Pictures, mas o resultado não traz nada de novo.

Já foram muitas as adaptações e (re)imaginações da obra original de Gabrielle-Suzanne Barbot, escrita e publicada em 1740, e posteriormente re-publicada em 1756 por Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, que de alguma forma ‘reformou’ o trabalho prévio de Barbot. A Bela e o Monstro é tão amado por vários públicos em todo o mundo, que de vez em quando sempre surge uma adaptação, ou re-adaptação, que quer retirar o livro, os filmes, enfim, aquela tão deliciosa história sobre a beleza interior, das poeiras e das encruzilhadas impostas pelos limites do próprio tempo.

Com dezenas de registos artísticos, A Bela e o Monstro passou da literatura, para o teatro, para a ópera, para a televisão e para cinema, onde a magia poderia ser sentida pelo ser humano numa sala escura. Além disso, sempre esteve presente no lar de muitas crianças (fossem meninos ou meninas) que à sua maneira reinventavam com brinquedos, e com os seus familiares, a história. Para além da riquíssima adaptação e encenação do cineasta, poeta e surrealista Jean Cocteau, que em 1946 mostrava como haveria espaço na sociedade para os indivíduos que sobreviveram aos tensos conflitos decorridos durante a segunda guerra mundial, numa reconstrução da França e dos seus valores românticos, a outra versão mais conhecida d’A Bela e o Monstro é de 1991, e provém do registo da animação tradicional.

Como é provavelmente sabido, esse filme, também produzido pela Walt Disney, ficou marcado por um acontecimento verdadeiramente histórico quando se tornou o primeiro filme de animação nomeado ao Óscar de Melhor Filme, quando a categoria para filmes do seu género ainda não existia (seria apenas introduzida em 2002). A inspiração deste “clássico” conto estendeu-se ainda a outras dezenas de histórias como aquelas sobre Frankenstein, ou até com maior evidência em King Kong (ambas as versões de 1933 e 2005 assumem-no através a mítica frase “foi a beleza que matou o monstro”).

A Bela e o Monstro

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Não foi, portanto, nada surpreendente quando em abril de 2014, a Walt Disney Pictures confirmava que finalmente tiraria da gaveta a ideia para o desenvolvimento de uma versão live-action. Tudo com pernas para andar ao estilo de filmes como Alice no País das Maravilhas (Tim Burton, 2010), Maléfica (Robert Stromberg, 2014), Cinderela (Kenneth Branagh, 2015) ou de O Livro da Selva (Jon Favreau, 2016), este último recentemente galardoado com o Óscar de Efeitos Visuais. A Disney tomava então posse de uma história por ela própria imortalizada, demonstrando a chama luminosa de interesse do público (ele mesmo consumido pelo narcisismo nos tempos das redes sociais) pela fábula.

O enredo continua a ser exatamente o mesmo. A Bela e o Monstro relata a fantástica jornada de descoberta e crescimento de Belle (Emma Watson), uma rapariga bonita e demasiado inteligente e modernista quando comparada com as outras raparigas do local onde habita – a pequena aldeia de Villeneuve, situada no interior da França-, que é feita refém de um horrível Monstro (Dan Stevens) num gigantesco castelo, entretanto esquecido por todos. Apesar da sua situação, Belle faz amizade com os encantados empregados do castelo – um(a) bule de chá, Mrs. Potts (Emma Thompson), e um seu filho, uma xícara Chip (Nathan Mack), um candelabro chamado Lumière (Ewan McGregor) e o relógio de sala Cogsworth (Ian McKellen), entre outros-, acabando por perceber que por debaixo daquele monstro existe um verdadeiro príncipe que só poderá assumir a sua forma humana quando encontrar o verdadeiro amor e esse for, por sua vez, correspondido.

A Bela e o Monstro

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Claro que, como já tem sido habitual nos seus live-action, a Walt Disney optou por um elenco completamente all-star para, obviamente, conseguir captar a atenção do maior número de espetadores e de fãs. Na verdade, o filme deverá mesmo atingir recordes de bilheteira logo neste seu fim-de-semana de estreia, sendo que nos Estados Unidos ultrapassará a marca dos 120 milhões de dólares. Mas, para além, dessa necessidade pós-moderna do cinema revisitar o passado e as suas matrizes narrativas (neste caso, como herdeiro do conto de fadas), será realmente necessária esta adaptação de A Bela e o Monstro? A resposta é um simples e muito lamentável não.

É importante perceber que, como conto, A Bela e o Monstro acarreta consigo a possibilidade de se adaptar a tão diversificados contextos sócio-culturais e, por sua vez, políticos, algo que esta versão não esquece, como veremos adiante. Contudo, o filme surge como insignificante imitação, quase plano a plano, do filme de animação de 1991, faltando alguma criatividade durante a sua projeção (exuberantemente apresentado no novo formato expandido do Expanded IMAX). Não seria mais impactuante lançar pela terceira vez a animação que caso se lembram já teve uma brilhante versão em 3D reposta em sala?!

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É que Bill Condon, um cineasta já habituado a estas andanças do mundo dos musicais, como o caso de Dreamgirls (2006), e ironicamente a versão “pobre” de A Bela e o Monstro chamado Twilight (Condon realizou os últimos dois capítulos) parece apenas colocar em prática o conceito de um pastiche (de “pasticcio”), que designa qualquer obra de arte composta de motivos emprestados de um ou mais mestres ou obras de arte), mas em nada fá-lo bem. O cineasta repete até à exaustão a forma como a trama e as imagens estavam dispostas no filme de 1991, que nos faz perceber tudo o que está prestes a acontecer. É como se tivéssemos peças de um puzzle lado a lado, prontas para serem encaixadas.

Outra característica é que Condon não deixa a câmara mexer-se pelos espaços, em que tudo parece muito, mas mesmo muito apertado. Por exemplo, ao contrário do filme de animação, onde a casa onde Belle morava com o seu pai Maurice estava colocada no sítio mais afastado da aldeia, para tornar as divergências sonantes daqueles dois habitantes estranhos e dissidentes, neste caso ela está bem no centro da aldeia. Os cenários nunca conseguem respirar, e tudo é filmado bem perto, com close-ups e planos próximos excessivos, que jamais dão tempo para o espetador parar, a fim de descobrir com calma a imagem, ou seja, de desvendar os seus pequenos segredos e detalhes.

A Bela e o Monstro

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Essa prática obsessiva chega mesmo a causar mau-estar.  Como enormes fãs que somos do filme original, talvez dos mais belos filmes de animação alguma vez feitos na história do cinema, seria difícil deixar-nos levar por esta versão humana. Irónico é que de humano esta aventura tem muito pouco, quando realmente a comparamos ao filme de animação.

Todo o filme (ou quase) parece estar acompanhado de uma plasticidade de tamanha opulência, em que também as personagens parecem não ter muito espaço para se moverem, sobretudo quando a câmara se encontra no castelo. Os efeitos visuais, mesmo com as mais variadas cores latentes, revelam uma certa sensação de imagem embaciada que, por diversas vezes, o levará a fechar os olhos, e isso é um resultado das fracas técnicas de encenação. São tantos os momentos assim, nos quais depreendemos esse uso e abuso de CGI, que vale a pena insistir o quanto isso prejudica a percepção do filme.

As personagens digitais estão muito mal concebidas, e visual e esteticamente não têm nada de encantador. O Monstro até parece saído da loja de brinquedos mais humilde de sempre (parece um doce e fofinho urso de peluche, não é verdade?), sem qualquer ferocidade ou dimensão verdadeiramente animalesca. O mesmo nunca chega a andar sobre as quatro patas. Na animação havia esse cuidado, que por conseguinte, se traduzia num progresso significativo dos seus movimentos e alterações físicas. No início, ele é mais animal, e ao longo do tempo torna-se, à sua maneira, ‘humano’ porque é ajudado por Belle a se (re)inserir no mundo do qual já fez parte.

Inclusive, o seu olhar transponha e bem o seu íntimo. Era exatamente através dos seus belíssimos e brilhantes olhos azuis que conhecíamos os mais diversos sentimentos de raiva, de misericórdia, de paixão, de compaixão e felicidade da assustadora besta. Sentimos falta dessa exploração do corpo e da alma daquele que no final será “humano outra vez”. Ao mesmo tempo, face ao sentido de espetáculo do filme, parece sempre faltar quelque chose, aquele espírito que nos faça transcender este mundo e encontrar outro lá bem longe, numa realidade alternativa à nossa tão banal existência.

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Também a banda-sonora continua a ser a mesma, só com uns arranjos musicais novos que querem provavelmente ultrapassar os níveis-limite de som. Alan Menken, que ganhou um Óscar de Melhor Banda-Sonora Original pela versão em animação, regressa para a composição, mas parece querer misturar todos os ritmos e acordes para transpor a maior fluidez possível. Não há tempo para coisas verdadeiramente interessantes porque tudo passa a um ritmo acelerado.  Como seria de esperar, tudo parece ser feito neste domínio com a maior das naturalidades, mas sem nunca conseguir fazer arrepiar os nossos pelos da nuca.

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O elenco não está de todo mal. Não obstante, para além de Emma Watson, Luke Evans e Josh Gad são os únicos que se destacam. Apesar das suas limitações nas melodias que canta, Emma Watson consegue ser a escolha mais fiel para interpretar Belle nos dias que correm. Belle é essa jovem que sabe ler e escrever, que consume todos os livros da pequena biblioteca local (inserida na Igreja), e que anseia transmitir os seus conhecimentos às gerações futuras. Paralelamente não é essa jovem que se deixa levar por futilidades, nem pelos extravagantes objetos de requinte e excesso de maquilhagem de algumas das suas conterrâneas. Belle é independente e nunca chega a ser uma mulher submissa como outras da época, sabendo bem o que quer e porquê o quer. Vemos sempre uma Belle e uma Emma Watson fortes e com muita determinação. Por isso, Emma Watson assume como um reflexo autêntico desta personagem porque luta pela igualdade de género dentro da própria indústria e na sociedade, alguém que olha para o futuro. Para mais, Belle nunca olharia apaixonadamente para Gaston (Luke Evans), um homem repulsivo, que nada tem de honesto ou sequer de puro.

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Verdadeiramente apaixonado pela sua imagem, sendo o completo oposto à evolução do Monstro, Gaston é um personagem que rouba quase por completo a nossa atenção. Tanto ele, como Lefou, interpretado pelo extraordinário Josh Gad (que deu voz a Olaf, o boneco de neve de Frozen – O Reino de Gelo). A personagem que apoia o seu amigo em quase todas as decisões, impõe-se como a voz da razão, que ao início quer ser Gaston, mas mais tarde percebemos que sempre estivera apaixonado por ele. A trama expõe, como tem vindo a ser noticiado nas últimas semanas, a homossexualidade desta personagem.

Mesmo que algumas vezes caricaturado, a homossexualidade não é em nada forçada e até servirá para o personagem descobrir de que lado está. A dupla brilha realmente quando começam a cantar “Gaston” e os efeitos visuais são sucumbidos em detrimento da única sequência do filme (e canção) aperfeiçoada quando se estabelecem comparações ao filme de 1991. Além disso, tantas vezes nos questionamos em relação à virilidade de Gaston, querendo ser provavelmente representado como personagem bissexual (ou alguém que prefere negar a sua homossexualidade, tendo em conta o contexto social e cultural da época representada), e aqui a Walt Disney transmite a sua mensagem, com a sua tão habitual subtileza.

A Bela e o Monstro não só dá passos em frente na representação das personagens LGBT, como prima pela diversidade do seu elenco, posto que temos um lote de personagens negras e de casais inter-raciais. Valem as presenças de Audra McDonald, o vozeirão desta adaptação, e atriz recordista vencedora de 6 Prémios Tony, que já participou noutro filme sobre música Ricki e os Flash, e a aparição de Gugu Mbatha-Raw, como Plumette. Presenças verdadeiramente desnecessárias contam-se a da feiticeira (Hattie Morahan) ao longo da trama, e até a da mãe de Belle, a evidenciar como o espetador contemporâneo já não tem tempo para pensar no que está para além das imagens, no domínio do imaginário. O filme mergulha o espetador em conteúdos complementares que são totalmente desnecessários.

Enfim, apesar de tudo isto assimilamos claramente que estilo de produções Hollywood quer optar. Trata-se não só de reerguer o musical de uma vez por todas das cinzas – a ver o esplêndido La La Land: Melodia de Amor – como perceber que existe público para histórias do género. Pena, que esta versão de A Bela e o Monstro não seja lá muito original e fique apegada, de certa maneira, ao passado, apenas como uma forma de gerar avultados valores na bilheteira e não criar uma interessante obra-prima.

O MELHOR – Aproveitar para rever A Bela e o Monstro de 1991, e descobrir a versão de 1946 de Jean Cocteau.

O PIOR – A prova de como técnica do “copiar/colar” também pode subsistir no cinema de forma negativa. Os efeitos visuais que tornam as imagens demasiado ásperas.


Título Original: Beauty and the Beast
Realizador:
Bill Condon
Elenco:
Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Kline
NOS | Musical, Aventura | 2017 | 129 min

A Bela e o Monstro

Ana Rodrigues
Ângela Costa
Catarina d'Oliveira
Cláudio Alves
Daniel Rodrigues
José Vieira Mendes
Filipa Machado
Maria João Bilro
Marcos Mendes
Miguel Simão
Rui Ribeiro
Virgílio Jesus
 


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Sobre Virgílio Jesus