Código de Família, em análise

Michael Fassbender e Brendan Gleeson encabeçam o elenco de Código de Família, o primeiro filme do realizador britânico Adam Smith.

código de família adam smith

Filmes sobre criminosos a tentarem mudar de vida são tão antigos como o género criminal do cinema, ou seja, há mais de oitenta anos que nada disto é novidade. Idem filmes focados na crise interior de um homem a enfrentar o desafio de fugir ao legado pérfido da sua família. Quando acrescentamos a esta receita cinematográfica uma boa dose de crise de masculinidade, temos basicamente metade dos filmes americanos mais famosos dos anos 70 – afinal, o que é O Padrinho senão a conflagração, apimentada com peso histórico e dimensões épicas, destas três muito semelhantes premissas narrativas? Tudo isto para dizer que, Código de Família é um filme com ideias tão clichés e antigas que poderia ser uma espécie de jogo de códigos e narrativas cinematográficas nas mãos de outro cineasta que não Adam Smith, o realizador que assina aqui a sua primeira longa-metragem depois de uma frutífera carreira no mundo da música e da televisão de prestígio britânica.

Tal falta de invenção ou criatividade não implica nenhum tipo de inaptidão técnica e, de facto, Adam Smith está longe de ser um realizador desprovido de talentos ou competência. Basta vermos a abertura de Código de Família, em que a câmara, posicionada na parte da frente de um automóvel em perseguição de um coelho selvagem. É um momento de febril energia cinética que nos mergulha de imediato na realidade das personagens e sua vivência nómada e sempre pontuada pelo fulgor da violência e a adrenalina da perseguição – se bem que, normalmente, sãos as personagens em questão que estão a ser perseguidos.

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Eles são os Coulter, uma família de criminosos britânicos que vive em rulotes e, quando a sua reputação lhes torna impossível permanecer num local sem serem presos, viajam para outra localidade. O seu modo de subsistência são os assaltos que estão sempre a fazer com grandes mansões de campo a servirem como os seus principais alvos. Apesar de tudo isso, Chad (Michael Fassbender) aspira a um dia poder dar uma vida estável aos seus filhos, por muito que isso vá contra a vontade do seu autocrático patriarca, Colby (Brendan Gleeson), e a sua própria natureza pessoal – é evidente, nas várias cenas de perseguição que pontuam os 99 minutos de Código de Família, quão Chad vive para a emoção eletrizante da fuga desesperada.

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Se formos honestos, há pouca propulsão dramática a mover a narrativa, tirando os conflitos crescentes entre Chad e Colby, e entre Chad e o seu filho mais velho cujos comportamentos progressivamente rebeldes são um claro fruto da doutrinação organizada pelo seu avô. Colby deseja que as gerações mais novas da sua família sigam a mesma filosofia e estilo de vida que ele tanto promove e é impossível ignorar quão o patriarca se vê a si mesmo como uma força quase cósmica de razão universal, nunca errado, nunca indeciso, sempre uma constante fonte de estabilidade e o derradeiro protetor da sua família.

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Pela sua parte, Brendan Gleeson é soberbo a encarnar de Colby, especialmente nas cenas em que o mestre criminoso se desdobra em floreados discursos sobre a sua semelhança a Cristo ou como os professores dos netos os estão a enganar com noções absurdas de evolução ou de como a Terra é esférica. Há um peso e gravidade quase Shakespereano mesmo nas afirmações mais rebuscadas da personagem e tudo isso se deve a Gleeson que tece ouro ao fiar a palha do argumento banal que foi escrito por Alastair Siddons. O mesmo não acontece com Fassbender que, infelizmente, é o alicerce sobre o qual todo o filme se deveria apoiar.

Não é que o ator seja necessariamente mau, mas, talvez pela primeira vez, Fassbender deparou-se com um papel para o qual o seu carisma natural não é somente inapropriado mas irreversivelmente venenoso. Nunca é fácil para audiência acreditar que Chad é fruto do ambiente socioeconómico tão pornograficamente capturado pela câmara de Smith, por exemplo. Nem mesmo a relação trespassada de subserviência entre o protagonista e seu pai consegue alguma vez ser totalmente credível. Em contrapartida, há que louvar a química de Michael Fassbender com os atores que interpretam os seus filhos e mulher, mesmo que as personagens femininas sejam pouco mais que adereços no contexto da narrativa.

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Para além dessas interações intergeracionais, as cenas de ação constituem o ponto alto tanto do filme como do desempenho do seu ator principal. Uma perseguição noturna que envolve um instante de nauseante violência contra um animal é uma montra soberba para a segurança técnica de Adam Smith, especialmente a sua aptidão para a construção de crescentes níveis de tensão sem nunca recorrer a mecanismos sensacionais ou demasiado óbvios no seu dramatismo. A soberba sonoplastia também ajuda, especialmente quando a música da dupla The Chemical Brothers começa a ressoar na banda-sonora, sugerindo algo muito maior que esta banal narrativa, algo mias próximo do mito, mais apropriado às paisagens rurais que se estendem até onde a vista alcança e parecem quase gozar com a pequenez dos humanos e suas mesquinhas preocupações.

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No final, a banda-sonora é mesmo o único elemento cinematográfico que vem em auxílio de uma narrativa a descarrilar a velocidade vertiginosa. A bizarra decisão de dar ao filme um final feliz de esperançosa ambiguidade é talvez a mais terrível manobra dos cineastas que parecem decididos a violar a integridade da sua história e personagens para não terminarem o projeto numa nota deprimente. Enfim, de um modo geral, o filme mostra o potencial de Adam Smith enquanto realizador de cinema e, mesmo que os resultados não sejam brilhantes, podemos ver a sugestão de futuros trabalhos bem melhores que esta obra de estreia. Se tudo correr bem, é possível que o cineasta mantenha a sua aptidão para manipular energia cinética e criar esplendorosas paisagens sonoras e as aplique a um projeto mais interessante, original ou genuinamente dramático que Código de Família.

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O MELHOR: A magnética presença e prestação de Brendan Gleeson como Colby.

O PIOR: Para além da falta de originalidade na premissa narrativa, sua execução desinspirada, uso abusivo de simbologia animal e a misoginia latente ao argumento, é o modo como Adam Smith apresenta as esquálidas condições de vida das suas personagens que mais perturba o espetador. A expressão anglófona “poverty porn” é bastante apta para descrevermos essa apresentação, de facto. A prestação, quase animalesca, de Sean Harris é particularmente desagradável e estaria mais coerente num tableaux de bizarria circense à la Fellini que num filme tão apoiado num registo naturalista como Código de Família.



Título Original:
Trespass Against Us
Realizador:
Adam Smith
Elenco:
Michael Fassbender, Brendan Gleeson, Lyndsey Marshal,  Rory Kinnear, Sean Harris
NOS | Drama, Crime, Ação | 2016 | 99 min

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